Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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como a concorrência imperfeita e retornos crescentes podem afetar a distribuição das atividades em torno do
centro de negócios (CBD)
9. Para maiores detalhes, ver figura 1.

uma breve incursão em Aspectos regionais da nova geografia Econômica 147

cumulativos, muitas vezes comparados a efeitos de bola de neve. Em uma primeira
linha de pesquisa, este efeito concentrador viria da mobilidade da mão de obra
ou de firmas, que acabaria por reforçar o efeito de mercado interno, resultando
numa concentração das atividades no “centro” (que concentraria todas atividades
manufatureiras), e a periferia teria apenas atividades primárias ou de pouco
valor agregado.

Finalmente, os modelos de desigualdade em forma de sino enfatizam que a
concentração das atividades seguiria uma forma de U invertido quando se aumenta a
integração entre as regiões. Haveria um pico da concentração em níveis intermediários
de integração comercial, a partir do qual, os custos de congestionamento ou as
externalidades negativas desta concentração passariam a dominar os eventuais efeitos
positivos do centro, levando a uma desconcentração das atividades.

Este capítulo apresenta de maneira bastante resumida alguns desses resultados
a partir da divisão proposta por Ottaviano e Thisse (2004). Após a descrição
destes modelos e suas principais conclusões, são revisados alguns trabalhos e testes
empíricos dos modelos da NGE, bem como são apresentadas as críticas a esta
abordagem; finalmente, tenta-se destacar alguns estudos que tenham como foco a
economia brasileira e, por último, as implicações de políticas.10

FIGURA 1

divisão esquemática proposta por otaviano e Thisse (2004)

Fonte: Ottaviano e Thisse (2004).

10. Existem modelos da chamada segunda geração que tentam integrar crescimento econômico agregado e distri-
buição das atividades econômicas no espaço. Por uma opção metodológica e por limitação de espaço, estes modelos
serão mencionados ao longo texto, mas o foco será dado aos modelos canônicos da NGE. Para o leitor interessado,
sugere-se a leitura de Baldwin e Martin (2004) e o livro Baldwin et al. (2005). Outro ramo bastante interessante é o
que enfatiza a interação estratégica seguindo a tradição de Hotelling.

Economia regional e urbana148

2 dElimiTAÇÃo do ESCoPo

A produção acadêmica no que se convencionou denominar Nova Geografia
Econômica é bastante diversa e, somente a partir do início dos anos 2000,
iniciou-se um esforço de sistematização, com a publicação de diversos livros
didáticos, que dariam organicidade a esta produção desencadeada pela NGE.
Para delimitar o objeto de estudo desta linha de pesquisa, neste capítulo
seguiremos a apresentação do campo proposta por Combes, Mayer e Thisse
(2008), focando mais detidamente na discussão sobre economia regional.
Esses autores destacam alguns conceitos importantes para se analisar a questão
regional por meio da NGE:11

• escala e unidade de referência;

• mobilidade de fatores e produtos;

• desigualdades de primeira e segunda ordem;

• interação entre forças de aglomeração e dispersão; e

• retornos crescentes e competição imperfeita (spatial folk theorem).

• custo de deslocamento e transporte não nulo

Para se discutir região, deve-se entender qual a escala e qual o conceito
subjacente a esta definição. Ainda que vários modelos de NGE tenham sido
utilizados em múltiplas escalas, CMT consideram a seguinte definição de
região: “um lugar aberto para o comércio, onde os fluxos internos de trocas
sejam o predominante”.Dessa forma, esse conceito de região forneceria uma
visão macroscópica do espaço, com os fluxos internos de comércio sendo os
mais relevantes.12

O segundo conceito destacado por CMT é a mobilidade de fatores e produtos,
em especial a mobilidade dos agentes, tanto firmas como trabalhadores, que passa
a ser uma decisão endógena. Isso diferenciaria a NGE de teorias tradicionais do
comércio internacional e também parece indicar a raiz teórica dos pensadores da
teoria da localização.

