Economia Regional e Urbana
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de o
distrito atender apenas esporadicamente os mercados externos, devendo manter,

3. Embora as críticas sejam feitas adiante, é interessante notar desde já que, entre essas instituições que promovem
o desenvolvimento dos distritos industriais, não há papel para entes governamentais. Existe apenas um lembrete que,
no caso da Terceira Itália, “os governos municipais têm um papel importante na dotação de infraestrutura industrial”.
(Piore e Sabel, 1984, p. 266).
4. O termo nasce a partir da emergência de regiões como a Emilia Romagna e o Veneto (Centro e Nordeste do país),
que não faziam parte nem do núcleo industrial “duro” do triângulo formado por Milano, Torino e Genova (baseado na
grande indústria), nem no Sul atrasado, atendido pela extinta Cassa per il Mezzogiorno.

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assim, uma rede permanente de relações com fornecedores e clientes.

Para tanto, o distrito precisa de uma comunidade local que tenha como
principal característica possuir um sistema relativamente homogêneo de valores
e de pensamento, “expressão de uma certa ética do trabalho e da atividade, da
família, da reciprocidade, do intercâmbio, que condicionam de alguma forma os
principais aspectos da vida” (BECATTINI, 1994, p. 41).

No que se refere à população de empresas, Becattini esclarece que não se
trata de uma multiplicação fortuita de empresas genéricas, pois a miríade de
empresas que constituem o distrito tem tendência a se especializar em uma ou
algumas fases do seu processo produtivo específico, formando um caso concreto
de divisão do trabalho localizada. Como “localização”, o autor não entende a
concentração acidental de vários processos produtivos atraídos ao mesmo lugar
por fatores próprios da região. Ao contrário, “as empresas estão arraigadas no ter-
ritório e não é possível conceber esse fenômeno sem ter em conta a sua evolução
histórica” (BECATTINI, 1994, p. 43). Isto significa que cada distrito apresenta-
rá características distintas de qualquer outro.

Quanto aos recursos humanos, o distrito oferece uma grande variedade de
atividades profissionais, com inúmeros tipos de vínculos, que vão desde o traba-
lho doméstico até o assalariado, em tempo parcial ou integral. O aprendizado é
uma ferramenta importante, uma vez que o trabalhador tende a acompanhar as
mudanças de atividade, que são cada vez mais frequentes. “Essa tendência in-
trínseca do distrito de reorganizar constantemente seus recursos humanos é uma
das condições sine qua non de sua competitividade e de sua produtividade” (BE-
CATTINI, 1994, p. 45). Este intercâmbio constante de uma atividade a outra,
ou mesmo de uma empresa para outra, cria aquilo que Marshall chamava de
“atmosfera industrial”, favorecendo a transmissão de conhecimentos adquiridos
de maneira tradicional (com escolas profissionais, por exemplo), ou de maneira
informal, graças a relações pessoais.

Outra característica importante da organização dos distritos industriais
refere-se à forma como é introduzida a inovação tecnológica: se na grande em-
presa a introdução de inovações é um foco de resistências (porque a decisão é
tomada com base em cálculos de custos que não levam em conta a participação
dos funcionários), no distrito ela é considerada um avanço social, “realizado
graças a uma tomada de consciência progressiva por parte do conjunto dos
segmentos da atividade industrial e de todas as camadas da população” (BE-
CATTINI, 1994, p. 51).

A introdução de novos equipamentos mais modernos é sempre vista como
algo positivo que, mesmo trazendo consequências negativas no curto prazo, é
necessária para um futuro melhor. “A inovação tecnológica não é considerada

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(...) uma medida dolorosa ou imposta de fora, mas uma ocasião de reforçar uma
posição já conquistada” (BECATTINI, 1994, p. 51).

