Economia Regional e Urbana
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26. Ver Monitor Mercantil Digital, <www.monitormercantil.com.br>, dia 13.09.2010.

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poder de estimular uma longa cadeia de fornecedores de bens e serviços. Ou seja,
só atender a demanda desse setor permitiria estruturar a cadeia produtiva, mas
não só; esses investimentos permitem a complementação produtiva a partir da
refinaria, com a produção de fertilizantes, pois o NE detém os insumos básicos
necessários, e, ainda, estimular a metal-mecânica e a agricultura na região. Isto
permitiria a constituição de um SRI do petróleo e gás na região Nordeste.

Levando-se em conta a ampliação das universidades federais, a criação
dos institutos federais tecnológicos e do Sibratec, estão instituídas as esferas de
pesquisa, preparação técnica e prestação de serviços tecnológicos que poderão
alavancar esse SRI.

Um desafio para o bom andamento de um SRI é, sem dúvida, a questão
institucional. O Brasil é uma federação e, portanto, o poder já é descentralizado e
compartilhado entre a União, os estados e os municípios. Na realidade, convivemos
com diferentes pactos federativos, dependendo da política específica, ou seja,
a relação entre União, estados e municípios é definida no âmbito de cada
política e das responsabilidades atribuídas a cada ente pela Constituição Federal
de 1988. Qual seria o pacto federativo adequado para a construção dos sistemas
regionais de inovação? A nosso ver, as grandes macrorregiões brasileiras (Nordeste,
Norte, Sul, Sudeste e Centro-Oeste) podem desempenhar ainda um papel relevante
nesta construção. Mas, as regiões não são entes federados; logo, quais instituições
poderiam comandar esses processos?

Não é objetivo deste artigo detalhar a estrutura e a governança de um SRI.
No entanto, algumas considerações podem ser feitas. Em primeiro lugar, a coor-
denação da política deve estar situada na presidência da República; esta
coordenação precisaria ser regulamentada e poderia ser composta por: um
representante por ministério envolvido; representações do CNPq, da FINEP,
do BNDES, das universidades federais, dos institutos tecnológicos federais e da
sociedade civil. Entre esses componentes, o presidente da República escolheria
um coordenador geral. A atribuição dessa coordenação deve ser trabalhada
articuladamente com as agências e superintendências regionais para definir as
estratégias e os instrumentos necessários para a promoção do desenvolvimento
regional e para a constituição dos sistemas regionais de inovação. No nível regional,
as superintendências (antigas agências) poderiam articular as representações
regionais, junto aos governos estaduais, municipais e representações da sociedade
civil. Aqui cabe ainda uma problematização: como despertar esse interesse e
compromisso se as superintendências regionais estão esvaziadas até o momento
atual, mesmo tendo sido recriadas neste governo, ou seja, no governo Lula?
Um caminho possível dependeria das alterações nas condições de financiamento
do desenvolvimento regional, não só pela constituição de um fundo para o

A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 135

desenvolvimento regional e de uma reforma tributária, mas especialmente pela
exigência de contrapartidas no financiamento da produção de longo prazo (via
BNDES), estabelecendo compromissos casados. Explicando melhor: se o BNDES
financia a Petrobras e seus fornecedores, ele poderia exigir dessas empresas que
um determinado percentual desses recursos fosse aplicado na complementação da
cadeia produtiva (de petróleo e gás, por exemplo) no Norte e Nordeste brasileiros.
Esse fato ampliaria obrigatoriamente o volume de recursos do BNDES para
essas regiões de forma estrutural e definitiva e não apenas episodicamente, como
aconteceu em 2009.

FIGURA 1
modelo sugerido de coordenação de um Sri

Fonte: adaptado de Cooke et al. (1998).

O mesmo procedimento pode ser empregado para outros setores produtivos
cujos investimentos são importantes e que permitam também complementações
produtivas, especialmente aqueles em regiões mais empobrecidas. O resultado
final esperado é uma mudança nas estruturas produtivas regionais, uma maior
diversificação produtiva e, portanto, uma melhora na distribuição de renda
mediante a geração de postos de trabalho de maior qualidade e de remuneração
mais alta. Enfim, trata-se também de um programa de reindustrialização do país.

Contudo, não só a coordenação de um sistema regional de inovação
constitui um gargalo institucional relevante. Como vimos na seção três deste

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artigo, há poucos sistemas regionais de inovação efetivos no mundo. Este fato
implica reconhecer que esse é um processo longo, que exige políticas públicas
adequadas. O Brasil tem implementado políticas de incentivo à inovação com
resultados muito modestos. Utilizando o Enfoque de Análise de Políticas (EAn)
Silva e Dagnino (2009) desenvolveram uma avaliação da política de polos e
parques de alta tecnologia implementada no país (tomando como exemplo o
caso de Campinas) desde os anos 1970, e chegaram a conclusões importantes.
Os autores argumentam que os limitados resultados obtidos por essa política,
mesmo em Campinas (centro produtivo e universitário dos mais importantes
do país), devem-se à impossibilidade de adoção, em países subdesenvolvidos, de
políticas implementadas em países desenvolvidos, supondo-se que as condições
existentes lá estariam também presentes aqui. Ou seja, denunciam o transplante
acrítico de políticas entre países em posições distintas quanto ao desenvolvimento
histórico e socioeconômico e, ainda, a suposição de que as condições existentes lá
e que garantiram algum sucesso também estariam presentes aqui.

A repetição desse erro invalidaria também a implementação dos sistemas
regionais de inovação entre nós. Entretanto, as pistas (aproximação firma-estado-
sociedade, sinergia, interação entre os agentes, disponibilidade de financiamento,
atuação sobre o tecido produtivo, englobando firmas de diferentes portes,
assertividade da política pública), se associadas às nossas especificidades histórico-
estruturais, certamente poderão promover a superação do nosso atraso e a redução
das desigualdades regionais.

O desafio é grande, pois a aproximação entre o setor produtivo e os
produtores do conhecimento exigirá que o sistema de financiamento da produção
institua um modelo de cobrança de contrapartidas que force as grandes empresas
multinacionais aqui sediadas a abrirem espaço para o desenvolvimento local de
produtos e processos; do mesmo modo, exigirá que o sistema de avaliação das
universidades brasileiras, especialmente o da pós-graduação, reconheça como
relevante a atuação de seus professores também nos processos produtivos.

O que nos anima é que o momento é oportuno para o traçado de uma
política de desenvolvimento de longo prazo compromissada com os interesses do
nosso país. Como certamente diria Celso Furtado: é necessário juntar história e
teoria para a formulação da política pública.

rEFErêNCiAS

ALBUQUERQUE, E. National systems of innovation and Non-OECD coun-
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A contribuição Neosschumpeteriana e o desenvolvimento regional 137

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