Indígenas do Brasil
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no Brasil: Estado nacional e políticas públicas 109
paritária de indígenas e governo, e que contou em vários momentos com a 
presença do Presidente da República e seus ministros em discussões e decisões 
compartilhadas. A CNPI se reúne ordinariamente e dentre suas competências 
tem a de acompanhar o planejamento, monitoramento e avaliação das ações 
desenvolvidas pelos órgãos da administração pública federal, propor a atua-
lização da legislação e acompanhar a tramitação de proposições legislativas, 
relacionadas aos povos indígenas. A CNPI representa um importante passo na 
relação do Estado com os povos indígenas, possibilitando o diálogo, a coope-
ração e o respeito mútuo.
 Em 2009 houve a realização da primeira Conferência Nacional de Educação 
Escolar Indígena, organizada pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), 
e a criação no mesmo ano, pelo decreto n° 6.861, dos Territórios Etno-Edu-
cacionais. Em março de 2010, pela Medida Provisória 483, foi transferida a 
competência de execução da saúde indígena da Funasa para o Ministério da 
Saúde, por meio da criação de nova Secretaria Especial de Saúde Indígena 
(SESAI). Todas essas medidas foram frutos de amplos debates e negociações.
No que diz respeito ao órgão indigenista, a Funai vem sendo alterada e 
ampliada em sua estrutura, inclusive de pessoal, desde 2004, e de forma mais 
substancial a partir de 2007. A Medida Provisória n° 441 de 2008, conver-
tida na Lei n° 11907/2009, recompôs os quadros técnicos da Funai, com a 
criação de 3.100 novos cargos (cerca de 640 já preenchidos por concurso em 
2010-2011) de Indigenista Especializado, Agente em Indigenismo e Auxiliar 
em Indigenismo. Os decretos n° 7.056 de dezembro de 2009, e n° 7.778 de 
julho de 2012, deram à Funai um novo Estatuto, com a missão de \u201cproteger 
e promover os direitos dos povos indígenas, em nome da União\u201d e \u201cformular, 
coordenar, articular, monitorar e garantir o cumprimento da política indige-
nista do Estado brasileiro\u201d, e um novo organograma, ambos vinculados con-
ceitualmente aos parâmetros da Constituição de 1988 e da Convenção 169 
da OIT, rompendo uma visão tutelar e assimilacionista que ainda vigorava 
no ordenamento anterior. Outra mudança importante foi a atribuição dada 
à Funai, que ela não tinha formalmente até então, de coordenadora e articu-
ladora da política indigenista do Estado brasileiro, conferindo-lhe um papel 
político institucional mais amplo e de caráter estratégico, como se pode ver 
na elaboração dos Programas Plurianuais de governo desde 2007. O papel 
110 Indígenas no Brasil
central da Funai na condução da Politica Nacional de Gestão Territorial e 
Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), instituída pelo Decreto n° 7.747, 
de junho de 2012, é um dos exemplos de projeção para o futuro desse novo 
papel institucional. A implantação do Centro de Formação em Política Indi-
genista, vinculado à Funai, na cidade de Sobradinho, é outro exemplo dessa 
nova visão de futuro.
Ao adotar tais medidas para reestruturar a política indigenista, o governo 
federal associou novos parâmetros conceituais e metodológicos a iniciativas 
estruturais, organo-funcionais e regulatórias, traduzidas pelos Planos Pluria-
nuais \u2013 PPAs de 2004-2007, 2008-2011 e 2012-2015, que foram se aperfei-
çoando ao longo dos últimos anos. No Plano Plurianual 2008/2011 - Pro-
teção e Promoção dos Povos Indígenas, elaborado em 2007, já se estabelecia 
como meta uma reestruturação da Funai nos anos seguintes, estabelecendo 
os princípios norteadores dessa transformação, baseados nos conceitos de 
proteção, promoção de direitos, gestão compartilhada e territorialidade. A 
partir dessas quatro diretrizes foi iniciada a revisão da estrutura organizacio-
nal da Funai, para dar mais solidez aos princípios de uma política indigenista 
que reconheça a autonomia e o direito de participação dos povos indígenas. 
