Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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exemplo, o caso
das confecções, que está presente praticamente em todos os estados brasileiros:
o adequado, neste caso, é tratar a confecção por meio de uma política setorial

A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 129

ou da política de APL? Não seria prudente um acompanhamento dos mercados
mundiais ligados a esse setor? A quem caberia o acompanhamento de novos
materiais e novas práticas que surjam? Não seria adequado também uma certa
divisão inter-regional do trabalho, no sentido de que uma dada região poderia
especializar-se em determinado produto, e outra região num outro produto,
estabelecendo assim uma política de diferenciação de produtos entre os APLs?
Isto já não acontece, por exemplo, no setor calçadista brasileiro?

O terceiro ponto negativo visível na política pública voltada para os APLs
é a ausência de mecanismos de monitoramento e aferição dos resultados; enfim,
como saber que um APL progrediu? Com aferir se a política implementada
surtiu os efeitos esperados? Afinal, o que é mesmo o esperado de um APL?
A ausência desse monitoramento nos leva a intuir que acabam sendo exitosos os
clusters e(ou) aglomerações produtivas mais antigas –, como o de Santa Rita do
Sapucaí e Nova Serrana –, que assim o são por sua história e singularidade e não
pela eficácia dessa política pública.21

Os nossos argumentos podem ser ilustrados com dois exemplos concretos
referentes aos estados do Paraná e de Minas Gerais. Tome-se, primeiramente, uma
recente pesquisa direta realizada pelo Ipardes,22 em 22 APLs existentes no estado, cujo
objetivo era identificar os problemas enfrentados pelos gestores dessas aglomerações.

O maior problema apontado pelos APLs, em 19 dos 22, foi a capacitação da
mão de obra nos níveis técnico, operacional e tecnológico. Este certamente é um
ponto central para compreendermos que a necessidade de um APL é um proble-
ma de natureza nacional e(ou) regional, mas não local. A qualificação da força de
trabalho, entendendo que há uma questão federativa aqui envolvida, não poderá
ser resolvida apenas no âmbito do próprio município onde se localiza o APL.

A segunda questão apontada pela pesquisa, por ordem de incidência, foi o
mercado; aqui cabe um questionamento: é possível ampliar os mercados de um
dado APL no nível municipal e com políticas voltadas para os APLs? Certamente,
não. A busca por novos mercados ou até por autonomia de venda, supondo o caso
de uma pequena empresa subordinada a uma grande empresa, exige uma ação que
transcende à questão própria dos APLs e remete às políticas nacionais e regionais
de desenvolvimento e inserção internacional. Os respondentes indicaram também
a necessidade de estudos e prospecção de mercados – nacionais e internacionais e
a criação de canais próprios de comercialização, ressaltando ainda a necessidade
de conhecimento das tendências de mercado.

21. Esses aspectos críticos não escapam também aos avaliadores estrangeiros da política para APLs no Brasil. Em recente
seminário, em Santiago do Chile, na Cepal, o técnico responsável pela Division de Desarrollo Productivo y Empresarial,
Carlo Ferraro, apresentou três estudos de caso em países da América Latina. No caso brasileiro, considerou a política
de APLs como confusa e sem qualquer compromisso com monitoramento e avaliação dos resultados. A apresentação
referida pode ser encontrada em: HTTP://media.eclac.cl/presentaciones/conferencias 2010/ilpes/index.htm
22. Ipardes (2006).

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Em terceiro lugar, foi apontada a necessidade de financiamento e de acesso
a serviços tecnológicos e a laboratórios específicos; aqui foram solicitados progra-
mas de capacitação em planejamento do processo produtivo, gestão administra-
tiva, controle da qualidade e gestão da inovação, os quais poderiam trazer ganhos
para as aglomerações produtivas; adicionalmente precisam de uma maior aproxi-
mação com centros de pesquisa ou empresas especializadas em P&D&I, serviços
tecnológicos, design, além de profissionais qualificados nessas atividades. Esta au-
sência impede/limita a capacidade de promover a diferenciação de produtos e a
criação de novos produtos. Esse é um problema naturalmente regional, uma vez
que seria praticamente impossível atender a tais demandas em cada município.
Daí a relevância das universidades e dos seus campi regionais.

Em quarto lugar, aparece a questão da infraestrutura, entendida como
transportes, estrutura viária, saneamento, logística e planejamento do uso do
solo urbano; no mesmo patamar de citação, está a dificuldade de acesso a ativos
tecnológicos, tais como informação sobre novos produtos e materiais, registros de
patentes etc. Apenas após todos estes itens que transcendem claramente às questões
locais e remetem às demais dimensões da política pública em caráter nacional e(ou)
regional, é que é citada por 9 APLs, a tão decantada governança local.

Segunda ilustração vem do estado de Minas Gerais.23 Em entrevista na
Secretaria de Desenvolvimento Econômico daquele estado, fomos informados
de que havia uma “corrida” para a criação de APLs advindas de prefeitos, o que
exigiu uma postura muito rigorosa para tratar APLs. Assim, em Minas Gerais, de
forma muito acertada a nosso ver, a política dos APLs faz parte de uma política
ampla de fortalecimento da estrutura produtiva mineira, associada também a
políticas setoriais que auxiliem os elos mineiros das cadeias produtivas nacionais
tais como: metal-mecânica, agroindústria, construção civil, química e têxtil,
sendo a química e a agroindustrial as mais relevantes. Logo, a política de APL
ocupa um determinado espaço no conjunto da política de desenvolvimento do
estado associada à matriz produtiva nacional.

Além disso, de um mapeamento inicial que apontava mais de cem APLs no
estado de Minas Gerais, esse número foi sendo redimensionado. A evidência mais
definitiva desse processo é que, no programa apoiado pelo BID, foram definidos

23. Minas Gerais, em 2006, aprovou a Lei no 16.296, que institucionalizou o apoio aos APLs. Em seu Artigo primeiro,
tal lei afirma: “fica instituída a política estadual de apoio aos arranjos produtivos locais, visando ao fortalecimento das
economias regionais por meio da integração e da complementaridade das cadeias produtivas locais e da geração de
processos permanentes de cooperação, difusão e inovação”. A mesma lei, em seu parágrafo único, define também o
que deve ser entendido como APL:“considera-se arranjo produtivo local a aglomeração produtiva horizontal de uma
cadeia de produção de determinada região do Estado que tenha como característica principal o vínculo entre empre-
sas e instituições públicas ou privadas, entre as quais se estabeleçam sinergias e relações de cooperação”. Todas as
informações referentes ao programa de APLs em Minas Gerais e presentes nesta seção do artigo foram obtidas em
entrevista com a Marilena Chaves, secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de Minas Gerais, em janeiro
de 2010, em Belo Horizonte.

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apenas 7 APLs: o de eletroeletrônica, em Santa Rita de Sapucaí; calçados, de
Nova Serrana; móveis, em Ubá; fruticultura, em Jaíba; fundição, em Claúdio,
Divinópolis e Itaúna; biotecnologia, calçados, bolsas e acessórios, na região
metropolitana de Belo Horizonte. Entretanto, apenas os dois primeiros estão já
sendo apoiados, pois só esses APLs conseguiram elaborar o plano de melhoria de
competitividade, o que é uma exigência do BID.

Nesse quadro, já tão complexo, chamou a nossa atenção o anúncio feito
pelo presidente do BNDES, professor Luciano Coutinho, de um programa do
BNDES para atender os “APLs de baixa renda”.24 Esse programa, cujos objetivos
e pressupostos ainda não foram divulgados, poderá ocasionar uma corrida ainda
maior dos prefeitos a constituírem