Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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em Schumpeter é, de modo simplificado,
reintroduzida pelos neoschumpeterianos. Alguns autores já fizeram essa observação (CARLEIAL, 2001; KLEINKNECHT,
1998). Pierre Dockès e Bernard Rosier (2002), mais recentemente, indagaram se é possível inovar desconhecendo os
conflitos sociais que este fato impõe.

A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 121

Para esses autores, o sistema de produção condiciona o sistema de inovação.
Nelson (1993) avaliou 15 países e argumentou que há importantes diferenças
entre eles. Há países que possuem uma estrutura produtiva sólida, mas não con-
seguem construir um sistema de inovação.

Segundo Freeman (1993), esse é o caso da América Latina. As razões pelas quais
a América Latina se diferencia da Ásia, por exemplo, nesse aspecto, decorre da ausên-
cia da reforma agrária e das restrições educacionais que ainda atingem o continente.

O sistema nacional de inovação deve resultar de práticas concretas no nível
da firma, bem como de redes de firmas, agências governamentais, universidades,
laboratórios de pesquisa, sistema de financiamento (bancos), sindicatos, centros de
treinamento, os quais devem associar-se, interagir a partir de objetivos delineados
para agilizar o fluxo de informações necessário para promover os avanços
tecnológicos e inovativos.

Sem exagero, podemos interpretar essa proposta como o reconhecimento de
que, nas sociedades democráticas, a concepção e implementação da política pú-
blica precisa ser mais compartilhada. Certamente, essa interpretação não decorre
diretamente do pensamento neoschumpeteriano, porém lhe é inteiramente com-
patível: isso impõe uma maior democratização das políticas, o que significa que
sem o engajamento de diferentes setores da sociedade, não se conseguem avanços
na concepção e implementação da política pública.

Fica assim configurada a inovação como decorrente de sinergias e interações
empreendidas no âmbito de cada sociedade.

Cooke (1997) considera que, para analisarmos a existência e eficácia de um
sistema nacional de inovação, é necessário avaliar os seguintes itens:11

• a organização das firmas e de seus sistemas de P&D;

• os diferentes formatos de aquisição/desenvolvimento de tecnologias;

• a natureza da relação interfirmas;

• o sistema educacional e de treinamento;

• a existência ou não de políticas setoriais;

• a qualidade da relação universidade/sistemas produtivos;

• a atuação dos governos nacional e regional;

• a disponibilidade de infraestrutura;

11. Em Carleial (2001), após um processo de pesquisa empírica nos setores da metal-mecânica, eletroeletrônica e
confecções, consideramos que a natureza da rede de firmas subcontratadas pela empresa-mãe ou empresa-âncora
é relevante para entender a formatação e o desenvolvimento de um sistema nacional/regional de inovação.

Economia regional e urbana122

• o sistema de financiamento;

• a cultura produtiva;

• a natureza do aprendizado.

Há trabalhos, como, por exemplo, o de Carleial (2001) e Albuquerque
(1999), os quais avaliam a natureza do sistema nacional de inovação no nosso
país e convergem para apontar seu caráter ainda inconcluso. Mais recentemente,
podemos ainda afirmar que os principais gargalos são:

1) a dificuldade de ampliar os recursos para P&D no Brasil (em 2010, esse
percentual ainda não atingiu 1,5% do PIB, percentual baixo em relação
aos países desenvolvidos);

2) a reduzida participação de recursos privados no esforço inovativo;12

3) a desarticulação entre o sistema de ensino e o sistema produtivo, estando
cada grupo “entrincheirado” em suas esferas, alimentando desconfianças
entre si. É comum ouvir-se de empresários que a universidade é muito
“abstrata” e não está interessada na realidade do mundo dos negócios; e
na universidade, comenta-se que os interesses das empresas restringem-
se à ampliação dos lucros e não há compromisso com o progresso do
conhecimento, portanto, não há razão para essa aproximação;

