Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


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A Funai surge como o principal 
órgão que forneceu assistência nessa situação. 
Há, por parte da sociedade envolvente, uma idealização estereotipada dos 
indígenas, que ao atribuir-lhes o status de \u201cselvagem\u201d e associá-los à natureza, 
reforça o fato da cidade não lhes pertencer e tampouco ser um lugar que lhes 
garanta os direitos constitucionais. Afi nal, a maioria das populações indígenas 
é considerada uma \u201cameaça\u201d à ordem por não se \u201cadequarem\u201d ao modo de 
vida na cidade e não corresponderem às expectativas da nossa sociedade. As-
sim como os refugiados estrangeiros, os indígenas também enfrentam acusa-
ções diversas como a de viverem às custas dos benefícios sociais, de roubarem 
empregos ou trazerem doenças desconhecidas. 
Percepção de si através do outro, cotidiano 
do indígena na cidade
Quando questionados se ser ou não ser índio no Brasil é diferente ou a mesma 
coisa, 61% dos indígenas afi rmam que é diferente, 37% que é a mesma coisa 
A presença indígena nas cidades 121
e 2% não sabe dizer. Entre a população não-indígena, 67% afi rma que é di-
ferente ser índio, 27% afi rma que é a mesma coisa e 5% não sabe responder.
Os aspectos negativos apontados pelos indígenas que percebem a diferença 
em ser indígena correspondem a 67%. O principal fator mencionado refere-se 
a persistência do preconceito e discriminação, citado por 42% dos que per-
cebem diferenças. A maior difi culdade em ter acesso à educação de qualidade 
surge com 13%, seguido pela a imposição sociocultural dos brancos (como a 
língua, religião, entre outras) e por diferenças nas relações de trabalho quando 
comparados à sociedade envolvente, ambas com 9% cada. O descumprimen-
to dos direitos indígenas (5%), a existência de confl itos em seus territórios, a 
pressão que sofrem com fazendeiros (4%), a falta de assistência do governo e a 
saúde precária também estão entre os aspectos negativos apontados pelos indí-
genas urbanos que percebem diferenças entre ser índio ou não-índio no Brasil. 
Diferenças positivas também foram apontadas por 21% dos indígenas: a 
preservação de seu modo de vida e sua cultura foi citada por 8% e a atual 
existência de direitos para os indígenas contou com 7%. 
Há também os que não percebem a diferença entre ser indígena e não ser 
(37%). A maioria aponta características positivas, tais como a existência de 
direitos citada por 38% que afi rmam que os indígenas têm os mesmos direitos 
que o restante da sociedade, seguida da igualdade como seres humanos com 
32% e igualdade no modo de vida com 19%, atentando para as mesmas neces-
sidades com relação ao acesso à moradia, alimentação, vestuário, entre outros. 
Entre os que não percebem a diferença (37%), 9 % afi rmam que a inserção 
na cidade os aproxima do restante da população e 6% afi rma que o preconcei-
to diminuiu. Aspectos negativos também são apontados pelos que não perce-
bem a diferença: 2% afi rmam que o preconceito e a discriminação continuam 
e 2% percebem que as difi culdades são iguais para todos. 
Para 59% dos indígenas que vivem em contexto urbano a condição atual da 
população indígena melhorou quando comparada há 20 ou 30 anos, condição 
com a qual 43 % da população nacional concorda. No entanto, 23% dos indí-
genas afi rma que a condição está pior e na população não-indígena, o número 
de entrevistados que acredita que a situação piorou é de 32 %. 
Isso mostra que apesar dos inúmeros problemas que enfrentam nos centros 
urbanos, uma grande parcela dos indígenas aponta para uma melhoria em sua 
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qualidade de vida, sendo o acesso à educação e a possibilidade de dar conti-
nuidade aos estudos, o principal motivo apontado por 44% dos entrevistados, 
que acham que a situação indígena melhorou. Os programas sociais do gover-
no como bolsa família, vale-renda, aposentadorias, o apoio da Funai, Ongs e 
demais entidades também são citados por 38% dos entrevistados, seguidos 
pelo acesso à saude (29%) dos que notam melhora. A inserção no mercado 
de trabalho e o acesso a bens de consumo são mencionados como aspectos da 
melhoria por 19%, seguidos pelo direito à terra (19%), à conquista de espaço 
na sociedade nacional (19%), aos direitos básicos como proteção, reconheci-
mento, documentação (17%) e a não-violência (6%).
