Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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de cidades e vilas bem conectadas entre si já havia distribuído, em
termos locais, as funções urbanas, tais como serviços bancários, escolas, centros de
treinamento profissional, shopping centers, serviços e uma administração local relati-
vamente eficiente, tudo isso unido por fortes identidades locais. Havia também uma
forte tradição artesanal e, em alguns casos, industrial. Esse ambiente social fornecia a
muitas pessoas know-how técnico e comercial, apesar de ainda um pouco elementar,
e produzia infraestrutura e serviços relativamente eficientes, uma consciência comum
da ideia e das práticas do mercado e uma rede de relações pessoais que permitia a
existência de confiança mútua, fator importante para a circulação fácil da informação
e para a realização de operações comerciais (BAGNASCO, 2001, p. 356).

“Muitos se viram em condições de assumir o risco de embarcar numa
aventura empresarial. A família foi importante, nesse sentido: as empresas, mui-
tas vezes, eram de natureza familiar, nas quais parentes trabalhavam conjunta-
mente, e com estratégias agregadas” (BAGNASCO, 2001, p. 357). A região que
é o epicentro do fenômeno da Terceira Itália, a Emilia Romagna, vale lembrar,
sempre teve uma forte vinculação ao Partido Comunista Italiano, desde a sua
fundação, em decorrência de uma ampla rede sindical que articulava os campo-
neses e pequenos agricultores. Isto promoveu o aparecimento de administrações
locais progressistas, fortemente vinculadas às necessidades da população, o que
fez com que a região tivesse, ao longo do tempo (e não apenas atualmente),
desenvolvido os melhores serviços sociais, altos níveis de mobilidade social,
conflitos administrados de forma pragmática e cooperação entre os agentes.

A esses recursos específicos (culturais e sociais) da sociedade local Bagnasco
(2001, p. 359, grifos nossos) dá o nome de “capital social”, ou “uma trama de relações
construídas ao longo do tempo e baseadas numa cultura cooperativa, na confiança mú-
tua e em formas de organização social às quais novos rumos podem ser dados”.

Entretanto, as aparências podem mostrar que não se trata de uma vitória
da economia de mercado sobre uma política estatal de desenvolvimento regional.
De fato, ainda mais se comparada com a experiência da Cassa per il Mezzogiorno,

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que tinha entre seus objetivos desenvolver a região sul da península, a Terceira
Itália apresenta um desenvolvimento que aparentemente é desvinculado de po-
líticas específicas. Este desenvolvimento baseia-se em uma miríade de pequenas
empresas que possuem um objetivo comum: ganhar mercados (principalmente
no exterior), embora concorram entre si, numa espécie de paraíso smitheano de
alta tecnologia.

O sucesso dos distritos italianos é um excelente motivo para a apologia
neoliberal dos últimos 20 anos, mas uma leitura mais cuidadosa de seus fun-
damentos pode mostrar uma visão não tão otimista assim. A intervenção do
Estado, demonizada pelos organismos internacionais, não funcionou no sul da
Itália não por ser estatal, mas por ser ruim, baseada em um clientelismo político
muito conhecido dos brasileiros (qualquer semelhança com a Superintendên-
cia do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e o clientelismo político não é
mera coincidência). Da mesma forma, dizer que não há intervenção do Estado
na Terceira Itália é colocar debaixo do tapete todas as iniciativas dos governos
locais e regionais, como bem lembra Bagnasco, construídas ao longo do tempo.
Não nasceram com a especialização flexível ou com a globalização, mas foram
extremamente úteis para afrontar a crise do fordismo.

