Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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qualquer tipo de complexo produtivo, corre sério
risco de ignorar as continuidades históricas próprias de cada complexo social, cujo
desenvolvimento não é dirigido por uma transformação estrutural homogênea.

14. É o caso, por exemplo, da indústria de confecções do Veneto, capitaneada pela Benetton, de Treviso.

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Para Amin e Robins (1994, p. 148), “as variações nas relações sociais e as relações
de poder entre as empresas, as instituições, os empregadores e os trabalhadores,
desempenham um papel determinante na configuração das características sociais
e econômicas de cada tipo de complexo de produção e de suas potencialidades”.
Esta homogeneização do espaço, levada à escala planetária por Scott et al.(1999),
desloca os níveis de definição de políticas, de um lado, para um nível supranacional
e, de outro, para níveis de operação locais, o que pressupõe a ausência de Estados
nacionais na estruturação do espaço. Não por acaso é dada enorme importância
às relações de governança, para que sejam superadas as desigualdades trazidas pelo
processo de globalização.

Essa governança deve dar as condições necessárias para assegurar as vantagens
competitivas das city regions, para quebrar as desigualdades sociais, mas sobretudo
para manter as necessidades da ordem econômica. As vantagens competitivas se
prendem, principalmente, à mitigação dos custos de transação (em especial dos
derivados do aprendizado e da inovação tecnológica e da qualificação da força de
trabalho), mas as desigualdades sociais que ocorrem de uma extrema polarização
entre as – poucas – ocupações de alto nível e as de baixa qualificação podem intro-
duzir distúrbios na ordem econômica, como crescente marginalidade e violência.

Assim, nos quatro desafios propostos pelos autores (vistos anteriormente)
para uma governança eficiente, só no último se coloca uma gestão eficiente para
fazer frente aos conflitos sociais (inevitáveis, segundo eles, dado o processo de
concentração econômica) e às instabilidades decorrentes das iniquidades sociais.
E isto porque estes problemas afetam os principais desafios propostos às insti-
tuições de governança: equilibrar a concorrência no curto prazo e coordenar as
interações das city regions.

Ainda que separando as visões de governança em neoliberal e institucionalista
(adotada pelos autores), não há, em nenhuma das duas, papel para a ação do Esta-
do, senão como um óbice à “coordenação global contemporânea”, já que a tarefa
crítica da governança é a coordenação por meio de escalas geográficas, de políticas
propostas por vários níveis.

Uma análise sob a ótica regulacionista, embora não desconsidere a relevância
das grandes metrópoles e de seus vínculos como importante locus da economia
globalizada, confere, ao contrário, um papel importante aos Estados nacionais nos
processos de reestruturação produtiva e espaciais que ocorrem nessas regiões.

Para Dunford e Kafkalas (1992), o papel das grandes aglomerações, assim como
para Scott et al.(1999), também tem importância fundamental na economia globa-
lizada: em face da incerteza associada à crise industrial, grandes grupos econômicos
desenvolveram novas estratégias produtivas, cujas metas principais eram reduzir seus
custos de produção e aumentar sua flexibilidade em relação ao seu ambiente econô-

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mico e que estas estratégias envolvessem uma lógica de desintegração produtiva e uma
cooperação interfirmas. Novas formas multidivisionais foram desenvolvidas em lugar
de formas hierárquicas, mas estas combinam certa descentralização de atividades ope-
racionais com acentuada centralização de poder econômico.

A reestruturação produtiva implica, assim, o renascimento de economias
regionais, redes locais e processos de desenvolvimento endógenos, o que leva a
uma interpretação de perspectivas locais no contexto da geografia das grandes
corporações transnacionais, estabelecendo uma contradição entre a globalização e
a localização de atividades econômicas.

Se as forças de mercado prevalecem, novos investimentos tenderão a ser
direcionados para as regiões mais avançadas, porque estas oferecem maiores van-
tagens técnicas, sociais e institucionais, infraestrutura básica para uma produção
sofisticada e intensiva em conhecimento. As metrópoles possuem uma melhor
qualificação da força de trabalho, estratégias de integração econômica e o desen-
volvimento de redes de informação.

São desenvolvidas, nessas regiões, novas formas de governança, estabelecendo
políticas urbanas empresariais, em que o welfare state se confunde com o sucesso
econômico e o tradicional welfare keynesiano desaparece com a emergência do esta-
do neoliberal minimalista.

A realocação das atividades de gerenciamento do território e a desregulação
múltipla são apropriadas para a mobilização das potencialidades locais e a repro-
dução estável sob condições de integração local e fragmentação local e regional;
ao mesmo tempo, objetivos sociais e ambientais não são mais uma necessidade
(no nível nacional) de uma distribuição igualitária.

A conclusão dos autores é que, sem regulação suprarregional e descentralização
organizacional, não há perspectiva real de estabilidade macroeconômica ou plena
realização do potencial produtivo das novas tecnologias; ao contrário, o novo mode-
lo de crescimento provoca uma divisão mais profunda na sociedade, gerando uma
sociedade dual.

Essa dualidade é mais facilmente encontrada nos países subdesenvolvidos,
cujas city regions, segundo Scott et al. (1999), além de serem altamente segmentadas
em termos de classes sociais, renda e raça (produzidas por uma rápida industrializa-
ção, desacompanhada de infraestrutura social equivalente), ainda sofrem com um
certo movimento de atividades econômicas para fora do “core” metropolitano.

Os autores, no entanto, parecem não levar em conta o caráter macroeconômico
ressaltado por Dunford e Kafkalas (1992), fazendo parecer que essas regiões, por se-
rem nós de uma economia global, se interconectem sem a interferência dos Estados

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a que pertencem. No entanto, deve-se lembrar que o fato de serem grandes centros
metropolitanos não decorre de sua posição “global”, mas sim de um processo histórico
(frequentemente dirigido por um Estado nacional), que já havia produzido a concen-
tração muito antes de sua inserção na economia global.

O papel do Estado também é reconhecido por Veltz (1996), que, embora
considere que a mundialização do capital provoca efeitos na estruturação do ter-
ritório, transformando a estrutura hierárquica característica do fordismo em uma
“economia de arquipélago”, na qual inúmeras regiões interagem, ressalva que as vá-
rias formas que os Estados nacionais possuem para intervir nos processos territoriais
fazem com que “a questão dos ligames espaciais entre fatores, recursos e operações
produtivas não foi eliminada, mas se subordina à questão mais ampla das relações
sociais que permitem a cooperação e as formas espaciais” (VELTZ, 1996, p. 79).

c) À globalização

É com esse autor que se inicia a crítica à globalização, já pela utilização do termo,
que Veltz substitui, assim como Chesnais, por “mundialização”. Segundo Veltz
(2002), há três equívocos básicos quando se fala de mundialização:

• a mundialização aboliu as fronteiras e as distâncias – a análise estatística
dos fluxos comerciais em relação à geografia mostra que as fronteiras,
mesmo em regiões fortemente integradas como a Europa Ocidental e o
Nafta, constituem barreiras muito importantes, ainda que a circulação
de mercadorias seja totalmente livre. Ao analisar os fluxos de transporte
entre a França e a Espanha e entre a França e a Alemanha, Veltz mostra
que a relação entre o externo e o interno é de 1/10. Entre o Canadá e
os Estados Unidos, cujos mercados