Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.675 seguidores
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e Castilho a partir da fala de senso comum que \u201cno Brasil 
tem muita terra para pouco índio\u201d e afi rma que a população brasileira desco-
nhece o que realmente se passa no Brasil, em relação a essa questão. Preocupa-
-se em esclarecer as condições de distribuição das terras indígenas e os proble-
mas e disputas concentrados em áreas específi cas do país. Foca sua discussão 
do Mato Grosso do Sul, estado com a segunda maior população indígena do 
país e um dos maiores em concentração fundiária. Pimentel concentra sua 
18 Indígenas no Brasil
análise no grupo indígena mais numeroso no país hoje, os Guarani-Kaiowá, 
que ali sobrevivem confi nados e ameaçados. O autor discorre como se deu 
historicamente esse processo, desde o fi nal do século XIX, intensifi cando-se na 
era Vargas e nos anos 1970, e o quanto o Estado, passados mais de 20 anos da 
nova Constituição, tem sido, se não omisso, lento, na regularização das terras 
indígenas, prevista em até cinco anos após sua promulgação. As constantes 
mortes por desnutrição, atropelamento, suicídio ou assassinato caracterizam 
uma situação dos Guarani-Kaiowa insustentável, constituindo críticas viola-
ções aos direitos humanos. As tentativas da Funai, a partir de 2007, para solu-
cionar os confl itos demarcando as terras, têm sido infrutíferas devido às fortes 
pressões e ameaças dos grupos de fazendeiros e políticos da região. Objeto de 
disputa política, a retomada das terras dos Guarani-Kaiowá, representa um 
dos maiores desafi os que o governo federal precisa enfrentar. 
Verena Glass chama a atenção para o fato de que não são apenas as questões 
fundiárias que afetam os povos indígenas. Medidas para o desenvolvimento do 
país lançadas pelo governo em 2010, preocupantes do ponto de vista do des-
matamento, da exploração de recursos naturais e ambientais, também afetam 
territórios indígenas e ferem seus direitos. Glass destaca a Usina Hidrelétrica 
de Belo Monte como a mais polêmica das obras, não apenas pela desapropria-
ção das terras a serem ocupadas pela hidrelétrica, pelo impacto ambiental e 
emocional sobre a população afetada, mas também pela realização insufi ciente 
das oitivas indígenas previstas na Convenção 169 da OIT, ferindo acordos do 
Brasil com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Or-
ganização dos Estados Americanos (OEA). Do ponto de vista dos indígenas 
fi ca a indefi nição quanto à regularização de seus territórios, frente ao risco de 
que suas terras venham a ser invadidas pela população migrante que chega à 
região; o isolamento de áreas devido a modifi cações no fl uxo e navegabilidade 
do rio Xingu, podendo causar seca em alguns trechos, inviabilizando a vida 
de populações indígenas que deverão ser removidas, e em outras áreas o te-
mor de que as barragens alaguem tudo. Soma-se a isso a preocupação com o 
desmatamento, que tem colocado a cidade de Altamira (PA) na liderança da 
destruição da Amazônia, segundo as análises do INPE, e as decorrências do 
intenso contato provocado pela chegada dos construtores à cidade expondo os 
indígenas a epidemias e mudanças nos hábitos alimentares. Para a autora, Belo 
Introdução \u2013 Indígenas no Brasil: Estado nacional e políticas públicas 19
Monte tem gerado mais discordâncias, desgaste e constrangimento ao governo 
do que sua produção energética será capaz de compensar.
