Economia Regional e Urbana
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reduzido se o maquinário substituir
o trabalho humano necessário para produzi-lo. Quanto maior for o número de má-
quinas, menor o custo de produção. O ápice deste modo de produzir ocorreu em
1913, quando o Modelo T, da Ford, saiu da fábrica de Highland Park, Michigan:
o maquinário era tão preciso na fabricação das partes que não havia necessidade de
trabalho manual para sua elaboração (PIORE e SABEL, 1984).

Até os anos 1960, as estruturas econômicas fundadas na produção em massa
produziram prosperidade e estabilidade social. “Os países industrializados cresce-
ram rapidamente e, comparado com períodos anteriores, estavelmente. A inflação
era moderada. O desemprego era geralmente baixo, e em alguns lugares, ínfimo.
Os frutos da expansão econômica eram amplamente dispersos. Existia um senti-
mento generalizado de bem-estar” (PIORE e SABEL, 1984, p. 165).

No entanto, no final da década de 1960, o mundo industrial entrou em um
período turbulento, no qual um problema seguia outro. Segundo os autores, os
eventos não podem ser explicados (e muito menos revertidos) por teorias e polí-
ticas de épocas precedentes, e a crise econômica fazia parecer uma crise geral do
sistema industrial.

Cinco episódios críticos são então citados como as principais turbulências
da época: o primeiro refere-se à intranquilidade social do final dos anos 1960,
principalmente nos Estados Unidos (sobre a economia, Guerra do Vietnã e
contra o racismo) e na Europa (estudantes, imigrantes, revoltas contra a ordem
econômica vigente). O segundo compreendeu o abandono de taxas de câmbio
fixas e uma guinada em direção a taxas de câmbio flutuantes, o que provocou a
rápida deterioração da posição competitiva dos Estados Unidos, já no final dos
anos 1960, e certa desordem no comércio mundial.

Como terceira turbulência, os autores mesclam o primeiro choque de petróleo,
de 1973, e a crise na produção de trigo da ex-União Soviética, ambos provocando
uma rápida elevação nos preços do petróleo e do trigo, este último graças à demanda
soviética pelo grão. Esta turbulência nos preços fez com que a incerteza dos produto-
res em massa aumentasse, uma vez que seus investimentos de longo prazo em custos
fixos altos e recursos especializados tiveram muita dificuldade de gerenciamento.

Antes do segundo choque do petróleo, apontado como a quarta turbulência
por Piore e Sabel (1984), alguns países do Terceiro Mundo (como Brasil e
Polônia) puderam se endividar graças à oferta excedente de petrodólares advinda
da elevação de seu preço. Quando a crise do Irã, de 1979, sobreveio e houve

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nova elevação nos preços do petróleo, a inflação em alta fez com que os países
industrializados elevassem suas taxas de juros, o que provocou uma recessão em
nível global, prejudicando ainda mais os países devedores, trazendo a última
turbulência, que é o mundo convivendo com altas taxas de juros, recessão e crise
das dívidas (PIORE e SABEL, 1984, p. 180).

“Vista como acidentes e enganos, a desordem econômica começa como
uma crise de oferta e então (devido às respostas do sistema regulatório e do
governo) se transforma em uma crise de demanda” (PIORE; SABEL, 1984, p.
181). A crise de demanda surgiu como um corolário das políticas de arrocho
fiscal que levaram à recessão nos anos 1980 e à dispersão dos mercados de massa
por produtos padronizados.

Do ponto de vista social, os autores investem na mudança do padrão de
consumo, que resulta da “interação entre cultura e custos relativos” (PIORE e
SABEL, 1984, p. 190). No mundo da produção em massa, os consumidores
aceitavam bens padronizados por causa da extensão do mercado e redução dos
preços, graças às economias de escala. Porém, quando os mercados de massa tor-
nam-se estagnados e a competição intensifica-se, as firmas procuram diversificar
seus produtos para atrair consumidores; as que obtêm mais sucesso são aquelas
que investem em tecnologias flexíveis para aumentar sua eficiência.