Outro ponto, já destacado acima, seria o das desigualdades de primeira ordem
e de segunda ordem, como fontes da explicação para a concentração de atividades
econômicas. As desigualdades de primeira ordem são aquelas predominantes
definidas pelas diferenças físicas no território; por sua vez, as desigualdades de

11. Para maiores detalhes, consultar o livro de Combes, Mayer e Thisse (2008), doravante CMT, extremamente didático
sem perder o rigor de apresentação dos modelos. Recomenda-se fortemente aos leitores interessados em maior apro-
fundamento dos modelos aqui apresentados.
12. As interações não mercado, a transferência de conhecimento tácito, as chamadas externalidades de conhecimento
seriam menos importantes, pois a escala da região seria mais ampla. Optou-se neste capítulo por focar em modelos
que abordem as questões regionais no sentido descrito acima.

uma breve incursão em Aspectos regionais da nova geografia Econômica 149

segunda ordem seriam as desigualdades no espaço resultantes da ação humana.
Claramente, a escolha da NGE é pelas desigualdades de segunda ordem como
fonte de explicação para a iniquidade regional observada em diversos países.

Isso posto, a NGE tenta identificar a dinâmica e a interação de forças,
geradas a partir de mecanismos microeconômicos, que tendam a aglomerar
ou dispersar firmas e trabalhadores. Essas duas forças antagônicas moldariam,
predominantemente, a configuração espacial da economia. Assim, os autores
da NGE resgatam conceitos desenvolvidos a partir dos anos 1950, de “causação
cumulativa”, ou seja, processos de concentração podem se reforçar a partir de
movimentos de forças centrípetas.

Conforme destacado, devido ao teorema da impossibilidade espacial, é crucial
a introdução de retornos crescentes e concorrência imperfeita,13 uma vez que se
deseje manter a noção de espaço homogêneo. A NGE reconhece que a produção
envolve alguma forma de retornos crescentes, mesmo que em nível agregado.14

A introdução do espaço na análise econômica levanta ainda outra questão
relevante: o transporte tem um custo não nulo. Ainda que a queda nos custos dos
transportes nos últimos séculos tenha sido avassaladora, estes ainda representam
um custo não nulo. Alguns autores chegam a denominar o custo positivo no
transporte de bens e mercadorias como a “tirania do espaço”. A geografia e a
distância, mesmo neste mundo extremamente integrado, ainda importam.

Em conclusão, com uma definição clara do conceito de região, busca-se,
dentro de um espaço homogêneo, explicar a distribuição de firmas e trabalhadores
nas regiões, num modelo de equilíbrio geral, com retornos crescentes, competição
imperfeita e custos de transportes não nulos.

3 APrESENTAÇÃo dE modEloS TEóriCoS SElECioNAdoS dA NgE

A partir da representação esquemática proposta por Ottaviano e Thisse (2004),
serão descritos alguns dos modelos principais que compõem a Nova Geografia
Econômica. O primeiro é o chamado efeito do mercado interno ou mercado local.15
Do ponto de vista metodológico, introduz-se uma estrutura de mercado de
concorrência imperfeita e um modelo equilíbrio geral dentro de uma abordagem
de localização de firmas. Parte-se de um modelo bastante simplificado para exemplificar
este efeito; supõe-se a existência de duas regiões, com dois tipos de trabalhadores,

13. Scotchmer e Thisse (1992) denominam a estas duas características “spatial folk theorem”, ou o “teorema espacial popular”.
14. Scitovsky (1954) cita dois tipos de economias de escala, internas e externas. Na definição de economias de escala
internas à firma, o custo médio seria decrescente com a produção no nível da firma. Por outro lado, na presença de
economias de escala externas à firma, a redução de custos estaria no nível da indústria. Haveria ainda duas divisões
nas economias de escalas, a