Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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é a materialização das consequências
deste mesmo processo produtivo.

Este capítulo retoma a linha das teorias desenvolvidas a partir dos anos
1950, sobre desenvolvimento regional, chamadas de “teorias de desenvolvimento
regional com ênfase nos fatores de aglomeração”, em que os autores principais
eram Perroux, Myrdal e Hirschman.1

A partir da perda de vitalidade do modelo gerado nos “trinta anos gloriosos”
do pós-guerra, duas grandes vertentes são analisadas: de um lado, a da especialização
flexível, que se baseia numa produção industrial fundada na inovação tecnológica e
em novas formas de organização da produção.

Essa, por sua vez, divide-se em dois grandes grupos, um derivado dos distritos
industriais marshallianos, mas apoiado no desenvolvimento tecnológico presente em
Schumpeter (a dos distritos da “Terceira Itália”), e outro mais fortemente ligado aos
processos inovadores, consubstanciado nas city regions de Scott, Storper, Agnew e Soja.

De outro lado, há a vertente da metrópole terciária, fundada na globalização,
que também se divide em dois grandes grupos: o da superação do modelo industrial

* Este texto se baseia em um capítulo da tese de doutorado do autor (Matteo, M. Além da Metrópole Terciária, IE/
Unicamp, 2008).
1. Veja-se a respeito o capítulo 2 deste livro.

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pelo terciário, preconizado por Castells em seu “espaço de fluxos”; e o das cidades
globais, de Saskia Sassen.

Em ambas as vertentes existem lacunas para se ter uma análise geral de
conformação do território, sendo que a maior delas consiste em ignorar os pro-
cessos históricos que deram origem a cada região, com suas relações sociais,
culturais, políticas, econômicas e geográficas peculiares.

1 o FordiSmo E SuA CriSE

Entender os processos pelos quais passa atualmente a organização do território
pressupõe o conhecimento das transformações dos processos produtivos que de-
correram da crise do modelo fordista de produção, uma vez que a produção do
espaço local e regional é parte integrante de um dado regime de regulação social,
e cada um cria formas específicas de organização espacial do processo produtivo.

O fordismo, termo originalmente empregado por Gramsci, foi o modelo de
desenvolvimento dominante no Pós-Guerra, que se irradiou dos EUA como con-
traponto a contradições suscitadas pelas revoluções introduzidas durante a primeira
metade do século XX no paradigma tecnológico (LIPIETZ e LEBORGNE, 1994).
Para LIPIETZ (1997), como modelo de desenvolvimento, o fordismo pode ser ana-
lisado segundo três pontos de vista: primeiro, como princípio organizador do tra-
balho (paradigma industrial), o fordismo é taylorismo com mecanização; segundo,
como estrutura macroeconômica (ou regime de acumulação), o fordismo implica
que os ganhos de produtividade resultantes dos princípios de organização adotados
tenham uma contrapartida no aumento dos investimentos provenientes dos lucros
e do aumento do poder de compra dos trabalhadores assalariados; e terceiro, como
um sistema de regras (ou modo de regulação), o fordismo implica um contrato de
longo prazo nas relações salariais.

É importante defini-lo como “modelo de desenvolvimento”, como o fazem
os regulacionistas, já que o fordismo, muito mais do que uma revolução téc-
nico-produtiva, é uma resposta aos desafios propostos pela demanda agregada.
“O regime de acumulação fordista se caracteriza por um rápido incremento do
investimento per capita (em volume), mas também por um crescimento do con-
sumo per capita. O incremento desses dois mercados proporciona, sobre uma base
interna a cada nação, uma contrapartida aos ganhos de produtividade engendra-
dos pelo paradigma tecnológico” (LIPIETZ e LEBORGNE, 1994, p. 335).

Moulaert (2000, p. 19-20) afirma que um regime de acumulação
caracteriza-se por um conjunto estruturado de formas institucionais especí-
ficas que codificam e regulam o funcionamento de sua estrutura econômica.
Este conjunto consiste de formas concretas produzidas espacial e historica-
mente de relações de salários, relações de competição, formas de regulação
estatal e inclusão no regime internacional, ou seja, um modo de regulação.

Teorias de desenvolvimento Territorial 81

Para esse autor, o regime de acumulação fordista possuía as seguintes características:

• quanto à produção em massa – unidades tecnológicas de produção de
larga escala, grande mecanização e automação, linhas de montagem e
equipamentos de fabricação não flexíveis;

• quanto aos setores líderes – automotivo, elétrico, petroquímico;

• quanto à forma de mercado – característica de concorrência monopolista;

• quanto à distribuição do valor produzido – no que se refere às classes:
salários por produtividade, ganhos de capital financeiro; quanto aos
grupos sociais: importância de organizações profissionais e agentes
públicos; quanto às funções públicas: foco na infraestrutura física e
social, proteção social;

• quanto à estrutura da demanda social – saúde, educação, proteção social;

• quanto à divisão social e espacial do trabalho – hierarquia de regiões e cidades.

O modo de regulação fordista, por sua vez, caracterizava-se por:

• relações de trabalho assalariado – compensação salarial por ganhos de
produtividade, negociação coletiva, proteção social, papel do Estado;

• concorrência – monopolista, regulada pelo Estado e por acordos internacionais;

• formas de regulação estatal – despesa pública para estabilidade econômica
e política anticíclica de redistribuição de lucros e bem-estar, mecanismos de
regulação de mercado, participação em negociações internacionais e regulação;

• integração no regime internacional de livre comércio e no sistema
monetário de Bretton Woods (taxas de câmbio fixas, Fundo Monetário
Internacional (FMI), Banco Mundial etc.) (MOULAERT, 2000).

Os territórios, dentro de Estados nacionais que garantiam a reprodução
ampliada do capital – segundo Lojkine (1981), dentro do capitalismo monopolista
de Estado –, eram profundamente hierarquizados, com grandes cidades (que
formavam, na maior parte das vezes, áreas metropolitanas), cuja atividade
principal consistia na indústria baseada na grande empresa, com produção
em massa. O mesmo Estado nacional, por sua vez, garantia as condições mínimas
de reprodução da força de trabalho, fosse por meio de políticas de distribuição de
renda, fosse mediante políticas de infraestrutura social.

Se nos países mais industrializados as grandes cidades passam por uma
estagnação em seu crescimento demográfico, graças a políticas redistributivas que
garantiam a permanência da população mesmo em territórios de menor produti-
vidade (FUÁ, 1980), nos países de Terceiro Mundo recém-industrializados ocorre

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aquilo que teóricos da dependência, como Pereira (1965), chamam de processo
de “macrocefalia urbana”, no qual poucas – ou apenas uma – das grandes cidades
se industrializam e crescem a ritmos acelerados, drenando a população das demais
regiões de seus países. Como a base para a implantação de indústrias nestes países
é a oferta de mão de obra barata, a “macrocefalia urbana” é fundamental para ga-
rantir fluxos migratórios crescentes, de forma a garantir sempre uma superoferta
de mão de obra.

No final dos anos 1960, o modelo fordista entrou em crise,2 por meio de
uma brutal queda de produtividade e da relação capital/produto, que conduziu a
uma redução na lucratividade.

Os empresários reagiram com a internacionalização da produção, enquanto
os Estados Nacionais disciplinaram seus mercados de trabalho e mantiveram po-
líticas monetárias restritivas para controlar a inflação, levando à crise do emprego
e do Estado-providência. (LIPIETZ e LEBORGNE, 1988)

Cabe notar que a crise do fordismo é comumente interpretada como uma
crise da produção em massa, vista pelo lado da