No que se refere ao crédito, sempre difícil para as pequenas empresas, o
preconizado por Becattini é a existência de bancos locais, originários dos pró-
prios distritos, que mantêm relações muito próximas com os empresários locais
“e, frequentemente, com outros grupos de pressão sociais e políticas locais”
(BECATTINI, 1994, p. 52).

Vista dessa forma, a organização do território passa a sofrer uma grande
alteração, tendo em vista que a hierarquia urbana fundada desde a primeira Revo-
lução Industrial e consolidada no fordismo não é mais um elemento fundamental
para o desenvolvimento econômico. A organização da produção em pequenas
empresas altamente inovadoras, funcionando em rede e voltadas ao mercado ex-
terno, não faz parte da hierarquia urbana fordista, e passa a ser o objeto de desejo
de todas as regiões que possuam alguma atividade especializada.

Ganha força a tese de “desenvolvimento endógeno”, assim como o propug-
na Garofoli (1994), o que pressupõe uma ampliação do poder de decisão da escala
local. Como são vários os distritos possíveis (já que a restrição geográfica passa a
ser desprezível), há uma competição entre as diversas cidades ou regiões para se
adequarem ao novo modelo de desenvolvimento,5 que é referendada por organis-
mos que financiam projetos de investimentos públicos, como o Banco Mundial
(FERNANDES, 2000).

c) As city regions

Outra corrente teórica filiada à especialização flexível, ainda que, digamos, com
uma visão não tão idílica sobre as pequenas empresas flexíveis e inovadoras
vivendo em um ambiente de intensa colaboração, é aquela representada por
Scott, Storper, Agnew e Soja, todos da Universidade da Califórnia, que, focando
a diminuição dos custos de transação, definem as cidades-região como o locus
privilegiado da nova ordem econômica mundial.6

Em seu artigo Global City-Regions, apresentado na Conferência sobre Global
City-Regions, realizada na Universidade da Califórnia (UCLA), na School of
Public Policy and Social Research, em 1999, esses autores, seguindo parcialmente
a trilha de Peter Hall (das “cidades mundiais”) e de Saskia Sassen (das “cidades
globais”), propõem o conceito de cidades-regiões (city regions), que podem ser
desde grandes áreas metropolitanas baseadas em um grande centro (Londres,

5. Um bom exemplo dessa competição, no Brasil, é a chamada “guerra fiscal” entre as Unidades da Federação. Uma
análise desse processo pode ser encontrada em A Guerra Fiscal no Brasil, de Sérgio Prado e Carlos E. G. Cavalcanti,
Edições Fundap, Fapesp, Ipea, 2000.
6. Ver, a respeito, Scott (1996; 2001), Scott et al. (1999), Storper (1998) e Scott e Storper (2003).

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México, Tóquio, São Paulo), até unidades policêntricas (as redes urbanas da
Terceira Itália ou os Länder alemães), mas que têm em comum o fato de serem
nós espaciais essenciais para a economia global.

Segundo os autores, além de não serem desmanteladas pela globalização,
as city regions tornam-se cada vez mais centrais na vida moderna, reativando sua
significância como base de todas as formas de atividade produtiva, sejam estas
manufatura ou serviços, ou setores de alta ou baixa tecnologia. Elas emergiram,
nos últimos anos, como um novo e importante tipo de fenômeno geográfico e
institucional no atual estágio da economia mundial.

Para os autores, a globalização enfraquece os Estados Nacionais, que
sustentavam distintos sistemas nacionais urbanos e impunham fortes bar-
reiras econômicas ao comércio mundial. Com a abertura dos fluxos comer-
ciais, emerge uma nova organização espacial que consiste, acima de tudo, “de
uma hierarquia de escalas territoriais da atividade econômica e de relações de
governança,7 que variam do global ao local” (SCOTT et al. 1999).

Há um deslocamento dos níveis de definição das políticas, para um nível
supranacional, de um lado, e para níveis de operação locais ou regionais, de outro.
Com isso, ganham impulso as formas de organização política e econômica de base
regional, representadas