Economia Regional e Urbana
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Economia Regional e Urbana

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a
se deslocarem para a região com maior salário real. No eixo das coordenadas, está
representado o salário relativo (salário na região 1/salário na região 2), enquanto,
no eixo abscissas, apresenta-se o percentual de trabalhadores qualificados na
região 1. Quando o salário relativo se iguala a 1, não há incentivo para migrar;
para valores acima de 1 haveria incentivo para trabalhadores migrarem da região
2 para a região 1, e o inverso para quando o diferencial estiver abaixo de 1.
Assim, no gráfico, podemos observar o impacto da redução dos custos de
transporte sobre a distribuição das atividades econômicas entre as regiões.
As simulações dos modelos permitem aos pesquisadores analisar qualitativamente
os tipos de equilíbrio. As simulações estão apresentadas no gráfico 2, todos os
parâmetros foram mantidos constantes, variando-se apenas o custo de transporte.
Note-se que, quando os custos de transporte são elevados, T=1,9 e T=2,1, há
apenas um equilíbrio, simétrico e estável. Ou seja, os custos de transporte são tão
elevados que não há apenas um equilíbrio, simétrico e estável. Observe-se que, se,
inicialmente, por exemplo, a participação de trabalhadores, λ, for igual a 0,3, o
diferencial de salários estaria acima de 1, incentivando a migração de trabalhadores
qualificados da região 2 para a região 1. Por outro lado, se a região 1 possuir mais
que a metade dos trabalhadores qualificados, os salários na região 2 estariam mais
altos que na região 1, o que estimularia a migração de trabalhadores em direção
à região 2, levando novamente a economia para o equilíbrio estável. Quando os
custos de transporte são relativamente baixos, somente dois equilíbrios estáveis
são possíveis, a aglomeração total em uma das regiões. O equilíbrio simétrico
se torna instável, ou seja, qualquer pequeno desvio levaria a uma aglomeração
total em uma das regiões. O equilíbrio se torna instável, ou seja, no gráfico 3, tal
efeito pode ser observado quando os custos de transporte são iguais a T=1,5 ou
T=1,3; o diferencial de salários tem inclinação positiva, ou seja, qualquer desvio
do equilíbrio simétrico incentivará a migração e o diferencial de salário; no lugar
de se reduzir, será ampliado.

Um resultado ainda mais rico em termos de multiplicidade de equilíbrios
é o caso dos custos de transporte intermediários, como é o valor de T=1,7.
Neste caso, note que a curva de diferencial de salários se iguala a 1, em valores
de λ, diferentes de 1 (concentração total) ou 0,5 (distribuição simétrica).
Ou seja, no caso de custos de transporte intermediários, existem cinco equilíbrios
possíveis, três localmente estáveis: o equilíbrio simétrico, o equilíbrio aglomerado
em uma das regiões e dois equilíbrios instáveis, exatamente nos pontos em que a
curva de diferencial de salários cruza o valor de equilíbrio em valores menores e
maiores que 0,5. Suponha, por exemplo, que a economia esteja num equilíbrio

Economia regional e urbana156

em que a região 1 tem menor participação na manufatura, mas não há diferencial
de salários e, portanto, não há migração. Se houver um desvio, uma elevação da
migração para a região 1, fazendo com λ cresça, o diferencial de salários estará
acima de 1, estimulando uma migração ainda maior da região 2 para a região
1, que somente irá cessar quando o diferencial de salários novamente for igual
a 1, ou seja, exatamente no equilíbrio simétrico, com λ=0,5. Se o desvio fosse
no sentido inverso, com a economia nesse mesmo equilíbrio instável, com λ
em torno de 0,2, o pequeno deslocamento de trabalhadores da região 1 para a
região 2 concentrará toda a indústria, e a região 1 será apenas uma região agrícola.
O interessante desta ilustração é mostrar a possibilidade de múltiplos equilíbrios,
e observar o mecanismo de estímulo à concentração via diferencial de salários.
Outras simulações podem ser realizadas, o leitor interessado pode variar outros
parâmetros e verificar os impactos sobre a distribuição das atividades.

