Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.675 seguidores
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que manteve contato recente com oito aldeias, seis Arawete e duas Asurinis. 
\u201cApareceu a obesidade, sobretudo nas mulheres, pois consomem diariamente 
mais de dois litros de refrigerante por pessoa. Em um futuro muito próximo 
ocorrerão diversos casos de diabetes\u201d, alerta o documento10.
Antropofagia governamental e jurídica
Belo Monte em especial, mas também outros projetos do PAC na Amazônia, 
têm criado situações de constrangimento entre o governo e parte de seus fun-
cionários. Durante o processo de licenciamento de Belo Monte, por exemplo, 
8 Índios afetados por Belo Monte detêm engenheiros da Norte Energia em aldeia \u2013 www.xin-
guvivo.org.br/2012/07/24/indios-afetados-por-belo-monte-detem-engenheiros-da-norte-
-energia-em-aldeia-na-volta-grande-do-xingu/
9 A autorização do fechamento da ensecadeira pelo Ibama e pela Funai levou a um protesto 
de pescadores e indígenas entre 17 de setembro e 17 de outubro \u2013 entre 8 e 17 de outubro, 
os índios ocuparam novamente a barragem de Pimental. Durante a audiência de conciliação 
entre os manifestantes e a Norte Energia, um pescador denunciou que, tendo trabalhado 
17 dias para a empresa Biota, presenciou a morte de mais de 500 kg de peixe em ape-
nas uma ensecadeira, o que não teria sido comunicado ao  IBAMA \u2013 www.xinguvivo.org.
br/2012/10/18/audiencia-de-conciliacao-tem-acordos-mandatorios-mas-posterga-maioria-
-das-decisoes-e-mitigacoes/
10 No Xingu, indígenas convivem com a incerteza \u2013 16/09/2012 \u2013 www.diariodopara.com.
br/n-160906-no+xingu++indigenas+convivem+com+a+incerteza.html
138 Indígenas no Brasil
dois presidentes do Ibama deixaram seus cargos \u2013 Roberto Messias e Abelardo 
Bayma, em abril de 2010 e janeiro de 2011, respectivamente \u2013, assim como 
dois funcionários do alto escalão do órgão, Sebastião Custódio Pires, diretor 
de licenciamento, e Leozildo Tabajara da Silva Benjamim, coordenador-geral 
de infraestrutura de energia elétrica, ambos em dezembro de 2009. Em todos 
os casos, a imprensa creditou os afastamentos a discordâncias nos processos de 
licenciamento da hidrelétrica.
No fi nal de 2010, relatórios técnicos do Ibama apontavam uma série de pen-
dências no cumprimento das condicionantes que teriam que ter sido implemen-
tadas pela Norte Energia. Em outubro, o parecer técnico é explicito ao afi rmar 
que \u201cnão é recomendada a Licença de Instalação para as instalações inicias do 
AHE Belo Monte\u201d. Já em janeiro de 2011, técnicos da Funai são mais enfáticos. 
Em parecer enviado à presidência do órgão, afi rmam que \u201cuma vez que as condi-
cionantes indígenas ainda não apresentaram resultados concretos positivos para 
as comunidades indígenas, não recomendamos que a Funai manifeste-se favora-
velmente a qualquer licença de instalação\u201d11. Seis dias depois, porém, com o aval 
do presidente da Funai, Márcio Meira, e a despeito de todas as irregularidades, 
o Ibama emite uma \u201clicença de instalação provisória\u201d, inexistente na legislação 
brasileira, para o inicio das obras da usina12. A licença defi nitiva foi outorgada 
no início de junho do mesmo ano, e cinco dias depois o MPF entra na Justiça 
com a 11a Ação Civil Publica contra Belo Monte, pedindo seu cancelamento 
uma vez que 40% das condicionantes não haviam sido cumpridas.
