Manual de procedimentos de água em vigilância em saúde ambiental.
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Manual de procedimentos de água em vigilância em saúde ambiental.

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Os dispositivos encontrados no mercado variam desde filtros de vela de porce-
lana a equipamentos que procuram associar mecanismos de filtração (recorrendo
a diversos meios granulares), desinfecção (ozônio, ultravioleta, prata) e remoção de
gosto e odor (carvão ativado).

No entanto, a necessidade desses dispositivos é controversa, bem como a efi-
ciência de muitos deles. Se bem concebidos e conservados, pode-se argumentar
que seu emprego constitui uma barreira sanitária adicional contra eventuais
recontaminações nas instalações prediais, sobretudo nos reservatórios, ou mes-
mo única, no caso de fontes individuais comprometidas.

Entretanto, os princípios gerais dos processos de filtração e desinfecção
aplicam-se também no caso das unidades domiciliares, mas nem sempre são
observados:

• influência da qualidade da água afluente, particularmente a turbidez e a qua-
lidade microbiológica;

• porosidade do meio filtrante;
• pressão de serviço e a velocidade de filtração;

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• observação das carreiras de filtração máximas e a necessidade de limpeza ou
reposição dos dispositivos filtrantes;

• poder desinfetante do agente empregado e a observação de tempos de con-
tato adequados.

Em locais onde ocorre o consumo de água de qualidade físico-química e mi-
crobiológica comprometida, destinar exclusivamente às unidades domiciliares a
função de potabilizar a água é incorreto. Um exemplo seria o caso de poços rasos
comprometidos, quando a opção mais indicada seria o tratamento na fonte, por
exemplo, com o emprego de cloradores por difusão. Porém, quando a turbidez não
é elevada a ponto de entupir o filtro com muita freqüência, a combinação filtro–de-
sinfecção domiciliar pode ser adequada e suficiente. Particularmente, a associação
de talhas com filtros de vela cerâmica e a correta aplicação de hipoclorito tem-se
revelado eficiente. Por mais contraditório que pareça, quanto maior a “sofisticação”
dos equipamentos, mais incertezas envolverão seu emprego no que diz respeito à
observação dos requisitos para a filtração e a desinfecção.

Por fim, cabe observar que não dispomos ainda de legislação específica de con-
trole de qualidade na fabricação e no emprego desses equipamentos.

QUALIDADE DA ÁGUA
PARA CONSUMO HUMANO 4

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4 QUALIDADE DA ÁGUA PARA CONSUMO HUMANO

O conceito de qualidade da água encontra-se relacionado às características apresenta-
das pela água, por sua vez determinadas pelas substâncias (parâmetros) nela presentes.

Água “pura” é um conceito hipotético, uma vez que a água apresenta elevada
capacidade de dissolução e transporte e, em seu percurso, superficial ou subterrâ-
neo, pode incorporar um grande número de substâncias. Entretanto, por processos
naturais ou decorrentes das atividades antrópicas, podem ser incorporadas à água
substâncias em “excesso” ou indesejáveis, o que pode vir a comprometer determi-
nados usos. Portanto, qualidade da água é um atributo dinâmico no tempo e no
espaço e encontra-se, acima de tudo, relacionado com os usos de uma determinada
fonte. De forma análoga, o conceito de poluição deve ser entendido como perda de
qualidade da água, ou seja, alterações em suas características que comprometam
um ou mais usos do manancial. Por sua vez, contaminação é em geral entendida
como um fenômeno de poluição que apresente risco à saúde.

Em linhas gerais, água potável é aquela que pode ser consumida sem riscos à
saúde e sem causar rejeição ao consumo. O padrão de potabilidade da água é com-
posto por um conjunto de características (parâmetros) que lhe confira qualidade
própria para o consumo humano.

Em tese, do ponto de vista tecnológico, qualquer água pode ser tratada, porém
nem sempre a custos acessíveis. Decorre daí o conceito de tratabilidade da água, re-
lacionado à viabilidade técnico-econômica do tratamento, ou seja, de dotar a água
de determinadas características que permitam ou potencializem um determinado
uso. Portanto, água potabilizável é aquela que em função de suas características in
natura pode ser dotada de condições de potabilidade, por meio de processos de
tratamento viáveis do ponto de vista técnico-econômico.

Torna-se assim nítida a interdependência entre qualidade da água bruta, tratamento
da água e qualidade da água tratada. Porém, o tratamento da água, em si, não garante
a manutenção da condição de potabilidade, uma vez que a qualidade da água pode
deteriorar-se entre o tratamento, a reservação, a distribuição e o consumo. Cabe tam-
bém destacar que várias substâncias, como metais pesados e agrotóxicos, não são efeti-
vamente removidas em processos convencionais de tratamento. Daí a importância de
um enfoque sistêmico no controle e na vigilância da qualidade da água para consumo
humano, visualizando a dinâmica da água desde o manancial até o consumo.

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O padrão de potabilidade brasileiro é composto por:

• padrão microbiológico;
• padrão de turbidez para a água pós-filtração ou pré-desinfecção;
• padrão para substâncias químicas que representam riscos à saúde (inor-

gânicas, orgânicas, agrotóxicos, desinfetantes e produtos secundários
da desinfecção);

• padrão de radioatividade;
• padrão de aceitação para consumo humano.

A potabilidade da água é aferida pelo atendimento, simultaneamente, dos valores
máximos permitidos (VMP – concentrações limite) estabelecidos para cada parâmetro.

Na visão da OMS, incorporada no conteúdo da Portaria MS no 518/2004, os
riscos à saúde impostos pelas substâncias químicas (de longo prazo, por vezes não
muito bem fundamentados do ponto de vista toxicológico e epidemiológico) não
devem ser comparados aos riscos microbiológicos de transmissão de doenças (de
curto prazo, inquestionáveis e de grande impacto). Guardada a importância relati-
va e específica de cada um, em termos gerais, a garantia da qualidade microbioló-
gica da água deve receber prioridade absoluta.

O padrão de aceitação para consumo humano inclui VMP para diversas subs-
tâncias que podem provocar rejeição ao consumo em decorrência do aspecto esté-
tico da água, do gosto ou do odor.

Por fim, cabe registrar que o padrão de potabilidade estabelecido na Portaria
MS no 518/2004 não se aplica às águas envasadas ou destinadas a outros usos espe-
cíficos (ex.: água para hemodiálise), para as quais existe legislação específica.

Em torno da classificação do padrão de potabilidade da Portaria em questão,
apresentam-se neste capítulo alguns dos parâmetros de maior relevância para a
vigilância e o controle da qualidade da água para consumo humano, incluindo no-
tas sobre as respectivas fontes de ocorrência na água para consumo humano e seu
significado para a saúde humana.

4.1 QUALIDADE MICROBIOLóGICA DA ÁGUA

ORGANISMOS PATOGêNICOS E INDICADORES DE CONTAMINAÇÃO

Organismos patogênicos

Na Tabela 4.1, apresenta-se uma relação de organismos patogênicos e respecti-
vas características, organizada para facilitar a visualização e a importância relativa

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de cada um na transmissão de doenças via abastecimento de água. Em linhas gerais,
pode-se dizer que os seguintes fatores facilitam a transmissão:

• sobrevivência prolongada na água;
• possibilidade de reprodução na água, particularmente em sistemas de

distribuição;
• resistência elevada à desinfecção;
• baixa dose infectante;
• existência de múltiplos focos de contaminação, por exemplo, reserva-

tórios animais.

Alguns organismos causam sérios agravos de saúde, por vezes letais,