Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.675 seguidores
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sofrem com os confl itos (22%). No entanto, 
19% concordam que fazendeiros e representantes estão envolvidos nas dis-
putas pela terra, índice menor do que o apresentado pelos indígenas (31%). 
A maioria dos entrevistados, indígenas e não-indígenas, apontam para a 
a tualidade dos confl itos: a percepção de que estes ocorreram há 1 ano foi apon-
tada por 27% dos indígenas e 26% dos não-indígenas, e que estes ocorreram 
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entre 1 e 5 anos por 30% dos indígenas e 20% dos não-indígenas. Entretanto, 
o desconhecimento é maior entre os não-indígenas, uma vez que, além dos 
29% que não souberam dizer se há ou não confl ito envolvendo os povos indí-
genas, entre os que reconhecem haver, 29% não souberam responder quando 
os confl itos ocorreram, enquanto esse número é de 12% entre os indígenas.
Terras ameaçadas
A ameaça dos confl itos fundiários paira sobre os indígenas. A atualidade dos 
confl itos relatados e a pressão sobre seus territórios por diversos atores, in-
cluindo as obras desenvolvimentistas, lança-os a uma situação de vulnerabili-
dade pressionando-os, muitas vezes, a buscar refúgio na cidade.
Com relação à ameaça aos territórios, 70% dos indígenas entrevistados 
apontam que as populações correm o risco de perder suas terras, 22% que não 
correm riscos e 7% dizem não saber. Entre a população geral, o percentual dos 
que acreditam que os indígenas correm esse risco é de 80%. Somente 13% 
mencionam que não há riscos de os indígenas perderem seus territórios e 8% 
afi rmam não saber. 
Os principais agentes que ameaçam as terras indígenas são os grandes fa-
zendeiros, segundo 27% dos indígenas e 40% dos não-indígenas. Outros fato-
res mencionados são os homens brancos e o próprio governo brasileiro com 
18% e 16% respectivamente pelas duas populações.
A questão ambiental surge como uma grande preocupação entre os indí-
genas. Não há dúvidas de que a expansão do agronegócio juntamente com 
o desenvolvimento das grandes obras pelo Governo Federal, principalmente 
as que se referem ao setor energético, incidem sobre terras indígenas. Diante 
disso, 62% dos entrevistados apontam que o meio ambiente é mais importan-
te do que o crescimento do país, citado por 23% e 11% mencionaram que 
depende de outros fatores.
Desproteção social, políticas sociais
O Estatuto do Índio, Decreto-lei de 1973, ainda é a legislação responsável 
pelo amparo à essa população; abrange desde os direitos sociais dos indígenas 
A presença indígena nas cidades 125
até a incumbência de cada ente federado, garante a equidade dos povos ao res-
guardar o respeito as especifi cidades dos povos indígenas brasileiros. Embora 
seja uma legislação específi ca destinada unicamente a estes povos, o desco-
nhecimento a respeito do seu alcance e da responsabilidade tanto do Estado 
brasileiro como da sociedade civil, contidos em seu texto, é evidente a partir 
dos dados levantados nesta pesquisa. 
O desconhecimento ou conhecimento superfi cial acerca dessa legislação 
não é exclusivo da sociedade não-indígena, na qual 75% dos entrevistados 
relataram nunca ter ouvido falar a respeito, também está entre a população 
indígena urbana da qual 44% não conhece o Estatuto. A quantidade de indí-
genas urbanos que desconhece a legislação que os ampara é proporcional ao 
descumprimento da promoção dos direitos assegurados no Estatuto do Índio, 
bem como a precariedade de oferta de serviços sociais que poderiam oferecer 
atendimento específi co à população indígena.
O governo, de acordo com os indígenas entrevistados, quando se trata de 
direitos, deveria atuar primeiro na regularização das terras, em seguida promo-
ver a educação, saúde, mercado de trabalho e justiça. Para 50% dos entrevis-
tados, a Fundação Nacional do Índio possui uma avaliação positiva, enquanto 
que 30% dos não-indígenas considera regular o papel da Funai.
