Economia Regional e Urbana
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glomerações. Estes centros são também um ponto privilegiado de sustentação de
um terciário complexo na economia nacional, reforçando o seu crescimento.

A extrema concentração urbana nos países subdesenvolvidos resulta da com-
binação de duas dinâmicas essenciais: surgimento de amplos clusters produtivos
(similares aos dos países desenvolvidos); e níveis iniciais baixos de urbanização,
setores modernos restritos e infraestrutura de baixa qualidade (específico dos pa-
íses subdesenvolvidos).

Nos países subdesenvolvidos, as city regions, embora sejam mais ricas do
que outras regiões do território nacional, possuem uma população marcada por
profundas disparidades econômicas, sem políticas de distribuição de renda, o que
impossibilita o financiamento de necessidades de infraestrutura e de serviços.
Por causa de um limitado número de city regions que podem funcionar como
pontos de contato com as mais modernas partes da economia global, há uma
tendência diminuta à dispersão espacial da população e da atividade econômica,
o que faz com que não ocorram pressões nestes centros.

Devido à natureza do processo de desenvolvimento baseado em rápi-
da industrialização e altos níveis de migração populacional, as populações das
city-regions dos países subdesenvolvidos são altamente segmentadas em termos
de classes sociais, renda e raça e as formas espaciais refletem esta segmentação.
A proximidade da população pobre, juntamente com a desigualdade e a segrega-
ção, aumenta a violência, que passa a ser sentida nas classes mais abastadas; a ar-
quitetura do medo somente exacerba este caráter fragmentário do espaço urbano.

Mais recentemente, as city regions globais dos países subdesenvolvidos
defrontam-se com um duplo problema econômico: de um lado, há uma certa
tendência ao movimento de atividades econômicas para fora do “core” metropo-
litano; e, de outro, existe uma limitada tendência à migração de atividades pro-
dutivas rotineiras para cidades menores. Estas tendências, no entanto, estão longe
de serem suficientemente fortes para frear o crescimento econômico das grandes
aglomerações urbanas.

2.2 A globalização

a) Fundamentação teórica

Não se pretende aqui – e nem é o escopo deste trabalho – discutir se há ou não
um processo econômico chamado “globalização”, devendo o leitor remeter-se

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a trabalhos específicos que tratam deste tema.9 O que interessa é que existem
fenômenos importantes que ocorrem com a crescente internacionalização da
economia, considerada fundamental na tese das cidades mundiais e globais,
transformando as funções anteriormente desenvolvidas por estas cidades.

Segundo Moulaert (2000), se no final dos anos 1980 estava-se no meio da
“globalização”, isto significava, principalmente:

• aumento das estruturas corporativas globais, do comércio e da rede de
finanças, articuladas por transformações expressivas em tecnologia de in-
formação e telecomunicações, gerenciamento e técnicas organizacionais
e transferência de capitais;

• maior integração do Primeiro Mundo, às expensas da intensificação da
exclusão do Terceiro Mundo da economia mundial, com os fluxos de
investimento concentrando-se no Japão, EUA e Europa;

• racionalização da atividade econômica, com uma “clusterização” de
atividades de P&D, engenharia e produção em regiões urbanas privi-
legiadas, e cobertura de uma grande área de mercado por um limitado
número de provedores metropolitanos e a exclusão de áreas periféri-
cas da dinâmica de acumulação do capitalismo global;

• sacrifício de partes significativas da regulação nacional para a concor-
rência global de corporações e regulação orientada ao mercado, como
as exortadas pelo FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do
Comércio (OMC).

Para Storper (1999), globalização consiste na expansão de fluxos diretos de
bens (tecnologia, equipamentos, produtos) e capitais (ativos reais e financeiros)
para além das fronteiras nacionais. “Os atores dominantes na nova economia
baseada em redes são corporações multinacionais e instituições financeiras, e os
fluxos de recursos dominantes estão dentro de suas redes e não entre firmas e ins-
tituições territorializadas, mercados e estados nacionais” (STORPER, 1999, p. 2).
Ohmae (2002), por sua vez, afirma que, com a globalização, é preciso desenvolver
certas estratégias quase que inteiramente e simultaneamente para o mundo e, ao
mesmo tempo, localizar a estratégia que depende de diferentes necessidades de
consumidores, local por local. E resume: “I identified four C’s: Company, Currency,
Competition and Capital, crossing national borders” (OHMAE, 2001, p. 1).

Para Peter Hall (1997), um dos principais teóricos das cidades mundiais, a
globalização forja uma nova divisão do trabalho: grandes empresas multinacio-
nais, que operam em um número limitado de cidades no mundo, relocalizam

9. Ver, a respeito: Paulino (1998), Chang (2002), e Chesnais (1994).

Teorias de desenvolvimento Territorial 95

suas operações para regiões onde os custos são menores, operando, portanto, com
maior eficiência. Isto provocou, nos anos 1970 e 1980, uma desindustrialização
em larga escala, em muitas das principais cidades manufatureiras do mundo de-
senvolvido, e o crescimento de novos centros manufatureiros em novos países re-
cém-industrializados (Coreia, Taiwan, Cingapura, Malásia, China, entre outros).

Ao mesmo tempo, nas economias avançadas, há um movimento da
manufatura aos serviços em termos de proporção do emprego e do produto
interno bruto (PIB). Além disso, dentro do setor de serviços, existe um aumento
da proporção dos chamados serviços avançados, que lidam com a produção e a
troca de informação.

Com isso, um novo tipo de cidade emerge: globalizada (conectada com outras
cidades em redes globais); terciarizada (com sua atividade econômica dependente
quase inteiramente da existência de serviços avançados); “informacionalizada” (uti-
lizando a informação como matéria-prima); e policêntrica (dispersando residências
e descentralizando empregos em múltiplos centros) (HALL, 1997).

b) Cidades mundiais

Hall (2001) define cidade mundial como: centro de poder político (nacional
e internacional) e de órgãos governamentais; centro de negócios nacionais e
internacionais, atuando como entreposto para seu país e países vizinhos; centro
de bancos, seguros e outros serviços financeiros; centro de atividades profissio-
nais avançadas de todos os tipos, como medicina, direito, educação superior
e aplicação de conhecimento científico à tecnologia; centro de informação e
difusão, por meio de editoras e mídia de massas; centro de consumo conspí-
cuo, de bens de luxo para a minoria e de produtos de massa; e centro de artes,
cultura e entretenimento.

Embora admita que cidades desse tipo sempre existiram, Hall argumenta
que elas incrementaram sua centralidade com o fenômeno da globalização: com a
informatização da economia e a progressiva mudança, nas economias avançadas,
de bens de produção para manejo de informação, a maioria da força de trabalho
não lida mais com produtos materiais. Castells (1995) caracteriza este fato como
uma mudança econômica fundamental, um momento equivalente ao da transfor-
mação da economia agrária em industrial, nos séculos XVIII e XIX.

c) O espaço de fluxos

Castells identifica um novo tipo de espaço econômico – o espaço de fluxos – que
é precondição para a entrada em uma rede de comunicação mundial. O espaço de
fluxos “domina o espaço de lugares historicamente construído, assim como a lógica
da organização dominante se liberta de constrangimentos sociais de identidades

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culturais e sociedades locais através do poderoso meio das tecnologias de informa-
ção” (CASTELLS, apud THRIFT, 1995). Para Thrift (1995, p. 20), “o comércio
eletrônico flutuaria através do globo, criando