Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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produtiva, cuja
razão maior é a histórica vulnerabilidade externa. Esta foi a marca do processo
de substituição de importações brasileiro, no qual cada etapa de crescimento
era sustada pela incapacidade de financiar uma nova etapa. Essas características

2. Este projeto envolve um grupo de pesquisadores que procuram identificar, a partir de projetos de investimentos em
curso no país, as possibilidades de adensamento das estruturas produtivas localizadas em regiões mais empobrecidas
como as regiões Norte e Nordeste. Para um maior detalhamento, ver Carleial e Cruz (2009).

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possuem implicações significativas para a constituição dos mercados de trabalho
e, ainda, condiciona um padrão desigual de distribuição de renda.

As “boas novas” do cenário brasileiro podem vir a ser a reversão desse quadro.

O segundo fundamento dessa interpretação assenta-se na necessária aproximação
entre Estado, firmas e sociedade civil na construção de políticas negociadas, garantidas
por novas institucionalidades que suportem, por exemplo, um novo acordo para o
financiamento da produção, envolvendo contrapartidas das empresas beneficiadas
pelos financiamentos públicos. Não menos importante é o acompanhamento do
atingimento das metas mediante um monitoramento que persiga o cumprimento
dos objetivos previamente definidos por uma estratégia pactuada e que não dependa
apenas de isenções fiscais e subsídios.3

Neste artigo, vamos lançar mão da análise Neoschumpeteriana para
compreender em que medida a proposta do Sistema Regionais de Inovação
(SRI) ajuda a implementar essa atuação de mais longo prazo sobre as estruturas
produtivas regionais.

Além desta introdução, o artigo contém quatro seções e as considerações
finais. Na primeira seção, abordaremos os fundamentos do pensamento
neoschumpeteriano. Na segunda seção, apresentamos o conceito de Sistema
Nacional de Inovações. Na seção seguinte, discutimos as pistas fornecidas pela
proposta de sistemas regionais de inovação; na quarta seção faremos uma reflexão
sobre a “tropicalização” que se abateu sobre esse conceito no Brasil e as implicações
disto para a política pública. Finalmente, tecemos nossas considerações finais.

2 ASPECToS FuNdAmENTAiS do PENSAmENTo NEoSChumPETEriANo

A fonte principal que alimenta o pensamento desse grupo de pesquisadores é
certamente a construção de Schumpeter.4 Para ele, a análise do desenvolvimento e
da dinâmica de longo prazo nas economias capitalistas pressupunha a centralidade da
tecnologia e dos procedimentos inovativos.

É inquestionável a contribuição de Schumpeter para o pensamento
econômico, não só no âmbito da teoria econômica stricto sensu, mas também na
construção da análise da história econômica, da metodologia de análise econômica
e, ainda, na discussão da natureza do desenvolvimento econômico.

O seu entendimento da dinâmica capitalista de longo prazo, comandada por
inovações tecnológicas, faz o sistema endogenamente instável e sujeito a crises. Daí a
necessidade de se identificarem regularidades e especificidades de cada fase.

3. Maior detalhamento da proposta poder ser encontrado em Carleial e Cruz (2009).
4. Schumpeter (1911 e 1942).

A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 117

Há certamente um consenso entre os pesquisadores da grande área do
desenvolvimento e da mudança técnica de que Marx e Schumpeter constituem
a base desse campo de análise. Sem entrar em análises comparativas, há grande
proximidade entre essas duas interpretações. Ambos os autores consideram o
capitalismo como um processo evolutivo sujeito a flutuações em decorrência dos
impactos da mudança tecnológica

Marx e Schumpeter incorporaram a centralidade da inovação e do progresso
técnico como arma da concorrência intercapitalista; porém, Schumpeter consi-
derava que o processo inovativo era protagonizado pelas lideranças empresariais,
enquanto Marx considerava que o motor desse processo era a luta de classes,
associando inovação tecnológica a conflitos e disputas. Essa distinção é relevante,
pois, para Schumpeter, a inovação é um processo primordialmente econômico.5

Entretanto, a matriz teórica dos neoschumpeterianos é compartilhada
com outras abordagens, ou seja, o percurso teórico desenvolvido ensejou uma
aproximação intensa com os institucionalistas (por exemplo, Douglas North) e com
a escola da regulação francesa (Benjamin Coriat, Robert Boyer, Bruno Amable).6
Há também pontos de ligação com a socioeconomia francesa, representada, por
exemplo, por Pierre Veltz e Bernard Pecquer.

A razão de aproximação entre esses grupos teóricos parece ser a relevância
atribuída à história para a compreensão dos processos de desenvolvimento
econômico e de mudanças institucionais.

A análise Neoschumpeteriana tem como pressuposto a existência de um
princípio dinâmico que conduz à evolução do sistema econômico; esse princípio é a
tecnologia, as revoluções que ela promove e os impactos daí decorrentes referentes
a novos padrões produtivos e de consumo, exigindo mudanças institucionais que
possibilitem o efetivo aproveitamento de uma nova fase. Assim, os desequilíbrios
são intrínsecos ao sistema econômico, e as inovações promovem assimetrias entre
firmas de um mesmo setor, bem como entre os setores da atividade econômica.

Schumpeter adota o princípio da racionalidade limitada (SIMON, 1979),
incluindo a ocorrência de informação incompleta num quadro de incerteza, à la
Keynes. A concorrência é entendida como um processo de disputa de capitais
na busca pela valorização, com resultados diferenciados por setor de atividade,
bem como interfirmas. Nega, portanto, dois princípios fundamentais da teoria

5. Na realidade, a construção Neoschumpeteriana dos sistemas nacionais de inovação talvez seja, na atualidade, a
proposição mais próxima da interpretação marxista do indivíduo social desenvolvida nos Grundrisse.
6. O compartilhamento dessa matriz teórica pode ser identificada, em primeiro lugar, pela presença das categorias
analíticas de um dado corpo teórico entre os neoschumpeterianos, como é o caso da presença dos institucionalistas;
em segundo lugar, pode ser medido pela produção conjunta de autores de filiações teóricas distintas. No entanto, só
uma análise metodológica precisa poderia ser mais incisiva para aquilatar a convergência entre os campos teóricos.
Para uma análise da aproximação entre neoschumpeterianos e regulacionistas, ver Veiga (2009).

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econômica ortodoxa, quais sejam: o equilíbrio dos agentes e dos mercados e a
racionalidade maximizadora.

Para os neoschumpeterianos, o conhecimento tecnológico avança de forma
dependente do conhecimento acumulado anteriormente (path-dependence) e é
compatível com rupturas, revoluções e descontinuidades (mudanças de paradigmas).

Nessa construção, as firmas são agentes específicos, são organizações
singulares que usam diferentes insumos para a sua produção, um dos quais é o
conhecimento. O conhecimento desempenha um papel fundamental e pode ser
desenvolvido pelos diferentes processos de aprendizado.

Como afirma Pavitt (1990), firmas são agentes específicos os quais, dada a
complexidade da ambiência e os conflitos de interesse, não são agentes maximi-
zadores. Assim, o pensamento neoschumpetriano concebe de modo particular
a firma, concedendo grande importância à história, às rotinas e influências do
ambiente e de instituições.

Considera-se que o mérito maior da contribuição neoschumpeteriana tem
sido trazer à tona elementos não apenas de mercado para a compreensão dos
processos inovativos, tomando como relevante o ambiente de inserção da firma,
bem como os elementos institucionais. Dosi (1988) e Freeman (1995) discordam
de que os sinais fornecidos pelo comportamento dos preços sejam suficientes para
explicar o comportamento