Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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no tópico anterior para o caso especial considerado.
O preço médio p

__

 é proporcional ao custo direto unitário médio u
__

 se o
grau de monopólio for constante. Se o grau de monopolização aumentar,
p se eleva com relação a u

__

.
A razão entre preço médio e custo direto unitário é igual à razão

entre o montante dos rendimentos do ramo da indústria e o montante
dos custos diretos do ramo da indústria. Segue-se que a razão entre
rendimentos e custos diretos é estável, aumentando ou diminuindo
somente conforme o que acontecer com o grau de monopolização.

Deve-se lembrar que todos os resultados aqui obtidos estão sujeitos
à suposição de que a oferta seja elástica. Quando as firmas não têm mais
capacidade ociosa, um aumento adicional da demanda irá provocar uma
elevação do preço além do nível indicado pelas considerações acima. Con-
tudo, esse nível poderia ser mantido por algum tempo, enquanto a firma
permitisse que os pedidos se acumulassem em carteira.

Causas de modificação do grau de monopolização

Limitar-nos-emos aqui a discutir os principais fatores subjacentes

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19 m é a média de m ponderada pelos custos diretos totais de cada firma: n é a média de n
ponderada pelas respectivas produções.

às modificações do grau de monopolização nas economias capitalistas
modernas. Em primeiro lugar, há que considerar o processo de con-
centração da indústria, que leva à formação de corporações gigantescas.
A influência do surgimento de firmas que representam uma parcela
substancial da produção de um ramo de indústria pode ser facilmente
entendida à luz das considerações acima. Uma firma desse tipo sabe
que seu preço p influencia de forma apreciável o preço médio p

__

 e que,
ademais, as outras firmas do ramo se verão compelidas na mesma
direção, já que a formação de preços delas depende do preço médio
p
__

. Assim, a firma pode fixar seu preço num nível mais elevado do que
seria o caso se as coisas fossem diferentes. Outras firmas grandes
fazem o mesmo jogo e assim o grau de monopólio se eleva de modo
substancial. Esse estado de coisas pode ser reforçado por um acordo
tácito. (Entre outras coisas, esse acordo pode se dar mediante a fixação
de preços por uma firma grande, a firma “líder”, com as outras firmas
seguindo esses preços.) Um acordo tácito, por outro lado, pode trans-
formar-se num acordo mais ou menos formal, ou seja, num cartel, o
que equivale ao monopólio completo, limitado apenas pelo medo da
entrada de novos membros.

A influência que ocupa o segundo lugar em importância é o de-
senvolvimento da promoção através da publicidade, vendedores etc.
Assim, a concorrência de preços é substituída pela concorrência através
de campanhas de publicidade etc. Obviamente isso também irá provocar
uma elevação do grau de monopolização.

Além dos fatores apontados acima, dois outros têm que ser levados
em consideração: (a) a influência das modificações no nível dos custos
indiretos com relação aos custos diretos sobre o grau de monopolização;
(b) o poderio dos sindicatos.

Se o nível dos custos indiretos se elevar muito com relação aos
custos diretos, haverá necessariamente um “aperto dos lucros”, a menos
que se permita um aumento da razão entre o total dos rendimentos
e os custos diretos. Disso pode resultar um acordo tácito entre as firmas
de um ramo para “proteger” os lucros e conseqüentemente elevar os
preços com relação aos custos diretos unitários. Por exemplo, a elevação
em custos de capital por unidade produzida, resultante da introdução
de técnicas que aumentam a capital-intensidade, pode, dessa maneira,
tender a elevar o grau de monopolização.

O fator representado pela “proteção” dos lucros aparece com fre-
qüência durante períodos de depressão. A situação nessas ocasiões é
a seguinte: o total dos rendimentos decresce na mesma proporção que
os custos diretos se o grau de monopolização permanecer inalterado.
Ao mesmo tempo, o total dos custos indiretos cai, nos períodos de
depressão, menos que os custos diretos. Isso abre o caminho para o
estabelecimento de acordos tácitos no sentido de não se reduzirem os
preços na mesma proporção dos custos diretos. Conseqüentemente, sur-

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ge uma tendência no sentido de o grau de monopolização subir na
depressão, tendência essa que opera em sentido inverso na fase de
prosperidade.20

Apesar de as considerações acima apresentarem um meio pelo
qual os custos indiretos podem afetar a formação dos preços, é claro
que sua influência sobre os preços em nossa teoria é muito menos
nítida do que a que exercem os custos diretos. O grau de monopolização
pode aumentar — mas não se pode afirmar que aumente necessaria-
mente — em conseqüência de um aumento dos custos indiretos com
relação aos custos diretos. Isso e a ênfase dada à influência dos preços
de outras firmas constituem a diferença entre a teoria aqui exposta e
a assim chamada teoria dos custos totais.

Focalizemos agora o problema da influência do poderio dos sin-
dicatos sobre o grau de monopolização. A existência de sindicatos po-
derosos pode criar uma tendência no sentido de se reduzir a margem
de lucro, pelos seguintes motivos. Verificando-se uma razão elevada
entre os lucros e os salários, fortalece-se o poder de barganha dos
sindicatos em suas atividades visando aumentos de salários, uma vez
que os salários mais elevados serão então compatíveis com “lucros ra-
zoáveis” aos níveis de preços existentes. Se após os aumentos serem
concedidos os preços fossem majorados, seriam geradas novas deman-
das de aumento de salários. Daí se conclui que uma razão elevada
entre lucros e salários não pode ser mantida sem criar uma tendência
no sentido da elevação dos custos. Esse efeito adverso sobre a posição
competitiva de uma firma ou de um ramo da indústria estimula a
adoção de uma política de margens de lucro mais baixas. Assim, o
grau de monopolização será em certa medida mantido baixo graças à
ação dos sindicatos e quanto maior for a força dos sindicatos com maior
intensidade isso se fará sentir.

As modificações do grau de monopolização são de importância
decisiva não só para a distribuição de renda entre trabalhadores e
capitalistas como também em alguns casos para a distribuição de renda
da classe capitalista. Assim, o aumento no grau de monopolização mo-
tivado pelo crescimento das grandes corporações resulta em uma trans-
ferência relativa de renda das outras indústrias para as dominadas
por tais corporações. Dessa forma, a renda é redistribuída, passando
das pequenas para as grandes empresas.

As relações custo-preço a longo e a curto prazo

As relações custo-preço descritas acima baseiam-se em um enfo-
que da situação a curto prazo. Contudo, os únicos parâmetros que

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20 Essa é a tendência básica; contudo, em alguns casos o processo oposto de ocorrência de-
senfreada pode manifestar-se numa depressão.

entram nas equações em questão são os coeficientes m e n, que refletem
o grau de monopolização. Esses coeficientes podem — se bem que não
tenham que fazê-lo necessariamente — mudar a longo prazo. Se m e
n permanecem constantes, as alterações a longo prazo nos preços re-
fletirão somente as alterações a longo prazo dos custos diretos unitários.
O progresso tecnológico tenderá a reduzir o custo direto unitário u.
Mas as relações entre os preços e os custos diretos unitários podem
ser afetadas por modificações no campo da técnica e dos equipamentos
somente na medida em que elas influenciarem o grau de monopólio.21
Esta última possibilidade havia sido indicada acima quando se men-
cionou que o grau de monopolização poderia ser influenciado pelo nível
dos custos indiretos com relação aos custos diretos.

Deve-se salientar que toda essa perspectiva contraria pontos de
vista geralmente aceitos. Supõe-se em geral que devido à crescente
intensidade de capital, isto é, crescente dispêndio