Marcus Claúdio Acquaviva - Teoria Geral do Estado - 3º Edição - Ano 2010

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de todas as normas jurídicas em vigor no 

Estado; são normas de direito objetivo a Constituição, o Código Civil, os contra­

tos e os atos administrativos. Porém, é preciso fazer uma distinção: somente a Cons­



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tituição, o Código Civil, o Código Penal e outras leis oriundas do Estado formam 

o direito positivo. Todas as normas jurídicas são de direito objetivo, mas somente 

as normas jurídicas provenientes do Estado são normas de direito positivo, porque 

se impõem a todas as outras.

4.5) Causa final: o bem comum

Bibliografia: b i g o , Pierre. A doutrina social da Igreja, São Paulo, 1969. c a b r a i . d f . 

m o n c a d a , Luís. Problemas de filosofia política, Coimbra, Armênio Amado, Sucessor, 

1963. d a l l a r i , Dalmo dc Abreu. O futuro do Estado, São Paulo, Moderna, 1980. d u - 

v e r g e r , Mauricc. Os regimes políticos, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1966. 

f e r r e i r a  f i l h o , Manoel Gonçalves. A democracia possível, São Paulo, Saraiva, 1979; 

e Curso de direito constitucional, 11. ed., São Paulo, Saraiva, 1982. g a l v Ão , Paulo 

Braga. Os direitos sociais nas constituições, São Paulo, 1981. k e l s e n , Hans. Teoria 

pura do direito, Coimbra, Armênio Amado, Sucessor, 1979. l a s k i , Harold J. O mani­

festo Comunista de Marx e Engels, Rio de Janeiro, Zahar, 1978. m o n t e s q u i e u . Oeli­

vres completes, Paris, Hachette, 1859. p i o  x i . Encíclica Quadragésimo Anno, 3. ed., 

São Paulo, 1981. r u  i t e n , O. P. Ci. C. A doutrina social da igreja segundo as encíclicas 

Rerum Novarum e Quadragésimo Anno, São Paulo, 1946. s a l v e t t i  n e t t o , Pedro. 

Curso de teoria do Estado, 4. ed., São Paulo, Saraiva, 1981. s o u z a , José Pedro Gal- 

vão de. Conceito e natureza da sociedade política, São Paulo, 1949. t e l i .f.s j r . Goffre- 

do. O  direito quãntico, 6. ed., São Paulo, Max Limonad, 1985.

Bem é tudo o que seja objeto do desejo humano. As coisas não constituem 

bens em si mesmas, sendo necessário que se lhes atribua um valor. Que é valor? É 

a importância que se atribui a um bem. Neste sentido, elucida o professor Goffre- 

doTclles Júnior:

De fato, a palavra valor quando empregada corretamente, em seu sentido pró­

prio, não designa a essência e a existência de coisas. Uma coisa não pode ser um va­

lor. Não se pode dar a uma coisa o nome de valor, a não ser que se falsifique o senti­

do da palavra valor. Quando dizemos os valores estão no cofre, o que realmente 

queremos dizer é que os bens de valor estão no cofre. Nem mesmo seres ideais podem 

ser valores. A santidade (ou o santo), por exemplo, não e um valor. Afirmar que a san­

tidade é um valor e o mesmo que afirmar que uma joia e um valor. Mas uma joia não 

é um valor. Ela e um bem. É um bem a que se atribui valor. É uma coisa valiosa. Igual­

mente, a santidade é um bem de valor. Mas não é um valor em si. A santidade tem va­

lor, mas somente para quem vê nela um ideal de vida, um ideal mais alto do que os ou­

tros ideais.



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Ora, a valoração dos bens varia no tempo e 110 espaço. Os valores sociais têm 

uma existência histórica, não são perpétuos nem imutáveis numa mesma socieda­

de, alterando-se conforme o ensejarem novas circunstâncias. Cada sociedade, em 

diferentes épocas, adota uma tábua de valores c, desta formulação, concebe e ado­

ta as normas jurídicas c morais. A norma jurídica não se origina apenas do fato e 

da inteligência, pois, quando o intelecto valora um fato, o faz com fundamento nos 

valores adotados pela comunidade.

