Manual de procedimentos de água em vigilância em saúde ambiental.
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Manual de procedimentos de água em vigilância em saúde ambiental.

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o conceito de
boas práticas no abastecimento de água (para maior detalhamento, consultar Ma-
nual de boas práticas no abastecimento de água: procedimentos para a minimização
de riscos à saúde).

Em qualquer situação considerada anteriormente, conforme sugere Freitas et al.
(2002), a avaliação de risco tem-se apresentado como uma ferramenta importante e
passível de ser utilizada para auxiliar e orientar o processo decisório para o controle
e a prevenção da exposição de populações e indivíduos a diversos agentes perigosos

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à saúde presentes no ambiente. Nesse sentido, é utilizada essa terminologia no texto
da Portaria MS no 518/2004.

Essa metodologia faz parte de uma abordagem maior, denominada Análise de
Risco, a qual compreende três procedimentos desenvolvidos, normalmente, de for-
ma seqüencial e integrada: Avaliação de Risco, Gerenciamento de Risco e Comuni-
cação de Risco.

A Avaliação de Risco (AR) é já, há algum tempo, o paradigma central dos es-
tudos sobre agravos à saúde decorrentes da exposição/intoxicação por produtos
químicos. Sua aplicação em outras áreas da epidemiologia ambiental encontra-se
ainda em fase de construção, inclusive para a água de consumo humano.

Nesse sentido, apresenta-se sucintamente a Análise de Risco, com ênfase no pro-
cedimento de Avaliação de Risco.1

A Avaliação de Risco compreende a caracterização e a estimativa, quantitativa ou
qualitativa, de potenciais efeitos adversos à saúde decorrentes da exposição de indi-
víduos e populações a perigos (situações, agentes físicos, químicos e microbianos).
Essa abordagem compreende várias etapas, que incluem a identificação do perigo,
a avaliação da relação entre a dose de exposição e a incidência de efeitos, a avaliação
do tipo de exposição existente e a caracterização do risco.

a) Identificação do perigo

Esta etapa compreende uma avaliação do conhecimento disponível e a descri-
ção de efeitos adversos à saúde, crônicos ou agudos, associados a um determinado
agente (situação, físico, químico ou biológico).

Nesta primeira etapa da Avaliação de Risco, procura-se identificar a existência de
perigo, entendido, conforme Freitas (2002), como as propriedades inerentemente
tóxicas do agente em questão, independentemente da situação em que se encontre.
Ampliando este conceito para além da avaliação de risco por exposição a produtos
e resíduos químicos, pode-se considerar também como perigo qualquer condição
ambiental ou relacionada ao abastecimento que possa vir a alterar as características
da água e torná-la imprópria ao consumo humano.

A existência de exploração agrícola na bacia de contribuição do manancial de
captação de água bruta, a descarga de esgoto sanitário ou efluentes agroindustriais
no manancial de água bruta, falhas no tratamento da água e rupturas de rede de
distribuição podem ser consideradas como perigo, pois podem comprometer a
qualidade da água.

O conceito de perigo, então, diferencia-se do de risco, entendido o primeiro
como algo que podendo estar associado a determinado agente com características
tóxicas, infecciosas ou radioativas pode vir a causar efeitos adversos à saúde. Por
exemplo, o lançamento de esgoto sanitário no manancial de água bruta consti-

1 Para maior aprofundamento na metodologia de Análise de Risco, recomendam-se as seguintes
publicações: EPA (1991); HAAS et al. (1999) e OMS (1992).

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tuiu um perigo, pois as águas residuárias podem conter cargas elevadas de agentes
patogênicos, porém considerando que a água receberá tratamento que garanta a
adequada remoção dos microorganismos, não haverá risco de infecção.

Como agentes associados aos perigos, pode-se considerar agentes químicos e
microbiológicos. A exploração agrícola na bacia de contribuição pode implicar a
existência de resíduos de agrotóxicos na água bruta. A descarga de esgoto domésti-
co pode levar à ocorrência de organismos patogênicos na água.

b) Avaliação da dose-reposta

Uma vez caracterizado o perigo e identificado o agente associado, há de se ava-
liar o potencial que tem o agente de causar resposta em diversos níveis de exposi-
ção. Podemos considerar que quanto maior a dose maior a gravidade da resposta,
sendo isso particularmente verdadeiro em se tratando de substâncias químicas.
Entretanto, existem agentes que, aumentada a dose, não necessariamente implica
maior gravidade da resposta, mas pode resultar em um número maior de indivídu-
os acometidos, ou seja, maior incidência do agravo, o que ocorre quando agentes
microbianos estão envolvidos.

Para determinados agentes, a definição da dose que causa algum efeito adverso
é estabelecida com base em estudos experimentais, desenvolvidos principalmente
em animais, em que a partir de uma exposição conhecida se avaliam os efeitos
adversos produzidos. Em outros casos são utilizadas informações de estudos epi-
demiológicos para se estabelecer a dose que está associada com o aparecimento de
efeito(s) adverso(s).

c) Avaliação da exposição

Esta etapa tem como objetivos a caracterização, quantitativa e qualitativa, da
população ou dos indivíduos expostos, bem como a quantidade de agente, a freqü-
ência, a duração e as prováveis vias de exposição.

Em se tratando da vigilância da qualidade da água para consumo humano, a princi-
pal via de exposição a ser considerada é a ingestão. Para os agentes químicos, podem-se
considerar também a inalação e o contato (dérmico e ocular), e para alguns agentes
microbianos o contato dérmico é a via de exposição principal (esquistossomose).

Nesta etapa, é relevante não apenas a identificação, mas a quantificação do
agente presente na água, o que se pode revelar problemático, dadas as limitações
analíticas de várias técnicas de pesquisa de agentes químicos e microbiológicos e
pelo fato de sua ocorrência e distribuição na água poder acontecer em baixa con-
centração ou errática. Portanto, as análises de amostras ambientais podem resultar,
muito freqüentemente, na não-detecção do parâmetro pesquisado ou apresentar
valor nos limites explicitados pela legislação vigente, o que implicaria um nível
seguro de exposição.

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A etapa de avaliação da exposição é uma das mais complexas, pois além de as-
pectos inerentes aos agentes e à população exposta e da inter-relação entre eles, há
de se considerar o contexto histórico-cultural no qual ocorre a exposição.

d) Caracterização do risco

A caracterização do risco integra os resultados obtidos nas etapas de identifi-
cação do perigo, avaliação da dose-resposta e avaliação da exposição, gerando in-
formações tanto de natureza qualitativa quanto quantitativa. Com base no conhe-
cimento da dose do agente (quantidade presente na água) e no consumo de água,
pode-se estimar, por meio de modelos matemáticos, o risco de determinado agravo
resultante da ingestão de determinado volume de líquido contendo uma concen-
tração conhecida do agente por unidade de volume para uma ou mais exposições.
Pretende-se estimar a magnitude do problema de saúde e subsidiar as estratégias
de gerenciamento de risco.2

O gerenciamento de risco corresponde ao processo de controlar os riscos, ponde-
rando alternativas e selecionando as ações apropriadas, levando em consideração
as informações levantadas na avaliação de risco e informações diversas, tais como:
econômicas, legais, políticas e de engenharia

A comunicação de risco refere-se à comunicação do risco às autoridades públicas
e à comunidade em geral; deve considerar a percepção da população e utilizar lin-
guagem adequada para difusão de informação científica.

Em que pesem