Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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tecnológica e as chamadas pecuniárias. A primeira seria reflexo das condições tecnoló-
gicas de produção, na melhoria da combinação entre insumos para a produção de bens finais. As externalidades pe-
cuniárias seriam aquelas provenientes de ações concretas de mercado. Veja também Brakman, Garretsen e Marrewijk
(2003) e Combes, Mayer e Thisse (2008).
15. As principais referências são os artigos de Krugman (1979; 1980).

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qualificados e não qualificados, e dois setores, de forma geral, denominados
agricultura e manufatura. Na agricultura ou o setor tradicional, a estrutura de mercado
predominante é a concorrência perfeita, com retornos constantes à escala. Por outro
lado, o setor manufatureiro é modelado com uma estrutura de mercado de competição
imperfeita, concorrência monopolística, à la Dixit-Stiglitz. Há uma variedade de bens
diferenciados, parcialmente substitutos, e existe um grau de diferenciação entre os
bens do setor manufatureiro, que confere um poder de mercado para os setores.16

Os consumidores possuem também a chamada “preferência pela
variedade”, ou seja, cada agente irá consumir uma quantidade positiva de
todas as variedades. Formalmente, a função utilidade proposta é uma função
de elasticidade de substituição constante (CES),17 e o grau de diferenciação ou
grau de substituição entre as variedades é dado pela elasticidade da função de
utilidade. Este valor irá determinar também o poder de mercado18 de cada uma
das firmas produtoras dos bens diferenciados.19 De maneira intuitiva, quanto
menor o grau de substituição entre os bens, maior o poder de mercado das
firmas, refletindo numa maior distância do preço de concorrência perfeita.
Outra hipótese bastante utilizada pelos modelos de NGE são os chamados
“custos de transporte do tipo iceberg”. A hipótese simplificadora é a de que
os bens manufaturados para serem transportados de uma região para outra
têm um custo não nulo, representado por uma fração do total transportado. A
analogia com os “icebergs” vem do fato de que haveria uma perda na quantidade
do bem ao ser transportado de uma região a outra. Outra analogia utilizada
para justificar a existência dos custos de transporte do tipo iceberg remonta
aos pensadores da teoria da localização; para esses autores, haveria um custo
no transporte das mercadorias definido pela necessidade de se utilizar parte
do bem transportado para alimentar o animal de carga no transporte (ver, por
exemplo, o capítulo 2 deste livro). Esses modelos enfatizam a interação entre
forças de atração e dispersão. As forças de atração seriam dadas pelo maior acesso
a mercado, a dispersão viria da maior competição das firmas. O efeito de mercado
interno (“home market effect”) é obtido porque regiões mais populosas ou com
maior parcela da população terão uma fração ainda maior do setor moderno.
O objetivo do modelo seria apenas o de estudar qual a distribuição das firmas

16. A hipótese de que as empresas vendem bens diferenciados seria justificada pelo “Princípio de Diferenciação”,
quer dizer que as firmas afrouxaram a competição via preços em favor da diferenciação dos produtos (TIROLE, 1988;
COMBES, MAYER e THISSE, 2008).
17. Combes, Mayer e Thisse (2008) mostram que a função utilidade do tipo CES pode ser derivada a partir de
consumidores heterogêneos. Dessa forma, outra crítica comum aos modelos da NGE da necessidade de um agente
representativo com uma função utilidade comum a todos os agentes não é válida, uma vez que pode-se obter
fundamentação microeconômica para a CES a partir de agentes heterogêneos.
18. A elasticidade de substituição da função utilidade irá determinar o mark-up das firmas, contudo tal mark-up será
constante, fato em contradição com evidências empíricas. Contudo, é possível modelar concorrência monopolística de
forma a se obter mark-ups variáveis entre as firmas.
19. Combes, Mayer e Thisse (2008) apresentam de forma didática, por eles denominado DSK, modelo Dixit-Stiglitz-
Krugman. Matusyama (1995) descreve as diversas aplicações da formulação da CES e dos modelos de concorrência
monopolística, desde microfundamentos para o multiplicador Keynesiano a questões de comércio internacional.

uma breve incursão em Aspectos regionais da nova geografia Econômica 151

entre localidades. O modelo supõe a existência de mão de obra homogênea,
e dois setores, um moderno, normalmente denominado manufatura, e um
tradicional, a agricultura. Existem dois fatores de produção, capital e trabalho,
cada trabalhador possui uma unidade de capital. Há livre mobilidade de capital,
mas não há mobilidade de outros fatores como mão de obra. Existe uma
quantidade fixa de capital na economia definida como L. O custo de produção
é definido como uma parcela fixa de capital, f, necessária para o funcionamento
da firma, e um custo marginal, m, e q quantidade produzida do bem. Assim:

C=fr+mq (1)

onde r é o custo de oportunidade do capital. O total de firmas será igual a L
dividido por f, ou seja, o total de capital da economia dividido pela necessidade
de capital para o funcionamento de cada firma. Sem perda de generalidade, pode-
se definir a distribuição de firmas como a participação na região A como N

a
,

analogamente, N
b
 como a participação do número de firmas em b.

N
a
=λL/f e N

b
=(1-λ)L/f (2)

O parâmetro λ indica a proporção de capital na região A. A parcela da
população na região A é definida como θ, assim se (θ-λ)L<0, a região A é recebedora
líquida de capital, pois a parcela de capital na região é maior que proporção da
população neste mesmo território. A partir das condições de primeira ordem
de maximização de lucro, pode-se obter implicitamente o retorno do capital na
região A em função da distribuição da população e do capital, e dos custos de
transporte e do retorno na outra região:

(3)

onde µ é a parcela da renda gasta em bens manufaturados, σ é elasticidade de
substituição entre uma variedade ou um bem diferenciado. O parâmetro define
também o poder de mercado de cada uma das firmas. O grau de liberdade do
comércio ou grau de integração entre as regiões é definido como φ.20 A equação (3)
determina, portanto, o retorno do capital na região A em função da parcela gasta com
manufaturas, da elasticidade de substituição entre variedades (que também determina
o mark-up e o poder de mercado das firmas) e da distribuição geográfica das firmas
e dos trabalhadores, além do retorno na região B. Por analogia, é possível derivar a
mesma equação para o retorno do capital na região B. Como há livre mobilidade
de capitais, o retorno do capital nas duas regiões deve se igualar, de forma que seja
possível obter a seguinte equação para a distribuição do capital entre as regiões:

20. Formalmente, o parâmetro , onde o valor representa o custos de transportes do tipo iceberg. Se uma
firma deseja entregar uma quantidade, q, na região A, ela deve transportar q unidades. Assim, como >1, está entre
0 e 1. Quanto mais próximo da unidade, maior a integração entre as regiões.

Economia regional e urbana152

Sem perda de generalidade e supondo que a região A seja aquela mais
populosa, ou seja, >1/2, é possível visualizar o chamado efeito de mercado
interno. Como o coeficiente (1+φ)/(1−φ) é positivo e maior que 1, isto implica
que λ > >1/2, ou seja, a participação da região mais populosa, A, na produção
será maior que a parcela da população em A. Este seria então um exemplo do
efeito do mercado interno, o tamanho do mercado interno induz a participação
ainda maior que a populacional no total economia do país. Em outras palavras, a
região “rica” irá receber mais capital que a região pobre. A força de aglomeração,
ou seja, a vantagem de estar mais próximo a um mercado consumidor mais
amplo atrai mais empresas para o “centro”, e este domina o efeito de dispersão