Manual de procedimentos de água em vigilância em saúde ambiental.
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Manual de procedimentos de água em vigilância em saúde ambiental.

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como, por
exemplo, a febre tifóide, o cólera, a hepatite; outros trazem conseqüências mais
amenas, como diarréias provocadas por rotavírus e Cryptosporidium, mas que po-
dem agravar-se quando são acometidos grupos vulneráveis, como idosos, crianças
subnutridas ou indivíduos imunocomprometidos.

Em resumo, os organismos apresentam-se na seguinte ordem crescente de re-
sistência à desinfecção: bactérias, vírus, protozoários, helmintos. Em geral, pode-se
dizer que no tratamento da água, bactérias e vírus são inativados no processo de
desinfecção, enquanto protozoários e helmintos são, preponderantemente, remo-
vidos por meio da filtração. Embora possível, a associação de doenças causadas por
helmintos com o consumo de água é menos nítida, sendo o consumo de alimentos
e o contato com solos contaminados os modos de transmissão mais freqüentes.

Atenção crescente tem sido dada ao problema da transmissão de protozoá-
rios, nomeadamente Giardia e Cryptosporidium. Giardíase e criptosporidiose são
zoonoses e têm como principais fontes de contaminação os esgotos sanitários e
as atividades agropecuárias. Sua remoção por meio do processo de tratamento
de água é mais difícil que a dos demais organismos patogênicos, e as técnicas de
pesquisa em amostras de água ainda se encontram em fase de consolidação.
A elevada contaminação de mananciais é, portanto, em si, um fator de risco
potencial da presença de protozoários em efluentes de estações de tratamento
de água sem o devido rigor de controle operacional. Assim sendo, do ponto
de vista do controle e da vigilância da qualidade da água e sob a perspectiva
da avaliação de riscos, a disciplina do uso do solo e a proteção dos mananciais
assumem fundamental importância.

A Tabela 4.1 não é, entretanto, conclusiva na listagem dos patogênicos passíveis
de serem transmitidos via abastecimento de água para consumo humano, sendo
cada vez mais freqüentes as evidências de transmissão de doenças “emergentes”.
A própria tabela revela as muitas incertezas que ainda cercam os riscos associados
aos vírus. Outros protozoários têm sido identificados como agentes de surtos asso-

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ciados com o consumo de água (inclusive no Brasil), incluindo Cyclospora, Isospo-
ra, Microsporidium e Toxoplasma. Além da ingestão de água contaminada, alguns
organismos capazes de colonizar sistemas de distribuição podem ser transmitidos
via inalação de aerosóis, por exemplo bactérias do gênero Legionella e os protozo-
ários Naegleria fowleri e Acanthamoeba spp, agentes, respectivamente, de encefalite
meningocócica amebiana e meningite amebiana. Ao lado disso, várias bactérias,
usualmente de vida livre porém reconhecidamente patogênicas oportunistas,
também apresentam capacidade de colonizar sistemas de distribuição de água,
constituindo riscos à saúde de grupos populacionais vulneráveis (ex.: pacientes
hospitalizados, idosos, recém-nascidos, imunodeprimidos): Pseudomonas aeru-
ginosa, Flavobacterium, Acinetobacter, Klebsiella, Serratia, Aeromonas.

Do exposto, percebe-se o quanto ainda há para ser elucidado em termos da epide-
miologia das doenças transmissíveis via abastecimento e consumo de água. Além disso,
por razões financeiras, limitações técnico-analíticas e necessidade de respostas ágeis, no
controle microbiológico da qualidade da água usualmente recorre-se ao emprego de
organismos indicadores. Entretanto, reconhecidamente não existem organismos que
indiquem a presença/ausência da ampla variedade de patógenos passíveis de serem re-
movidos/inativados ou transpassarem/resistirem aos diversos processos de tratamento
da água. Adicionalmente, a qualidade microbiológica da água bruta, tratada e distribuída
pode sofrer alterações bruscas e não detectadas em tempo real, até porque a amostragem
para o monitoramento da qualidade da água baseia-se em princípio estatístico/probabi-
lístico, incorporando inevitavelmente uma margem de erro/incerteza.

