Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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econômica
na geografia, mas, sobretudo mais geografia na economia. (p. 37, tradução nossa)

Nesse extrato do livro de Brakman, Garretsen e Marrewijk (2003), é dada
ênfase ao fato que a Nova Geografia Econômica herda os conceitos da teoria
de localização,3 incorporando-os numa estrutura de equilíbrio geral. Outro
ponto importante colocado pelos autores seria o objetivo explícito de reinserir
na corrente principal da economia a dimensão espacial.4 Numa revisão bastante
completa da literatura, Ottaviano e Thisse (2004, p. 2565) destacam que, entre
os objetivos da NGE, estão:

O objetivo da geografia econômica é precisamente o de entender quais são as forças
econômicas, depois de controlados para as características de primeira natureza, (...)
que explicam a distribuição no espaço da atividade humana. (p. 2565, tradução nossa)

Ottaviano e Thisse (2004) incluem outra característica importante desta
“nova geografia econômica”, a de buscar entender as forças que moldam as
atividades no território a partir de fenômenos estritamente econômicos. Parte-
se de um espaço homogêneo para compreender se a dinâmica econômica seria
suficiente para explicar a concentração ou dispersão de atividades no espaço.

2. O texto de Ottaviano e Thisse (2004) é uma excelente apresentação desta literatura, algumas boas revisões são
Krugman (1998; 1996), Fujita e Thisse (1996); para discussões recentes e uma avaliação da situação atual da NGE:
Thisse (2010), Krugman (2010), Behrens e Robert-Nicoud (2009), Fujita e Thisse (2009); Behrens e Thisse (2007).
Para uma visão crítica, Neary (2001) e Martin (1999). Algumas revisões críticas da literatura em português estão dispo-
níveis em Ruiz (2003) e Vieira (2008). Veja também a seção deste capítulo com um apanhado de tais críticas. Existem
ainda bons livros didáticos como Brakman, Garretsen e Marrewijk (2003; 2009) e Combes, Mayer e Thisse (2008).
Indica-se também Journal of Regional Science, v. 50, n.1, em comemoração aos 50 anos da revista e da associação.
3. Para maiores detalhes sobre as teorias de localização, ver o capítulo 2 deste livro.
4. Para alguns autores, como Krugman (1996), a ausência da análise espacial no mainstream da teoria econômica
deve-se à dificuldade de se modelar retornos crescentes à escala e concorrência imperfeita em um contexto de
equilíbrio geral. Krugman (1996) chega a fazer uma analogia entre o conhecimento sobre a economia regional e a
cartografia na África no início das navegações naquele continente. Num primeiro momento, uma série de desbravadores
fizeram diversas descrições, ainda que imprecisas sobre o interior do continente. Durante anos, contudo, a cartografia
concentrou-se no litoral da África, e o conhecimento sobre o interior do continente continuou praticamente estagnado.
A analogia do autor com a economia regional seria o pequeno avanço no campo da economia regional na corrente
principal da economia.

uma breve incursão em Aspectos regionais da nova geografia Econômica 143

Busca-se explicar grandes desigualdades na distribuição espacial e sua persistência
no tempo, a partir de modelos de equilíbrio geral. Deve-se, para os autores da
NGE, ir além de diferenças físicas como fonte de desigualdades, ainda que a
“natureza seja cruel” na distribuição territorial de vantagens comparativas como
clima, acessibilidade, recursos naturais, entre outros. O principal para esta
corrente seria entender a persistência das desigualdades como um resultado de
forças de mercado.

O caso brasileiro ilustra de maneira clara tais desigualdades e sua persistência
no tempo. Os mapas de 1 a 5 mostram o indicador denominado “mercado
potencial” no Brasil para os anos 1939 a 2006.5 O mercado potencial é soma do
Produto Interno Bruto (PIB) da região descontado pela distância entre as regiões.
Este indicador apontaria o potencial de acesso a mercados de uma dada região, uma
vez que considera o PIB da própria região e do entorno. Os mapas mostram
uma forte concentração para o Brasil em torno da microrregião de São Paulo,
a grande estabilidade do indicador ao longo do tempo.6 Essa desigualdade ou
concentração espacial de produção, ainda que de forma marcante no Brasil,
também pode ser observada em várias outras regiões do globo. A própria União
Europeia, ou mesmo o Japão, apresenta forte concentração das atividades.7
A grande questão para os teóricos da Nova Geografia Econômica seria a de
fornecer argumentos econômicos para esta ocorrência tão frequente.