4) a estrutura produtiva industrial dominada por firmas-redes mundiais,
que realizam em seus países de origem as atividades de concepção e
design, deixando para as empresas localizadas em países subdesenvolvi-
dos apenas laboratórios para testes de matérias-primas ou para algumas
“tropicalizações” dos modelos;

5) a concepção de política industrial que tem sido incapaz de ter êxito em
alavancar a inovação no país;13

6) a visão de que o processo inovativo depende apenas da firma e do Esta-
do sem reconhecer que tais processos precisam da sociedade em geral,
pois grande parte das inovações é sugerida por clientes, fornecedores,
pelos trabalhadores que prestam serviços após a venda e até mesmo por
aqueles que comercializam os produtos. Logo, são também relevantes os

12. A divulgação da PINTEC/2008 pelo IBGE é bem ilustrativa. A taxa de inovação passa de 33,6%, no período 2003-
2005, para 38,4%, no período, 2006-2008. Entretanto, em 2008, apenas 4,2% das empresas realizaram atividades
internas de pesquisa e desenvolvimento, enquanto, em 2003-2005, essa participação foi de 5,6%. Entre as indústrias
de transformação, os gastos totais com atividades inovativas passaram de 2,8% do faturamento em 2003-2005 para
2,6% em 2006-2008. Adicionalmente, ainda na indústria de transformação, o número de pessoas ligadas à P&D em
2006-2008 representa apenas 0,69%, mas havia sido de 0,8% em 2003-2005. O mais importante registrar é que a
indústria brasileira cresceu em taxas relevantes nesse período de 2006-2008.
13. No Brasil, durante o período 1994/2002, dizia-se que a melhor política industrial era não ter política industrial; já
a partir de 2003, o governo Lula lança a PICTE e, posteriormente, a PDP.

A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 123

conhecimentos tácitos não codificados, mas implícitos e incorporados
na sociedade, nas organizações e nos indivíduos. Tais conhecimentos
dependem de identidades culturais e sociais, conferindo singularidades
às distintas regiões e permitindo distintos processos de aprendizagem na
sociedade envolvida.

De todas essas ponderações feitas, certamente, a mais relevante é a natureza
da nossa estrutura produtiva industrial, dominada por empresas estrangeiras
nos setores mais propensos à inovação tecnológica, que acaba por contaminar
as possibilidades até mesmo de maior aproximação entre as universidades e
as empresas. Na realidade, essas empresas precisam pouco das universidades e
laboratórios locais, uma vez que aqui só fazem adaptação de processos e produtos
e acabam tendo baixa capacidade de absorção de pessoal qualificado, como a
última PINTEC acabou de evidenciar (ver nota 13). Esse é um gargalo que
precisa ser solucionado e, a nosso ver, só o será com mudanças institucionais que
associem à concessão de financiamento da produção (via BNDES, por exemplo) a
prestação de contrapartidas pelas empresas beneficiadas. Esse fato é um indicador
do grau de dificuldades que precisamos enfrentar para a construção de uma
articulação entre empresas e a produção do conhecimento no país.

4 o SiSTEmA rEgioNAl dE iNovAÇÃo (Sri)

O sistema nacional de inovações pode ser visto pelo ângulo regional e, nesse
sentido, pode abrigar sistemas regionais de inovação. Certamente, para um país
ainda subdesenvolvido, com forte concentração territorial das atividades produtivas,
sobretudo as industriais, e com profundas desigualdades sociais, a chance da ocorrência
de sistemas regionais de inovação está atrelada às regiões e aos territórios nos quais a
base produtiva é mais forte.

Teoricamente, Lundvall (1992) defende que a construção do conceito de
sistemas regionais de inovação se origina na ciência regional, que tem interesse
em explicar a distribuição localizacional e os impactos regionais das políticas
de indústrias de alta tecnologia, parques tecnológicos,14 redes