E foram úteis especialmente no papel desempenhado pelas instituições
locais e regionais, como atesta o modelo emiliano. O sistema ERVET é ca-
pitaneado pela ERVET – Politiche per le Imprese S.p.A., uma agência de
desenvolvimento da Região da Emilia Romagna, estabelecida em 1974, como
suporte para operacionalização das políticas de desenvolvimento regionais,
numa cooperação com firmas, associações empresariais, autoridades locais e
outras agências locais.13 Na sua composição acionária, a Região Emilia Ro-
magna comparece com 80,04% (com ainda 0,27% das prefeituras das princi-
pais cidades). Fazem parte do sistema ERVET 14 outras empresas, quase todas
de capital misto, que se dedicam ao desenvolvimento tecnológico (como a
Aster, o Centro Cerâmico, a Cercal, de calçados e a Citer, de apoio à indústria
têxtil), ao apoio a programas de qualidade e produtividade (Quasco, Demo,
Sipro, Cermet), ao desenvolvimento de negócios e apoio de serviços (Bic,
Cesma) e agências locais promotoras de desenvolvimento (Promo, Soprae e
Agenzia Polo Ceramico). Destas, em apenas três o controle de capital não é
estatal (em suas várias formas), e nas quais, em duas o controle privado se dá
apenas pela participação de associações de classe. Ou seja, advogar um com-
pleto distanciamento do Estado no desenvolvimento da região é fechar os
olhos a uma intrincada rede de associações de capital, em que entram bancos
(muitos deles caixas econômicas locais), empresas individuais, associações de
classe, prefeituras, governos provinciais e regionais.

13. Evert system’s description of activities. Ervet politiche per le imprese SpA. Bologna, 1998.

Teorias de desenvolvimento Territorial 103

Martinelli e Schoenberger (1994), além de colocarem em dúvida as
especificidades do modelo italiano, notam uma reconcentração do poder de
decisão em algumas poucas empresas, para fazer frente à necessidade de racio-
nalização da produção diante da concorrência de novos países industrializados
e ao ganho de economias de escala nos setores financeiros, de concepção de
novos produtos, de comercialização e distribuição, para controlar de forma
mais eficiente os mercados de seus produtos.14

As autoras concluem que

muitos dos distritos industriais da Terceira Itália parecem ser uma variante histórica e
geográfica muito especial da acumulação flexível. Por outro lado, parece cada vez mais
evidente que este modelo é por si próprio instável frente à racionalização das capacidades
de produção e à reconcentração de funções financeiras e estratégicas (MARTINELLI e
SCHOENBERGER, 1994, p. 171).

A teoria das city regions, (SCOTT et al., 1999) é muito mais abrangente do
que a dos distritos industriais, embora pertença à mesma matriz estrutural, a da
especialização flexível. Tanto é mais abrangente que a própria região dos distritos
industriais italianos pode ser considerada, segundo os autores, uma city region.

Novamente, as principais críticas a esse modelo teórico partem de Amin e
Robbins (1994), que qualificam Scott como representante da “nova ortodoxia”
econômica. A crítica de Amin e Robbins (1994) inicia-se pela assunção por parte
de Scott e Storper de que o modelo da especialização flexível, em oposição ao de
produção em massa, é o novo caminho para o desenvolvimento e a mudança so-
cioeconômica, o que consideram uma oposição conceitual muito limitada.

Segundo os autores, esta “nova ortodoxia” recorre a um modelo teórico fundado
no funcionalismo estrutural. “Certas tendências do período atual são declaradas abso-
lutas e convertidas em paradigma de um futuro regime de acumulação, de uma nova
fase do capitalismo” (AMIN e ROBBINS, 1994, p. 136). O processo de mudança
para uma sociedade pós-fordista estaria longe de ser determinado de maneira tão pre-
cisa quanto sugere a “nova ortodoxia”.

A homogeneização dos fenômenos recebe de Amin e Robbins (1994, p. 4)
duras críticas: “Ainda que reconheçam diferenças históricas que orientaram o seu
desenvolvimento, Storper e Scott unem fenômenos tão heterogêneos como os
distritos industriais italianos, as tecnopólis e os centros metropolitanos em um
único paradigma central”. Uma teoria geral como a formulada por Scott et al.
(1999), que possa ser aplicada a