O direito à terra e a sua proteção estão entre os direitos mais sabidos pelos 
indígenas, contraditoriamente a falta de território é um dos principais fatores 
que impede a reprodução cultural, cultivo de alimentos e desenvolvimento dos 
costumes tradicionais, forçando-os a buscar nas grandes cidades e regiões me-
tropolitanas alternativas para sobreviver. Quanto ao meio ambiente, transpor-
te, saneamento básico, assistência social (incluindo a Funai, pois compreen-
dem que suas ações compõem a assistência social), preservação e manutenção 
cultural, não discriminação étnica, igualdade e cidadania, os indígenas pouco 
conhecem a respeito desses direitos garantidos no Estatuto do Índio. 
A vulnerabilidade social está muito mais presente entre a população in-
dígena, isso é representado pela porcentagem de indígenas benefi ciários do 
programa Bolsa Família, quando comparados a usuários não-indígenas. No 
primeiro grupo 49% usufrui do benefício, sendo que apenas 20% dos não-in-
dígenas fazem uso do benefício. A predominância de benefi ciários indígenas 
em programas sociais como Bolsa Família apresenta a situação de pobreza e 
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vulnerabilidade a que estão expostos, uma vez que um dos critérios de elegi-
bilidade para inclusão na maioria dos programas de transferência de renda é a 
renda per capta de um quarto do salário-mínimo. 
Alguns direitos, como igualdade, cidadania, liberdade, meio ambiente, 
aposentadoria fi caram entre os últimos da lista de prioridades. Os programas 
da previdência e assistência social são também maneiras encontradas pelos 
indígenas para garantir o mínimo para sobreviver, como o programa Bolsa 
Família, auxílio maternidade, aposentadoria rural, na qualidade de segurado 
especial por meio da qual são tratados como trabalhadores rurais. 
O acesso à saúde, para 56% dos indígenas que vivem nas cidades, ocorre 
por meio de equipamentos como postos de saúde ou hospitais próximos a re-
sidência, a procura da maioria por estes serviços não ocorre pela especifi cidade 
no atendimento, mas pela facilidade ao acesso, apenas 18% dos entrevistados 
procuram profi ssionais capacitados para tratamento diferenciado que está ga-
rantido na Política Nacional de Saúde Indígena. A pajelança, a cura por meio 
de chás, ervas e rezas é a segunda alternativa para 35% dos entrevistados.
Apenas 5% dos entrevistados buscam atendimento diferenciado; a Funasa 
(hoje designada SESAI, Secretaria Especial de Saúde Indígena) foi dada como 
última opção para o atendimento a saúde, embora 92% conheçam a existência 
da instituição. Das 368 pessoas que já ouviram falar da Funasa 13% conside-
ram péssimo o serviço oferecido, 29% avaliam a atuação como regular. Quanto 
ao atendimento da Funasa em contexto urbano 57% dos indígenas considera 
mais importante a presença de agentes indígenas de saúde locais, o acesso rá-
pido a medicamentos gratuitos (53%) e as consultas e exames médicos (51%), 
também devem compor atendimento de qualidade, bem como o respeito às 
crenças e tradições religiosas e seus processos de curas próprios (36%).
A busca pela sobrevivência fora das aldeias os submete ao mercado infor-
mal de trabalho e a não ter as garantias previdenciárias como os não-indígenas 
assalariados com carteira de trabalho assinada. Uma pequena parcela de indí-
genas é funcionário público (5%), isso certamente por comporem no interior 
da aldeia, quando há escola indígena, o quadro escolar, em funções como 
professor, vice-diretor, auxiliar de limpeza e merendeiros.
De acordo com 70% dos indígenas e 80% da população nacional os indíge-
nas correm risco de perder suas terras para grandes fazendeiros, e 16% de todos 
A presença indígena nas cidades 127
os entrevistados da população brasileira em geral acreditam que a perda das 
terras será para o governo brasileiro, que busca o desenvolvimento econômico 
a qualquer custo, e ignora o meio ambiente e os povos que habitam as matas 
do território nacional. A insegurança