Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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the world in the
late twentieth century. Oxford-UK: Blackwell Publishers, 1995.

TINOCO, A. São Paulo: espaço de fluxos ou uma metrópole inundada? In: Pro-
grama de Formação de Quadros Profissionais do CEBRAP. São Paulo, 1999.

VELTZ, P. Des Lieux & Des Liens: politiques du territoire a l’heure de la mon-
dialisation. Paris: Éditions de l’Aube, 2002.

______. Mondialisation, villes et territoires: l’économie d’archipel. Paris:
Presses Universitaires de France, 1996.

CAPíTULO 4

A CoNTribuiÇÃo NEoSChumPETEriANA E o
dESENvolvimENTo rEgioNAl

Liana Carleial*

1 iNTroduÇÃo**

A teoria econômica tem um rico percurso de contribuições as quais apontam
caminhos e definem sugestões para a ação da política pública no campo do
desenvolvimento regional. No caso deste capítulo, objetiva-se responder qual a
contribuição do pensamento neoschumpeteriano para a análise regional.

A inclusão desse aporte teórico neste livro prende-se, não só a sua relevância
e respeitabilidade no conjunto da produção acadêmica em economia, mas,
especialmente, em razão de sua capacidade de iluminar o atual momento da
economia brasileira, no que concerne aos desafios e às possibilidades disponíveis
para um melhor equacionamento das históricas desigualdades regionais brasileiras.

O desenvolvimento econômico e social brasileiro durante o século XX
pautou-se por uma rápida industrialização e intensa urbanização, desarticulando
o modelo de desenvolvimento anterior e centralizando grande parte da estrutura
produtiva no eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Em 2007, 45% do PIB brasileiro foi
gerado nesse eixo.1

Certamente, a tendência primordial do capitalismo é a concentração
econômica e, do ponto de vista regional, ocorre fato semelhante, configurando
as aglomerações econômicas que aproveitam as externalidades positivas de
localização e os ganhos de escala da produção.

* Economista, professora titular do departamento de economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), professora
convidada do programa de pós-gradação da Faculdade de Direito da UFPR e professora do mestrado em desenvolvimento
e organizações do PMOD/FAE. É também pesquisadora do CNPq. <liana.carleial@terra.com.br>.
** A autora agradece os comentários do dr. Bruno Cruz, técnico de planejamento e pesquisa da Dirur/Ipea. Os erros
remanescentes são, entretanto, de sua responsabilidade.
1. Ipea (2010).

Economia regional e urbana114

Assim, o modelo de desenvolvimento brasileiro engendrou uma profunda
desigualdade de rendimentos e de acesso à terra, à escola, ao trabalho e até mesmo de
acesso às políticas públicas. Não é ocioso afirmar que essas desigualdades somaram-se
às decorrentes do modelo de economia primário-exportadora, baseada no trabalho
escravo, que até agora não foram completamente superadas.

Diante da tendência de concentração produtiva e econômica, o papel da
política pública é decisivo para reverter tendências, aproveitar “brechas” que o
próprio modelo de crescimento tenha criado e avançar no sentido de disseminar
de forma mais equânime o desenvolvimento nacional.

O desenvolvimento regional brasileiro é alvo de alguns artigos neste livro,
o que nos desobriga de repetir suas características centrais. Aqui nos cabe apenas
ressaltar que, em 2007, a participação da região Nordeste no PIB brasileiro foi a
mesma que a região tinha por ocasião da movimentação política que engendrou
a proposta técnica de criação da Sudene, nos anos 1960. A criação da Sudene
inaugurou a época de uma política de desenvolvimento regional coordenada
nacionalmente, uma vez que Celso Furtado, primeiro superintendente da
Sudene, coordenava um Conselho de Governadores, dando vida e força política
às demandas regionais, sendo atendido diretamente pelo presidente da República,
pois tinha estatuto de ministro e participava das decisões que conduziam também
a macroeconomia no país.

Cabe ressaltar que o Brasil, hoje, vive um momento especialíssimo no cenário
mundial. É um país integrado ao movimento mundial de bens e serviços, compõe
o pequeno grupo de países que cresce a um ritmo significativo (especialmente, após
crise internacional deflagrada em setembro de 2008), diversificou o destino de suas
exportações (reduzindo a dependência do destino em relação aos EUA), e constrói
uma estratégia de aproximação mais efetiva com a América do Sul e com a África.

Do ponto de vista das tendências futuras, o país surpreende por seu
desempenho. Em meio à disseminação da economia do conhecimento em caráter
mundial, da consolidação do paradigma tecnoeconômico que aproxima cada vez
mais informação e comunicação, o Brasil também é aquinhoado com a descoberta
de riquezas naturais importantes, como o pré-sal, transformando essa riqueza
numa vantagem comparativa para o país: a energia. Ademais, o país já tem uma
matriz energética limpa, projetando para o futuro uma posição internacional
muito vantajosa; recomeça também um processo de identificação de riquezas
minerais, reforça os estudos para o conhecimento e exploração da biodiversidade
amazônica, bem como de sua disponibilidade de águas.

Grande parte dessas tendências projetam um país com oportunidades
econômicas também fora do eixo Rio-São Paulo. Os investimentos em curso nas
áreas de petróleo e gás, indústria naval, siderurgia, papel e celulose, soja acontecem,

A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 115

num percentual relevante na região Nordeste e Centro-Oeste; a construção das
hidroelétricas acontece no Norte do país, e as explorações do pré-sal atingem uma
parte importante do território nacional. Além disso, o país ampliou o número de
universidades federais públicas e instituiu um grande número de institutos federais
tecnológicos, tendo ampliado também o incentivo para cursos profissionalizantes
de nível médio, numa parceria entre União, estados e municípios. A ocupação
territorial da expansão das universidades federais e dos institutos federais
constrói um mapa que evidencia uma relativa descentralização das possibilidades
produtivas do país. A exemplo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa), responsável, em grande parte, pelo avanço tecnológico da agricultura
brasileira, foi criado, em 2007, o Sistema Brasileiro de Tecnologia (SIBRATEC),
que é operado pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). O SIBRATEC
deverá promover uma aproximação entre a comunidade científica/tecnológica e
as empresas e, então, deverá atuar em três níveis: promoção da inovação, extensão
tecnológica e serviços tecnológicos. É um sistema novo, mas sinaliza na direção
do avanço de práticas inovativas.

Nosso país detém uma estrutura de bancos públicos capaz de financiar a
produção no longo prazo, capitaneada pelo BNDES e composta por Banco do
Brasil, Caixa Econômica, Basa, BNB e BRDE.

Diante desse quadro, quais são as possibilidades concretas de o país lançar
mão dessas condições para o estabelecimento de um plano de longo prazo que
leve à redução das desigualdades regionais brasileiras?

Para contribuir com a resposta a essa questão, o Ipea, no âmbito da Diretoria de
Estudos e Políticas Regionais, Urbanos e Ambientais (Dirur), desenvolve um projeto
intitulado “Estratégias de desenvolvimento regional, políticas públicas negociadas
e novas institucionalidades”.2 Neste projeto, parte-se do suposto que o momento é
único para a reversão das desigualdades regionais por meio de um conjunto de ações
cujo eixo central é o adensamento das estruturas produtivas regionais.

A base desse argumento é oriunda do pensamento de Celso Furtado, para
quem o subdesenvolvimento é uma produção do próprio desenvolvimento
do capital, em certas circunstâncias, e apresenta como características centrais
a heterogeneidade estrutural; a ausência de um núcleo inovador, como os
desenvolvidos tiveram; e uma incapacidade de diversificação