Os autores afirmam, então, que há dois caminhos possíveis para sair da
crise: de um lado, o “keynesianismo internacional”, ou a extensão de princípios de
organização institucional e macrorregulação; de outro, a “especialização flexível”,
ou uma mudança radical no paradigma tecnológico e no sistema de regulação.
A indústria estaria assistindo, então, a uma nova bifurcação no regime econômi-
co, assim como no final do século XIX.

O caminho da especialização flexível passa por precondições tecnológicas que
devem ser atendidas, e uma delas é que as novas tecnologias não se restrinjam a
uma saída técnica, mas componham uma trajetória de progresso. Dois argumentos
são então empregados para afirmar que se trata de uma trajetória: primeiro, que
a utilização de computadores nos processos industriais favorece sistemas flexíveis;
segundo, que o uso de computadores na indústria é um resultado de mudanças no
ambiente competitivo, que contribuem para flexibilidade, assim como esta contri-
bui para ulteriores avanços na informática.

Do ponto de vista da regulação microeconômica, uma mudança da produção
em massa para a especialização flexível permite um tipo de economia regulada por
preços de mercado, seja por causa do aumento do número de pequenas empresas,
seja pela disponibilidade livre dos recursos. Além disso, com as mudanças na deman-
da, as firmas poderiam simplesmente usar a capacidade flexível de suas máquinas
para fabricar as mercadorias cujos preços estivessem em alta. Em outros termos,

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a demanda ditaria os preços a serem pagos, e às firmas caberia programar-se
adequadamente para produzir, tendo em sua estrutura de custos este preço.

b) Os distritos industriais

Uma das faces da especialização flexível, e que é a mais diretamente envolvida
com o tema deste trabalho, consiste na aglomeração regional, que tem sua origem
nos distritos industriais teorizados por Marshall, na virada do século XIX para o
XX (PIORE e SABEL, 1984). As regiões “flexíveis” por excelência são aquelas
da Itália centro-setentrional, a do distrito de confecções de Nova Iorque e a da
indústria de construção em diversas cidades norte-americanas.

Esses distritos são compostos por empresas de pequeno porte (muito seme-
lhantes em tamanho), agindo em uma complexa rede simultânea de cooperação
e concorrência (PIORE e SABEL, 1984). Nesse modelo, afirmam os autores, ne-
nhuma das empresas é permanentemente dominante, e os arranjos entre elas são
definidos por uma série de contratos de curto prazo, nos quais os papéis das partes
estão sendo sempre transformados. Dentro desses distritos existem instituições que
facilitam a recombinação das empresas produtivas (associações de produtores, sindi-
catos, cooperativas de compra, crédito em termos favoráveis, por exemplo).3

Sendo esse um modelo muito semelhante ao encontrado nas regiões que
compõem o que Bagnasco chama de “Terceira Itália”,4 muitos teóricos viram
nessa organização produtiva, baseada na especialização flexível, o novo regime
econômico. Becattini (1994) teoriza sobre o distrito industrial, dentro de um
pensamento tipicamente marshalliano, mas com alguns elementos do pensamen-
to marxista (ele mesmo observa certa dualidade de pensamento). Para o autor,

o distrito industrial é uma entidade sócio-territorial caracterizada pela presença ativa
de pessoas e de uma população de empresas em um espaço geográfico e histórico dado. No
distrito, ao contrário do que se passa em outros tipos de ambientes, como, por exemplo,
as cidades industriais, tende a haver uma osmose perfeita entre comunidade local e em-
presas (BECATTINI, 1994, p. 40).

Uma divisão de trabalho cada vez mais desenvolvida conduz a um excedente
da produção, que se dirige, necessariamente, ao mercado externo. Por conta do
atendimento de uma demanda cada vez mais volúvel, não há possibilidade