Economia Regional e Urbana
410 pág.

Economia Regional e Urbana

Disciplina:Economia Regional e Urbana49 materiais215 seguidores
Pré-visualização50 páginas
uma nova atmosfera econômica”.

Castells (1999, p. 436) afirma que nossa sociedade “está construída em torno de
fluxos: fluxos de capital, fluxos de informação, fluxos de tecnologia, fluxos de intera-
ção organizacional, fluxos de imagens, sons e símbolos (...) [os fluxos] são a expressão
dos processos que dominam nossa vida econômica, política e simbólica”. A tecnologia,
sobretudo a de informação, tem papel preponderante nesta nova organização territo-
rial, embora o autor considere que a tecnologia não determine as condições materiais
da sociedade. Segundo Tinoco (1999), Castells considera infundado o dilema sobre o
determinismo tecnológico, porque a tecnologia é a sociedade, e estudar os processos
de mudança tecnológica significa estudar os processos da mudança social.

Os fluxos de Castells necessitam de uma economia funcionando em rede.
Assim, como nós mais importantes desta economia, as cidades globais passam a
ter grande importância em sua fundamentação teórica. Embora haja, em Castells,
uma certa “desmaterialização” do espaço, o espaço de fluxos possui alguns níveis
de suporte material, que são os seus nós ou os centros de controle.

d) As global cities

Isso aproxima Castells da principal teórica das cidades globais, Saskia Sassen,10 mas
com uma grande diferença, que é a concentração de poder econômico nestas cida-
des. Para Sassen (1994), a produção, graças à tecnologia, pode ser dispersa, desvin-
culando-se assim os negócios e os serviços da produção. A dispersão da produção,
incluindo a internacionalização, contribuiu para o crescimento de nós de serviços
centralizados para o gerenciamento e regulação do novo espaço econômico. O peso
da atividade econômica deslocou-se de lugares baseados na produção para centros
financeiros e de serviços altamente especializados, que existem em pequeno número
e são chamados de “cidades globais”.

Essas cidades, assim como para Hall (2001), são centros de serviços financeiros
e de decisão de grandes empresas (algumas também são sedes de poder governa-
mental), atraindo serviços altamente especializados (direito comercial, publicidade,
serviços de relações públicas) e também crescentemente globalizados e relacionados
com essa centralidade.

Sassen diferencia a cidade global das capitais de impérios da Antiguidade.
“A cidade global é uma função de uma rede de cidades” (Government Technology,
1999). A diferença é que as comunicações acontecem simultaneamente em redes
digitais de longas distâncias, mas também em um espaço muito concentrado, e não
numa extensa rede de cidades que, em períodos anteriores, comunicavam-se entre si.

10. Sassen, por sua vez, é caudatária das teorias das cidades mundiais de Hall e Friedman.

Teorias de desenvolvimento Territorial 97

Do ponto de vista da organização política, a emergência dessas cidades tende
a alterar a escala de poder. Se antes havia um sistema econômico internacional re-
lacionado com governos nacionais, atualmente existe uma subunidade, que é a de
cidades globais. Elas passam a ser uma estrutura-chave para a nova forma de poder
trazida pela globalização.

As cidades globais são, de alguma forma, estratégicas porque estão em redes:
telemáticas; de funções estratégicas que constituem a economia global; de firmas
que são envolvidas; e de mercados. Elas configuram uma nova geografia da centrali-
dade, que é a dos espaços nos quais certa ação política pode ter lugar, via poder dos
prefeitos, transferindo o poder político do nível nacional para o local (Government
Technology, 1999).

Isso pode provocar uma competição entre várias cidades, tornando-as atraentes
aos investimentos estrangeiros. No entanto, segundo Hall (2001), isto está restrito
por certo senso de realismo, já que não são todas as cidades que podem entrar nesta
disputa. O autor separa, então, as cidades em três níveis: globais, subglobais (que se
localizam sobretudo na Europa) e regionais.

