Indígenas do Brasil
264 pág.

Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.675 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de Itaituba I; Floresta Nacional de Itaituba II; Floresta Na-
cional do Crepori; Área de Proteção Ambiental do Tapajós e Floresta Nacional do Tapajós. 
A MP n° 558 foi considerada inconstitucional pela Procuradoria Geral da República, que 
entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade contra a matéria
PAC 2: acelerando a tristeza na Amazônia 131
Neste movimento de \u201canarquia jurídico-legal\u201d, em abril de 2011, o governo 
brasileiro foi mais além: questionado pela Comissão Interamericana de Direi-
tos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre a 
não realização de consultas ou oitivas indígenas no projeto de Belo Monte (pre-
vistas no parágrafo 3o do art. 231 da Constituição e no art. 15 da Convenção no 
169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT), reagiu violentamente 
contra a instituição e retirou a indicação do ex-ministro dos Direitos Huma-
nos, Paulo Vanucchi, para CIDH, além de ameaçar a suspensão das contribui-
ções do país. Belo Monte, principal e mais caro projeto do PAC, é também a 
mais polêmica das megaobras de infraestrutura na Amazônia no momento. 
Na pesquisa Indígenas no Brasil \u2013 Demandas dos povos e percepções da Opi-
nião Pública\u201d, realizada pela Fundação Perseu Abramo entre os anos de 2010 
e 2011, a maioria dos entrevistados considera que o direito dos indígenas a 
seus territórios e o direito de serem consultados em casos de grandes obras de 
infraestrutura se sobrepõem a projetos de desenvolvimento. 
Neste sentido, 78% dos entrevistados discordaram da afi rmação, proposta 
no questionamento da pesquisa, de que o crescimento econômico do país é 
mais importante do que o direito dos indígenas às suas terras. Oitenta e um 
porcento consideraram que a construção de estradas e hidrelétricas só deveria 
ocorrer quando essas obras causassem baixo impacto no meio ambiente, e 
73% avaliaram que estes projetos só deveriam ser executados se os índios que 
vivessem nas áreas impactadas concordassem.
Belo Monte: o revés do desenvolvimento
\u201cEstou fi cando louca\u201d, diz dona Graça, enquanto se ajeita no banco da voa-
deira e se inclina para frente para confi denciar: \u201cestou ouvindo vozes!\u201d. Des-
confi ada, a agricultora de seus 45 anos olha para o Xingu, que passa rápido 
debaixo do barco, e conta que tem sentido muito medo, porque o rio e as 
árvores têm falado com ela. \u201cEles me ameaçam. As árvores fi cam dizendo: 
\u2018você! Você vai sair daqui quando tudo alagar. Mas nós não temos pernas, 
vamos todas morrer afogadas\u2019\u201d. Assustada, dona Graça foi procurar um psicó-
logo, mas não adiantou muito. Ela só se acalmou quando certo dia ouviu um 
pastor pregando na televisão \u201cque a natureza está aí para servir aos homens. 
132 Indígenas no Brasil
Pensei \u2018ah, bom!\u2019. Mas olha, por segurança, não vou assinar nenhum papel 
para a Norte Energia, que está tomando as nossas terras. Não quero assinar a 
sentença de morte do Xingu\u201d.
Maria das Graças Militão, a Graça, e seu marido Sebastião Pereira, prota-
gonizaram uma das histórias mais emblemáticas do processo de expropriação 
de terras de pequenos agricultores pelo Consórcio Norte Energia, responsável 
pela construção da hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, região de Alta-
mira, no Pará. Donos de uma área de cerca de 42 alqueires às margens do rio, 
onde cultivavam cacau, açaí, banana, mamão, abacaxi, macaxeira e diversas 
outras culturas, em meados de 2011 eles foram desapropriados por um De-
creto de Utilidade Pública (DUP). Sem acordo sobre a indenização, cujo valor 
proposto pela Norte Energia era extremamente baixo, o empreendimento de-
positou uma pequena quantia em juízo, entrou nas terras da família e destruiu 
sua casa. Em fevereiro de 2012, a empresa, acompanhada de seguranças priva-
dos e da polícia, invadiu a área com tratores e derrubou todo o cacau. 