Assim foram estruturadas 37 Coordenações Regionais, em todas as unida-
des federativas, com cerca de 300 Coordenações Técnicas Locais (CTLs), 
designadas para atuarem junto às terras indígenas sob sua jurisdição, a partir 
de planos de trabalhos a serem elaborados juntamente com as comunidades 
indígenas envolvidas, superando a ideia de uma atuação estatal assistencial 
ou tutelar e autoritária.
Nessa nova estrutura, os Comitês Regionais, de composição paritária en-
tre servidores da Funai e representantes indígenas indicados pelas diferentes 
etnias da região de atuação da unidade regional do órgão, garantem um pro-
cesso democrático na gestão compartilhada da instituição, bem como o mo-
nitoramento e o exercício do controle social junto aos diferentes órgãos que 
atuam junto às comunidades indígenas, como afi rmação do reconhecimento 
do direito a organização desses povos. Essa reformulação também teve como 
objetivo conferir maior capacidade de atuação do órgão indigenista, frente 
aos crescentes e complexos desafi os decorrentes da aceleração do crescimento 
econômico do país que afetam direta e indiretamente povos e terras indígenas.
Introdução \u2013 Indígenas no Brasil: Estado nacional e políticas públicas 111
Outro aspecto resultante dos investimentos estratégicos em curso na rees-
truturação da política indigenista é a aproximação e articulação da Funai, e 
das comunidades indígenas com vários órgãos de governo e organizações da 
sociedade civil, como também com a cooperação internacional, seja por ins-
trumentos de colaboração seja no diálogo para o compartilhamento de ações 
e investimentos. Isso vem propiciando a incorporação da temática indígena, 
e das especifi cidades necessárias para a promoção e proteção dos direitos indí-
genas, nas diversas áreas de atuação governamental e não governamental, de 
maneira mais integrada. Também os investimentos em capacitação e formação 
de profi ssionais, inclusive indígenas, nas mais diversas áreas têm contribuído 
para essa mudança de paradigma da política indigenista nacional.
A revisão e aperfeiçoamento do componente indígena dos últimos Planos 
Plurianuais resultaram no principal alicerce da política indigenista brasileira, e 
sua continuidade está explicitada no Programa de Proteção e Promoção dos Di-
reitos dos Povos Indígenas, no Plano Plurianual 2012-2015. Este programa re-
sume os compromissos dos governos do presidente Lula e da presidenta Dilma 
Roussef com os Povos Indígenas e acende a perspectiva do Direito como espaço 
de luta e conquista de cidadania por parte dos indígenas brasileiros. Sempre é 
bom ressaltar, porém, as contradições de interesse que permanecerão em pau-
ta nos próximos anos em relação aos direitos indígenas no Brasil, sobretudo, 
como já foi citado, em relação a forte dinâmica econômica pela qual o Brasil 
vem passando e, provavelmente, continuará vivendo no próximo período, com 
ênfase na expansão do capital na região Centro-Oeste e na Amazônia.
A presença indígena nas 
cidades
Lucia Helena Rangel
Luciana Galante
Cynthia Franceska Cardoso
Cenário de uma grande diversidade cultural e linguística, o Brasil abriga 305 povos indígenas, falantes de aproximadamente 274 línguas. Segun-
do os dados do Censo Demográfi co do IBGE 2010, apenas 3% da população 
brasileira se autodeclarou indígena. No entanto, na pesquisa realizada pela 
Fundação Perseu Abramo 30% afi rma ter ascendência indígena em suas últi-
mas gerações familiares, sem muitas vezes, identifi car a etnia a que pertencem 
ou pertenciam.
Afi rmar ter ascendência indígena, mas não se autodeclarar indígena pode 
ser um forte indicativo de que, durante o processo de formação do Estado-
-Nação brasileiro, certos grupos étnicos foram distanciados de seus povos de 
origem, promovendo um processo de ocultamento de seus vínculos culturais, 
o que engendra uma consciência envergonhada, provavelmente consequência 
do medo da escravidão e do racismo. Assim, o projeto político, que foi domi-
nante na primeira