As cidades globais, como anteriormente definidas, são aquelas nas quais os
negócios consistem principalmente em produção de serviços informacionais espe-
cializados, serviços financeiros, serviços de mídia, serviços educacionais e de saúde e
turismo (inclusive turismo de negócios). Estas cidades (que perderam certas funções
entre os anos 1970 e 1980) apresentam redução de empregos em setores tradicio-
nais (como a manufatura) e grandes ganhos em outros, como serviços financeiros
e serviços especializados de negócios. As cidades que podem ser inequivocamente
consideradas globais seriam Nova Iorque, Londres e Paris (HALL, 2001).

Num nível abaixo desse, encontram-se as cidades que são as principais capitais
europeias (Amsterdã, Bruxelas, Copenhague, Estocolmo, Oslo, Berlim, Viena, Praga,
Budapeste, Varsóvia, Roma, Madri, Lisboa e Dublin), assim como as principais
cidades comerciais ou culturais da Europa, como Barcelona, Milão, Zurique, Gênova
e Frankfurt. A característica que as une é que suas áreas metropolitanas possuem
populações entre 1 e 4 milhões de habitantes.

Essas cidades tentam competir com as globais, mas apenas em setores es-
pecíficos: algumas competem em termos de sede governamental (como Roma,
Bruxelas e Genebra), outras no sistema bancário (Amsterdã e Zurique), ou design
(Milão). Cidades norte-americanas, assim como as europeias, também competem
com Nova Iorque: Washington em termos de sede governamental; São Francisco
e Chicago, com o setor financeiro; e Los Angeles, em cultura e lazer.

Assim como na relação entre as cidades globais e as subglobais, estas últimas
envolvem as principais capitais provinciais dos Estados europeus mais importantes:
Manchester e Birmingham, Lyon e Marselha, Hannover e Stuttgart, Florença e

Economia regional e urbana98

Nápoles, Sevilha e Valência. Estes lugares servem tipicamente como centros
administrativos e de serviços de alto nível para regiões urbanas e rurais, mos-
trando ainda certo dinamismo, mesmo que algumas tenham perdido funções
manufatureiras. Da mesma forma, Boston, Atlanta, Seattle e outras cidades
norte-americanas são centros regionais, que não competem substancialmente
nem em nível nacional e menos ainda em nível internacional, mas possuem
ainda certos nichos de mercado que têm presença significativa em nível global11
(HALL, 2001).

Taylor e Walker (2000) aprofundam os estudos empíricos sobre as cidades
globais, tentando reverter os problemas que, segundo eles, encontram-se nas vi-
sões de Hall e de Sassen, a saber: muito empirismo no primeiro caso; e foco res-
trito nas três principais cidades globais no caso de Sassen. Para tanto, há uma série
de análises multivariadas que tentam qualificar os nexos entre o global e o local.12

Partindo do pressuposto das diferentes estratégias das firmas diante da glo-
balização, os autores procuram distinguir, por meio de dados sobre variáveis de
serviços avançados e pesquisas em centros de decisão de empresas em várias ci-
dades ao redor do mundo, os diversos perfis das cidades mundiais, estabelecendo
uma hierarquia entre elas e as suas relações. São incluídas nesta análise não só
cidades europeias ou norte-americanas, mas também da América Latina, Ásia e
Austrália, além de Johannesburgo (a única cidade africana).

São analisados serviços oferecidos (sedes de escritórios, centros de publicidade
e advocacia), passageiros transportados em aeroportos internacionais, ligações telefô-
nicas internacionais, número de turistas a negócios, entre outras variáveis, de forma a
se estabelecerem parâmetros para considerar se determinada cidade pode ser ou não
uma cidade mundial, e sua posição na hierarquia das cidades mundiais.

3 CrÍTiCAS

a) Gerais

As críticas às teorias precedentes podem ser feitas em dois níveis, que se comple-
mentam. No primeiro, estão as contestações de seus fundamentos econômicos, não
se aceitando que a especialização flexível seja um novo modelo