Economia Regional e Urbana
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demanda: estagnação dos mer-
cados; volatilidade da demanda; saturação dos mercados centrais para os bens
duráveis. Ela pode ser considerada como de subconsumo, de acordo com Piore
e Sabel (1984). No entanto, como Lipietz e Leborgne (1988, p. 16) chamam a
atenção, “a internacionalização e a estagnação dos rendimentos detonaram (...)
a crise ‘do lado da demanda’, no fim dos anos 70. A ‘flexibilidade’ surgiu então
como uma adaptação a esse último aspecto da crise, que é tão fundamental
quanto o aspecto ‘lucratividade’”.

Para esses mesmos autores, é falso crer que a crise do fordismo é uma nova
crise de subconsumo mundial, mas é “igualmente falso dizer, como os liberais,
que se trata de uma pura crise de ‘oferta’ (insuficiência de rentabilidade) e que se-
ria suficiente, portanto, restabelecer a lucratividade para sair da crise” (LIPIETZ
e LEBORGNE, 1994, p. 336).

Deve-se entender a crise como uma articulação de causas internas – o modelo
de desenvolvimento – e externas – a internacionalização da economia – que come-
çaram, ambas, a perder vitalidade ao final dos anos 1960.

Mas essa crise não se abateu de modo homogêneo sobre todos os países:
sua primeira fase permitiu até o surgimento dos novos países industrializados,
graças à crescente expansão do crédito. Ao final dos anos 1970, com a abundância
dos petrodólares, estes países contraíram dívidas para se industrializarem ou

2. A crise do fordismo, de acordo com Moulaert (2000), pode ser caracterizada sobretudo como uma crise no modo de
regulação, e não no regime de acumulação. De acordo com Boyer (apud Moulaert, 2000, pg. 20), são quatro os tipos
de crise encontrados no corpo da teoria regulacionista: uma crise causada por distúrbios externos; uma crise cíclica
causada por uma desarmonia entre as dinâmicas de acumulação e regulação; crise estrutural que afeta tanto o regime
de acumulação quanto os modos de regulação; e crise do modo de produção.

Teorias de desenvolvimento Territorial 83

incrementarem a infraestrutura necessária para dar um salto na indústria existente
(como é o caso brasileiro), gerando regimes de acumulação variados, com forte
exploração de mão de obra barata e abundante. Nos anos 1980, contudo, a recessão
emanada das políticas monetaristas com origem nos governos conservadores
dos EUA e Grã-Bretanha propagou-se ao resto do mundo, com uma queda dos
salários, desmantelamento do Welfare State e restrição ao crédito. “A recessão
acrescentou à crise de oferta uma crise de demanda, trazendo à luz o segundo
tipo de encadeamento gerador da crise: a ausência de regulação internacional”
(LIPIETZ e LEBORGNE, 1994, p. 337).

A elevação dos juros nos EUA causou efeitos devastadores sobre a dívida
externa dos países em desenvolvimento, o que fez o México quebrar em 1982.
Após um breve período de crédito fácil e expansão da economia dos países asiáticos
e da Europa (exceto a Grã-Bretanha), houve uma nova elevação dos juros no final
dos anos 1980, devido aos grandes déficits norte-americanos, fazendo explodir
uma crise sem precedentes nos países em desenvolvimento: México, Rússia, Brasil
e, por fim, já nos anos 1990, Argentina, entraram em moratória.

De novo, a resposta às crises é diferente em cada país: a Ásia embarcou com
velocidade na revolução eletrônica; o México agregou-se à Nafta e passou a depender
exclusivamente da economia norte-americana, o Brasil e a Rússia praticaram políticas
de restrição monetária e tentativas de equilíbrio fiscal (levadas com êxito no Brasil,
nos anos 1990), que resultam em elevadas taxas de desemprego, taxas de câmbio
flexíveis e maior abertura comercial. A Argentina, outrora um país exemplo para as
políticas do FMI, passa, na virada do século, pela maior crise de sua história, e entra
no século XXI com uma taxa de desemprego sem precedentes.