Discordâncias por parte de técnicos de órgãos como o Instituto Chico 
Mendes (ICMBio) e Funai têm marcado também outros processos de pla-
nejamento das hidrelétricas na Amazônia. A Medida Provisória n° 558, que 
alterou os limites de oito unidades de conservação no Pará e em Rondônia 
para possibilitar, principalmente, a construção das usinas no rio Tapajós, foi 
duramente criticado por técnicos do ICMBio13. Já o parecer técnico da Funai 
11 O documento pode ser acessado em www.xinguvivo.org.br/wp-content/uploads/2010/10/
Parecer_Funai_contra_Belo_Monte.pdf
12 Os pareceres técnicos do Ibama estão disponíveis em www.xinguvivo.org.br/2010/10/14/
analises-tecnico-cientifi cas/
13 ICMBio: servidores divulgam carta aberta contra recorte de UCs \u2013 www.oeco.com.br/
noticias/26290-icmbio-servidores-divulgam-carta-aberta-contra-recorte-de-ucs
PAC 2: acelerando a tristeza na Amazônia 139
no 142010 alertou para a gravidade da destruição das chamadas Sete Quedas 
do rio Teles Pires, no Mato Grosso, pela construção da usina de mesmo nome, 
uma vez que o local é uma \u201creferência simbólica enquanto elemento fundante 
da cultura imaterial\u201d (local sagrado, refúgio da mãe d´água) dos povos Kaiaby, 
Apyaka e Munduruku, e nascedouro de inúmeras espécies de peixes, essenciais 
para a sobrevivência dos indígenas. O MPF, também neste caso, entrou com 
uma ação contra o licenciamento de Teles Pires14, e a denúncia foi julgada pro-
cedente pela 5a turma do Tribunal Regional Federal da 1a Região (TRF1) em 
agosto de 2012. A obra fi cou paralisada por apenas um dia, sendo derrubada 
pela própria presidência do TRF1.
Ação parecida foi impetrada no fi nal de setembro de 2012 pelo MPF em 
relação à usina de São Luis do Tapajós. Novamente, os procuradores pedi-
ram a suspensão do licenciamento da hidrelétrica até que sejam realizadas: 
a) a Avaliação Ambiental Integrada (AAI) e a Avaliação Ambiental Estra-
tégica (AAE) dos impactos sinérgicos e cumulativos do empreendimento 
UHE São Luiz do Tapajós, tendo em vista as demais barragens previstas 
para a bacia dos rios Tapajós e Jamanxim, e b) a consulta livre, prévia e in-
formada dos povos indígenas e demais populações tradicionais, localizados 
na área de infl uência do empreendimento São Luiz do Tapajós e afetados 
pelas medidas administrativas e legislativas já executadas no âmbito do li-
cenciamento ambiental15.
O papel da Justiça merece um capítulo à parte na batalha entre o governo 
e os procuradores federais e comunidades afetadas em que se transformaram 
as hidrelétricas do PAC. Em todos os projetos impostos aos povos da Amazô-
nia, o governo feriu tanto a Constituição Nacional quanto a Convenção 169 
da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante às populações 
indígenas o direito a oitivas \u2013 consultas prévias, livres e informadas \u2013, a serem 
realizadas pelo Congresso Nacional, antes do início de qualquer obra que afete 
seus territórios. Em nenhum dos projetos, a oitiva foi realizada.
14 Ação Civil Pública Ambiental com pedido de liminar da UHE Teles Pires, MPF - tinyurl.
com/8omcxu5
15 MPF pede suspensão do licenciamento da usina São Luiz do Tapajós, MPF \u2013 www.prpa.mpf.
gov.br/news/2012/mpf-pede-suspensao-do-licenciamento-da-usina-sao-luiz-do-tapajos
140 Indígenas no Brasil
No caso de Belo Monte, a ação do MPF sobre as oitivas chegou ao Su-
premo Tribunal Federal (STF) após decisão do TRF-1, em agosto de 2012, 
de invalidar o licenciamento e paralisar as obras até que as consultas ocorram 
de acordo com o previsto na Constituição. Atendendo a uma reclamação da 
Advocacia Geral da União, o STF concedeu uma liminar que possibilitou a 
continuidade das obras, até que o mérito da ação seja julgado.
A liderança indígena do Povo Arara da Volta Grande, do Pará, entrevistada 
na pesquisa nos relata como foi o processo em sua aldeia:
\u201cEles foram lá à aldeia, teve a participação do Ministério Público, Ibama, 
Ministério Público de Altamira e de Brasília, estiveram na nossa comunidade, 
era para acontecer lideranças indígenas com o governo, para entender as ideias 
e conversar... E foi ao contrário, eles foram para apresentar o Projeto Belo 
Monte, e colocaram na capa do CD que tinha acontecido as oitivas indígenas, 
e no caso foi uma reunião e explicação se Belo Monte fosse construído, como 
seria a forma que iria fi car as áreas indígenas, e no caso, eles modifi caram e co-
locaram que tinham sido as oitivas indígenas (reunião com líderes do governo 
e indígenas para discussão), e ponto fi nal, passaram por cima dessa pauta que 
foi discutida em Brasília onde teve falha do Ibama de Brasília que não compa-
receu o representante