Por tudo isso, merecem destaque as seguintes observações:

O controle da qualidade da água baseado única e exclusivamente em
análises laboratoriais de amostras da água, ainda que freqüente, não cons-
titui garantia absoluta da potabilidade.

Tão importantes quanto o controle laboratorial são:

• A adoção de boas práticas em todas as partes constituintes e etapas
dos processos e dos sistemas de produção e abastecimento de água.

• A vigilância epidemiológica e a associação entre agravos à saúde e situações
de vulnerabilidade dos sistemas e das soluções de abastecimento de água.

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Tabela 4.1 – Organismos patogênicos de veiculação hídrica e transmissão
feco-oral e sua importância para o abastecimento

AGENTE
PATOGêNICO

IMPORTÂNCIA
PARA A SAÚDE

PERSISTêNCIA NA
ÁGUAa

RESISTêNCIA
AO CLOROb

DOSE
INFECCIOSA
RELATIVAc

RESERVATóRIO
ANIMAL

IMPORTANTE
Bactérias:
Campylobacter
jejuni, C. coli Considerável Moderada Baixa Moderada Sim

Escherichia coli
patogênica Considerável Moderada Baixa Alta Sim

Salmonella typhii Considerável Moderada Baixa Altad Não
Outras salmonelas Considerável Prolongada Baixa Alta Sim
Shigella spp. Considerável Breve Baixa Moderada Não
Vibrio cholerae Considerável Breve Baixa Alta Não
Yersinia
enterocolitica Considerável Prolongada Baixa Alta (?) Sim

Pseudomonas
aeruginosae Moderada

Podem
multiplicar-se

Moderada Alta (?) Não

Aeromonas spp. Moderada Podem
multiplicar-se

Baixa Alta (?) Não

Vírus:
Adenovírus Considerável ? Moderada Baixa Não
Enterovírus Considerável Prolongada Moderada Baixa Não
Hepatite A Considerável ? Moderada Baixa Não
Hepatite
transmitida por via
entérica, hepatite E

Considerável ? ? Baixa Não

Vírus de Norwalk Considerável ? ? Baixa Não
Rotavírus Considerável ? ? Moderada Não (?)
Protozoários:
Entamoeba
hystolitica Considerável Moderada Alta Baixa Não

Giardia lamblia Considerável Moderada Alta Baixa Sim
Cryptosporidium
parvum Considerável Prolongada Alta Baixa Sim

Fonte: OMS (1995)
? Não conhecido ou não confirmado.
a Período de detecção da fase infecciosa na água a 20 oC: breve, até uma semana; moderada, de uma

semana a um mês; prolongada, mais de um mês.
b Quando a fase infecciosa se encontra em estado livre na água tratada com doses e tempos de

contato tradicionais. Resistência moderada, o agente pode não acabar completamente destruído;
resistência baixa, o agente acaba completamente destruído.

c A dose necessária para causar infecção em 50% dos voluntários adultos sãos; no caso de alguns
vírus, pode bastar uma unidade infecciosa.

d Segundo os resultados de experimentos com seres humanos voluntários.
e A principal via de infecção é o contato cutâneo, porém doentes de câncer ou com imunodepres-

são podem ser infectados por via oral.

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ORGANISMOS INDICADORES DE CONTAMINAÇÃO

A identificação dos microorganismos patogênicos na água é, normalmente,
morosa, complexa e onerosa. Por essa razão, tradicionalmente, recorre-se à iden-
tificação dos organismos indicadores de contaminação, na interpretação de que sua
presença indicaria a introdução de matéria de origem fecal (humana ou animal) na
água e, portanto, o risco potencial da presença de organismos patogênicos.

Um organismo indicador “ideal” deveria preencher os seguintes requisitos: (i) ser
de origem exclusivamente fecal; (ii) apresentar maior resistência que os patogênicos
aos efeitos adversos do meio ambiente e aos processos de tratamento; (iii) ser remo-
vido e, ou, inativado, por meio do tratamento da água pelos mesmos mecanismos e
na mesma proporção que os patogênicos; (iv) apresentar-se em maior número que os
patogênicos; (v) ser de fácil identificação;