Apesar dos avanços apontados por alguns, 23% dos indígenas mencionam 
que a situação piorou. Curiosamente, na população geral o índice é maior, são 
32% os que acreditam na piora. Dos 23% dos indígenas que indicam a piora da 
situação, 38% apontam que a exclusão econômica que os remete à mendicân-
cia, ausência de moradia, escassez de alimentos e trabalho é um dos principais 
aspectos da piora. A destituição de seus territórios de origem e a impossibilidade 
de realizar suas práticas culturais surge como alguns dos principais problemas, 
ambos apontados por 37% cada. A ausência de apoio do governo também foi 
mencionada como um dos fatores por 18%, assim como a perda dos recursos 
naturais necessários para a vida na aldeia, a violência e discriminação que vitimi-
za as populações indígenas (citados por 15% e 13%, respectivamente). 
Uma parcela dos indígenas (10%) acredita que não houve mudanças na 
situação. Destes, 55% atribuem à continuidade da discriminação, sendo a 
exclusão social e exploração da população os principais fatores que impedem 
os avanços sociais; 36% indicam a falta de apoio do governo com a ausência 
de políticas afi rmativas, como uma condição para a estagnação, seguidos pela 
disputa de terras, sobretudo a inefi ciência de demarcação das mesmas (17%), 
difi culdade de acesso à educação (14%) e ao trabalho remunerado (10%). 
Contemporâneo e histórico, desrespeito 
aos povos indígenas
Os confl itos envolvendo os povos indígenas na atualidade são diversos e perce-
bidos por 58% dos indígenas entrevistados e 61% da população não-indígena. 
A presença indígena nas cidades 123
Dos indígenas que percebem os confl itos, 73% mencionam que estes estão as-
sociados à questão da terra, sobretudo a invasão de terras indígenas por fazen-
deiros, arrozeiros, pecuaristas, garimpeiros (36%); alguns apontam a invasão 
dos índios como principal motivo do confl ito (2%). Outros 30% afi rmam a 
existência de disputas pela terra, e 7% apontam que os confl itos estão associa-
dos com as políticas e os procedimentos de demarcação das terras indígenas.
Referências a confl itos envolvendo mortes, violência e crimes foram feitas 
por 24% dos indígenas entrevistados, sendo que 11% apontam para brigas 
e violência sem extermínio físico e 10% para mortes e massacres contra os 
indígenas. Também foram feitas referências a confl itos envolvendo questões 
ambientais por 4% dos entrevistados, destacando-se o desmatamento e a ex-
ploração de recursos naturais como madeira, minérios e petróleo. Manifesta-
ções, reivindicações e defesa dos direitos foram citados por 3%, principalmen-
te pelos indígenas de Manaus.
Entre os indígenas, 34% apontam a região Centro-Oeste como a principal 
zona de confl itos, sendo o estado do Mato Grosso do Sul o mais citado, por 
22%. A região Norte surge com 24%, destacando-se o estado do Amazonas, 
com 13% de menções, seguida pelo Nordeste, com 21% das citações (com 
maior atenção para o estado do Ceará, apontado por 15%). A região Sul foi 
mencionada por 7%, em que 6% indicam o Rio Grande do Sul como o Esta-
do foco de confl itos. 
Os confl itos envolvendo o povo Guarani foram citados por 15% dos in-
dígenas, 13% mencionam os Terena e 11% citam os Tapeba. Ainda com 
relação aos confl itos, 31% dos indígenas apontam fazendeiros e/ou represen-
tantes envolvidos.
Enquanto os indígenas apontam o Centro-Oeste como a região principal 
onde acontecem os confl itos, a população não-indígena menciona o Norte do 
país como o foco dos problemas (37%) e atrela \u201cgenericamente\u201d os povos de 
diversas etnias como os que mais