Nos países desenvolvidos, as respostas também são diferentes: nos países
europeus que integram a zona do Euro há maior disseminação de políticas de
controle da moeda e dos déficits fiscais, e a emergência de governos conservadores
até mesmo nos países escandinavos, outrora bastiões de regimes social-
democratas. Na Grã-Bretanha, que se mantém fora da zona do Euro, e nos EUA,
a produtividade alcançada compensa os pesados déficits da balança comercial.

2 AS AlTErNATivAS Ao FordiSmo

As respostas à crise do fordismo poderiam indicar a emergência de um sistema
produtivo que desse origem a um novo modo de regulação. Uma das respostas
teóricas é a da “especialização flexível”, que fundamenta o sistema em pequenas
empresas altamente inovadoras, participantes de um mercado global de produtos
de alta qualidade e com a produção orientada ao atendimento de uma demanda
cada vez mais exigente e volúvel, o que pressupõe, por parte das empresas, uma
resposta rápida e eficiente.

Economia regional e urbana84

Outra possível resposta é a da economia global, baseada numa financei-
rização da riqueza, na qual o fluxo global dos mercados financeiros, aliado a
uma potente rede de telecomunicações, que apoia uma sociedade informacio-
nal, transforma o sistema produtivo de tal forma a caracterizar a sociedade atual
como “pós-industrial”.

Essas duas vertentes teóricas que emergem como alternativas ao fordismo
em crise devem ser analisadas com certa cautela, pois, como afirmam Boyer e Du-
rand (1998), é da natureza de qualquer sistema produtivo criar e manter comple-
mentaridades entre a organização interna das firmas, as formas de concorrência,
a natureza das relações industriais, o sistema educativo, sem esquecer a regulação
macroeconômica. Consequentemente, um sistema, que era viável e coerente em
um antigo paradigma, encontra, por hipótese, dificuldades consideráveis para
evoluir em direção a novos princípios. Lipietz (1997), por sua vez, afirma que
existe a possibilidade de coexistência de nações com diferentes modelos, mesmo
dentro de um mundo cada vez mais internacionalizado.

Cada uma das variantes nos interessa particularmente pelas análises no
campo territorial que delas decorrem, dado que, no caso da especialização flexí-
vel, há uma ênfase na formação de distritos industriais, baseados em alta tecno-
logia e voltados ao mercado externo e ao consumo diversificado. As pequenas
empresas teriam papel fundamental neste processo, e sua localização, graças à
crescente flexibilidade introduzida pelos avanços na tecnologia de informação,
estaria livre de vínculos hierárquicos característicos das metrópoles fordistas.

No caso da economia globalizada, o que estaria ocorrendo seria a formação de
um mercado global, livre dos limites dos Estados nacionais, conferindo a algumas
cidades, proeminentes no setor financeiro, o papel de nós da economia mundial,
ligando-se por meio de redes de comunicação. Esta estruturação transformaria o
papel das grandes metrópoles, que assumiriam gradativamente a função de enormes
centros terciários, subvertendo sua vocação industrial fordista.

Cabe aqui analisar com um pouco mais de detalhe cada uma dessas correntes,
colocando em evidência suas principais proposições e contradições e seus efeitos
sobre a análise da estruturação do território.

2.1 Especialização flexível

a) Fundamentação teórica

O termo “especialização flexível”, cunhado por Piore e Sabel (1984), designa um
novo regime econômico que seria o sucedâneo da produção em massa, caracte-
rística do fordismo. Este regime fundamenta-se na busca incessante da inovação
tecnológica, num viés claramente schumpeteriano. Para estes autores, um novo

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ciclo econômico estar-se-ia iniciando, em contraposição à produção em massa,
da mesma forma que, no final do século XIX, havia a contraposição da produção
artesanal à produção em massa.

Segundo os autores, a diretriz principal da produção em massa é que o custo
de se fazer cada bem pode ser dramaticamente