Distúrbios psicológicos como os sofridos por dona Graça em função do 
stress e do medo têm se tornado cada vez mais comuns entre as populações 
afetadas por Belo Monte. Além dos danos materiais, como a perda das terras 
e lavouras e a escassez de peixes e da caça, causada pelas detonações de explo-
sivos nos canteiros de obras da usina, o cenário de terra arrasada em que Belo 
Monte está transformando a região tem um forte impacto emocional sobre os 
moradores das barrancas do Xingu. 
Os efeitos da usina sobre ribeirinhos e pescadores, muitos deles migran-
tes ou ocupantes de segunda geração, são duplamente nefastos sobre as po-
pulações indígenas do Médio Xingu, apesar do projeto não se propor a des-
pejar, ofi cialmente, os moradores das 10 comunidades na área de impacto da 
hidrelétrica (Paquiçamba, Arara da Volta Grande do Xingu (Maia), Juruna 
do km17, Trincheira Bacajá, Kararaô, Arawaté do Igarapé Ipixuna, Koati-
nemo, Cachoeira Seca, Arara e Apiterewa). Com uma ressalva: os índios 
isolados detectados entre as Terras Indígenas (TIs) Koatinemo e Trincheira 
Bacajá, a 50 km de Belo Monte, receberam uma proteção apenas provisória 
da Funai, que interditou, por dois anos, uma área de 137,7 mil hectare em 
janeiro de 2011.
PAC 2: acelerando a tristeza na Amazônia 133
Fim da vida como era
Na pesquisa realizada pela FPA entre os anos de 2010 e 2011 com 52 lideran-
ças indígenas, muitas delas da região de Altamira, duas preocupações foram 
recorrentes nas respostas acerca dos impactos de Belo Monte: 
1. A indefi nição quanto à regularização territorial, uma vez que as con-
dicionantes sobre a demarcação das áreas indígenas \u2013 demarcação física das 
TIs Arara da Volta e Cachoeira Seca; levantamento fundiário e desintrusão 
da TI Apyterewa; redefi nição de limites da TI Paquiçamba, com acesso ao 
reservatório da usina; destinação das ilhas no Xingu entre as TIs Paquiçam-
ba e Arara da Volta Grande para usufruto exclusivo dessas comunidades; e 
todas as TIs demarcadas e homologadas \u2013 não havia sido cumpridas pela 
Funai (em novembro de 2012, a maior parte destas condicionantes con-
tinua descumprida). Para os indígenas, o maior temor neste sentido é a 
invasão de suas terras pela enorme população de migrantes que chega à 
região, como fi ca claro na entrevista realizada com liderança do povo Arara 
da Volta Grande, no Pará. 
\u201c... Essa questão de que vai vir 18 mil pessoas para dentro de Altamira, então 
Altamira não ta preparada para receber esse tanto de pessoas, e também a nossa 
preocupação, a gente quer que seja demarcada a nossa área o mais rápido possível, 
devido às pessoas que vão construir lá pra perto, é lá perto da aldeia que ta pra ser 
construído esse monstro Belo Monte, e a gente ta com medo das pessoas virem 
e com o passar do tempo vai saindo, vai saindo, trabalha um ano dois e dois vão 
saindo e aí vai só fi cando os profi ssionais, e as pessoas que vem, depois vão para 
onde... A gente ta com medo de invasores por que já tem muitos e a área não 
estando demarcada...\u201d 
A modifi cação do rio no que tange a sua navegabilidade, o impedimento 
do acesso à Altamira por via fl uvial, e a própria sobrevida do Xingu enquanto 
símbolo cultural da vida indígena, segundo relata uma liderança do povo Ara-
ra da Volta Grande (PA):
\u201cE o que eu vejo e que eu fi co chocado é a questão de querer acabar com a nossa 
cultura, esse Projeto que o Governo quer empurrar de guela abaixo para os povos 
indígenas, Projeto Belo Monte, se sair esse Projeto, aí sim a questão de terras 
134 Indígenas no Brasil
 indígenas, saúde indígena, questão da forma cultural dos indígenas vai se acabar... 
Se acabou a natureza, aí acabou a forma dos indígenas... daqui a 10 anos, se conti-
nuar com essa proposta, se você vier daqui a 10 anos, você vai ter que vir de avião, 
não vai mais ter como andar aqui, aqui vai fi car inundando, a cidade vai fi car 
inundada... Onde ta o Projeto vai fi car aqui, e nós do lado de baixo... Arrebentou 
lá, ai tá todo mundo morto, por que a água desce arrebentando tudo ... O rio