GRÁFICO 2
distribuição das atividades e salário relativo entre regiões para diferentes
valores de custo de transporte no modelo centro-periferia

Fonte: Groot (2007).

O processo migratório desse modelo de Krugman seria definido por um
ajuste gradual dos salários reais entre as regiões, ainda que Brakman, Garretsen e
Marrewijk (2003) argumentem que esse processo pode ser obtido por meio de um
processo evolucionário, há fortes críticas sobre a motivação unicamente econômica
(e defasada) de migração no modelo original. Certamente, existem outros fatores
além do econômico para que os trabalhadores decidam migrar para outra região.

uma breve incursão em Aspectos regionais da nova geografia Econômica 157

É discutível a racionalidade econômica por trás do mecanismo de ajuste, uma vez que
o diferencial de bem-estar entre as regiões seria gradual. Destaque-se que a migração
neste modelo pode ter um efeito desestabilizador, diferentemente de um modelo do
tipo Solow, uma vez que a migração de mão de obra qualificada acaba reforçando a
maior concentração na região central. Há uma externalidade pecuniária na migração
dos trabalhadores que é exatamente o de ampliar o mercado na região receptora.
Esse processo gradual de migração implicaria, contudo, uma miopia dos trabalhadores
qualificados (os únicos migrantes), que não antecipariam os rendimentos futuros no
deslocamento para uma nova região nem as externalidades pecuniárias geradas.

Num segundo artigo, Krugman (1991b) enriquece a análise e a forma como
se daria a migração, sendo que os trabalhadores fundamentariam suas decisões de
migração tendo como base os retornos futuros (e uma expectativa em torno da
migração dos demais trabalhadores qualificados) e não apenas a remuneração atual.
Dessa forma, as expectativas dos agentes passam a ser importantes na determinação de
um tipo de equilíbrio aglomerado ou não. Coloca-se, assim, uma questão interessante
sobre a história determinando o resultado da aglomeração ou se a aglomeração seria
motivada por expectativas ou profecias autorrealizadas dos trabalhadores migrantes.22

Vários autores exaltam a riqueza dos modelos centro-periferia com a existência
de equilíbrios múltiplos, em que a trajetória e os parâmetros fundamentais da
economia determinariam a distribuição das atividades no espaço. Esta riqueza de
resultados permite aos pesquisadores avaliações de intervenções de política a partir
de variações nas condições iniciais da economia ou parâmetros de política. Nas
palavras de Venables (1996), o importante para os formuladores de política seria:
como a integração (via redução dos “custos de comércio”) afeta a aglomeração ou
dispersão das atividades econômicas? Outro ponto é se existem argumentos possíveis
para sustentar a teoria da base industrial. Em regiões como a União Europeia, onde a
mobilidade de trabalhadores qualificados é muito mais baixa do que a observada nos
Estados Unidos, a hipótese de migração de trabalhadores qualificados como fonte de
aglomeração econômica seria menos relevante. Venables (1996) elabora um modelo
com trabalho homogêneo; com duas regiões idênticas, com a mesma população; dois
setores – agricultura e manufatura (duas indústrias bens finais e intermediários) –; e
com mobilidade setorial de mão de obra, mas não espacial.

Venables (1996) monta então um sistema de duas equações para modelar o
setor industrial; a primeira equação modelo descreve o setor de bens intermediários,
onde va é a participação relativa do setor de bens intermediários nas regiões (emprego
no setor de bens intermediários na região 1/empregos no setor de bens intermediários
na região 2). Essa produção dependeria dos custos com mão de obra, w, da demanda
do setor de bens finais, vb , e do custo de transporte do bem intermediário, ta.

22. Fukao e Benabou (1993) questionam alguns resultados obtidos