Um importante resultado, já destacado no primeiro capítulo deste livro,
é o chamado Teorema da Impossibilidade Espacial (STARRETT, 1977). Ele
determina que, a partir de algumas hipóteses bastantes utilizadas em economia
(como espaço homogêneo, concorrência perfeita e custo de transporte não nulo),
não seria possível a existência de comércio entre as regiões. Assim, para evitar este
desconfortável resultado do teorema da impossibilidade espacial, é necessário
relaxar ao menos um dos seus pressupostos. Caso se deseje modelar a existência de
comércio entre regiões com territórios homogêneos, deve-se escolher um caminho
alternativo, abandonando a hipótese de concorrência perfeita ou, pelo menos, supor
a existência de algum tipo de rendimentos crescentes externos às firmas. A escolha
da Nova Geografia Econômica é exatamente a de incluir concorrência imperfeita
num arcabouço de equilíbrio geral, mantendo-se a hipótese de espaço homogêneo.

5. Para maiores detalhes do conceito e aplicação deste indicador de mercado potencial, ver capítulo 10 deste livro.
6. A distribuição das classes foi realizada pelo método de quebras naturais, pelo mecanismo de otimização Jenks, que
assegura grupos homogêneos internamente e heterogêneos entre as classes. Observa-se uma notável estabilidade
deste indicador ao longo tempo, ou seja, em termos relativos, há pouca alteração da distribuição das atividades eco-
nômicas no Brasil. Algumas pequenas alterações são a consolidação de Brasília, a partir de 1975.
7. A esse respeito, veja, por exemplo, Relatório de Desenvolvimento do Banco Mundial (2009).

Economia regional e urbana144

MAPA 1
mercado Potencial Pib 1939

MAPA 2
mercado Potencial Pib 1959

uma breve incursão em Aspectos regionais da nova geografia Econômica 145

MAPA 3
mercado Potencial Pib 1975

MAPA 4
mercado Potencial Pib 1996

Economia regional e urbana146

MAPA 5
mercado Potencial Pib 2006

A literatura da Nova Geografia Econômica é bastante vasta, por isso, este
capítulo se concentra na questão das desigualdades regionais numa escala geográfica
mais ampla, ainda que o arcabouço metodológico tenha sido aplicado até mesmo para
problemas intraurbanos.8 Como forma de classificar a produção na NGE, Ottaviano
e Thisse (2004)9 destacam as três linhas de pesquisas desenvolvidas a partir de três
artigos seminais: Fujita (1988), Krugman (1991a) e Venables (1996), gerando então
três blocos de trabalhos: efeito de mercado interno (Home Market Effect); modelos de
centro-periferia, pela mobilidade de mão de obra e pelas ligações setoriais encadeadas;
e, finalmente, modelos de desigualdade em forma de sino. A figura 1 apresenta de
forma esquemática a divisão proposta por Ottaviano e Thisse (2004).

O primeiro ramo da literatura enfatiza como os efeitos de mercado interno,
ou seja, o tamanho do mercado de uma região, podem levar à concentração das
atividades no espaço. A localização das empresas passa a ser uma decisão explícita
das firmas. Assim, vantagens econômicas, derivadas de um maior mercado
interno, são as forças que explicam a concentração da atividade no espaço.

Os modelos de centro-perifiria herdam da literatura de desenvolvimento
dos anos 1950, à la Hirschman e Myrdal, os chamados processos de concentração

8. No capítulo 7, sobre economia urbana, destacam-se alguns modelos como o de Ogawa e Fujita (1980), que tentam
explicar