 István van Deursen Varga, Luís Eduardo Batista e Rosana Lima Viana 
tratam de outro tema de modo bastante crítico e polêmico \u2013 a saúde da popu-
lação indígena. Colaboradores com a política nacional de saúde para os povos 
indígenas, na primeira gestão do governo Lula, consideram que a implemen-
tação da SESAI trouxe pouca alteração em relação à Fundação Nacional de 
Saúde (Funasa). A despeito das diretrizes propostas nas I, II e III Conferências 
Nacionais de Saúde Indígena, no modelo de gestão e de organização dos ser-
viços de saúde indígena, contrários aos adotados anteriormente pela Funasa, 
estas não teriam sido implementadas devido às diferenças da territorialização 
e limites geográfi cos incompatíveis entre o modelo proposto e o anterior, pro-
blemas de gestão, empecilhos operacionais e burocráticos e pressão de povos e 
setores mais organizados e articulados do movimentos indígena. Na visão dos 
autores, as Conferências foram disputadas, tumultuadas, pouco resolutivas e 
manipuladas politicamente por funcionários da Funasa, comprometendo a re-
presentatividade e legitimidade das mesmas \u2013 argumentos que reforçam a par-
tir da fala de lideranças indígenas entrevistadas. Os autores acreditam que o 
problema da saúde indígena não é a falta de recursos, mas a gestão e a falta de 
prestação de contas pela Funasa. Manifestam também preocupação com um 
aumento expressivo na identifi cação da população indígena, muito superior 
às projeções de entidades indígenas, provavelmente proveniente dos indígenas 
não aldeados, apontando para a necessidade do compartilhamento da respon-
sabilidade pela saúde indígena com o SUS. Para Varga, Batista e Viana um dos 
maiores desafi os da SESAI é reterritorializar os Distritos Sanitários Indígenas 
e colocar em prática as resoluções da III Conferência.
O texto de Lucia Rangel, Luciana Galante e Cynthia Cardoso segue em 
direção a preocupações semelhantes, mas voltado para os indígenas não alde-
ados. Afi rmam que a negação da identidade indígena está associada a certa 
\u201cconsciência envergonhada\u201d, proveniente da perseguição e disseminação de 
povos, na formação do Estado brasileiro, que comprometeu sua descendência. 
A presença de indígenas em território urbano nunca foi preocupação da Funai 
ou qualquer entidade indigenista, no entanto, seja causada pela migração ou 
pela expansão territorial da malha urbana das cidades encostando nas aldeias, 
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tal presença coloca os indígenas em condições vulneráveis nesses espaços. In-
visibilizados, sem políticas adequadas e sem vínculos de pertencimento identi-
tário, são fortes alvos de preconceito e violência. Oriundos de diversas etnias, 
migram para as metrópoles em busca de melhores condições de vida, mas o 
ambiente hostil e de competitividade nas cidades, muito diferente da aldeia, 
traz enormes difi culdades para sua adaptação. Percebem a discriminação em 
decorrência de sua origem indígena, sobretudo em estabelecimentos de ensino 
e saúde, como se a cidade e suas instituições públicas não lhes pertencessem. 
Embora as autoras apontem o alcance dos benefícios do programa Bolsa Fa-
mília e de outros programas da previdência e assistência social aos indígenas 
não aldeados como relevantes para a garantia de sua sobrevivência fora das 
aldeias, consideram que a falta apoio do governo com mais políticas públicas 
focais os homogeneíza e os torna meros imigrantes nas cidades, limitando seus 
horizontes de vida. 
Em suma, os textos aqui reunidos indicam que, em que pese avanços e 
acertos recentes do Estado brasileiro em relação a políticas para os povos indí-
genas (59% dos indígenas não aldeados consideram que a condição atual dos 
povos indígenas melhorou quando comparada há 20 ou 30 anos, percepção 
com que concordam 43% da população nacional, assim como a maior parte 
das lideranças indígenas entrevistadas), há muito por fazer para tornar realida-
de o pleno reconhecimento dos direitos indígenas e o respeito a seus modos de 
vida previstos na Constituição. Pode-se analisar outros campos investigados, 
com diferentes autores, mas é pouco provável que se escape dessa conclusão. 
Isso não signifi ca, naturalmente, que esta publicação dê conta das inúme-
ras abordagens e interpretações que os resultados da pesquisa suscitam. Ao 
contrário, que sirva de estímulo aos interessados pela questão dos indígenas no 
Brasil contemporâneo para que conheçam o conjunto dos dados quantitativos 
e qualitativos levantados \u2013 disponíveis no portal da FPA, www.fpabramo.org.
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