A moral social, tida como o conjunto dos valores sociais, confunde-se com a 

concepção do que é justo em determinada sociedade. Tal concepção chama-se con­

senso social. Não é difícil depreender, então, que nem sempre a ordem jurídica é 

justa, embora seja, necessariamente, legal. A ideia de justo ou de legitimidade de 

uma ordem jurídica fundamenta-se no consenso social. A norma jurídica, essencial­

mente legal, somente será legítima se estiver conforme o consenso social. Embora 

a ordem jurídica tenha por objetivo final o bem comum, consubstanciado 11a ideia 

de justo, nem sempre tal finalidade é alcançada, pois, justa ou injusta, nem por isso 

a norma jurídica, enquanto válida, deixa de ser legal.

Conclui-se dessa breve digressão introdutória que o conceito de bem comum 

varia no tempo e no espaço. Causa final da sociedade política, o bem comum deve 

ter como objetivo a plena realização espiritual e física do homem. O Estado não é 

mais do que um meio de realização do bem comum, e para tanto deve atuar inci­

sivamente, sem ferir, contudo, a liberdade e a iniciativa individuais, caso contrário 

cairíamos no totalitarismo, mesmo porque, se a concepção totalitária de bem co­

mum supera, inquestionavelmente, a visão limitada do individualismo, o preço a 

ser pago por essa superação é de tornar cada ser humano mera parcela do todo so­

cial, puro instrumento de um todo. Por outro lado, houve época, mais precisamen­

te o século XVIII, em que o bem comum foi definido como a ordem jurídica, como 

sinônimo de paz social. Sim, bem comum era, então, a mera conservação da ordem 

social. Estávamos, na oportunidade, em pleno apogeu do Século das Luzes, perío­

do de esplendor do Iluminismo, doutrina que, como o próprio nome revela, pre­

tendeu libertar o homem “das trevas da superstição medieval”, mostrando-se o reto 

caminho das luzes da razão. Foi aquele o século do racionalismo, que culminaria 

na Revolução Francesa, e também do individualismo e do cidadão abstrato.

4.5.1) 0 libera lismo e 0 bem comum

Absoluta e unanimemente, todos os sistemas políticos se declaram adeptos da 

liberdade individual. Infelizmente, o conceito de liberdade não é unívoco; ele varia 

com o tempo. Há uma liberdade de tempos de guerra que não é, absolutamente, uma 

liberdade de tempos de paz; há uma liberdade de época de fartura que não é, evi­

dentemente, a mesma liberdade de tempos de escassez. Enormes divergências entre 

os homens residem, com certeza, 11a disparidade das interpretações da liberdade.



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Aquilo que para uns é liberdade, para outros é exatamente o oposto desta. Aliás, a 

renúncia à liberdade c, para alguns, a suprema liberdade. No campo da doutrina, a 

essência da liberdade também está longe de ser revelada.

Observa, acuradamente, o grande Montesquieu, que não há palavra que te­

nha mais acepções e que tenha tanto impressionado os espíritos como a palavra li­

berdade. Cada homem denomina liberdade ao governo que mais sc ajusta aos seus 

costumes e inclinações pessoais; porém, é mais freqüente que a coloquem os povos 

na república, não a percebendo nas monarquias, porque naquela não têm, sempre, 

diante de seus olhos, os motivos de seus males. Afinal, como nas democracias o 

povo tem mais facilidade para fazer quase tudo o que deseja, colocou a liberdade 

nos governos democráticos e confundiu o poder do povo com a sua liberdade.

Afirma, ainda, que é verdade que, nas democracias, o povo, aparentemente, 

faz o que deseja. A liberdade política, porém, não significa fazer o que se quer. Em 

qualquer Estado, em qualquer sociedade dotada de leis, a liberdade consiste em po­

der fazer o que se deve querer e em não ser obrigado a fazer o que não se deve que­

rer. É preciso distinguir, prossegue, entre independência c liberdade. A liberdade é 

o direito de fazer o que as leis permitem, e, se cada um dc nós pudesse fazer o que 

as leis proíbem, não haveria mais liberdade, porque todos teriam o mesmo poder.

Hans Kelsen, criador da célebre teoria pura do direito, definiu, num primeiro 

momento de sua vida, a liberdade como a ausência de quaisquer laços obrigatórios 

para o indivíduo, posição esta reformulada mais tarde, quando passou a ver
Susana Freire fez um comentário
  • Eu amo esse livro ! =))
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