Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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de capital fixo por
unidade de produção, há necessariamente um contínuo aumento da
razão entre preço e custo direto unitário. Esse ponto de vista baseia-se,
ao que parece, na suposição de que a soma dos custos indiretos mais
lucros varia a longo prazo mais ou menos em proporção ao valor do
capital. Assim, a elevação em capital com relação à produção é traduzida
em uma razão mais alta entre custos indiretos mais lucros e rendi-
mentos, equivalendo isso a um aumento da razão entre preços e custos
diretos unitários.

Ora, parece que lucros mais custos indiretos podem apresentar
uma queda a longo prazo com relação ao valor do capital e, conse-
qüentemente, a razão entre preço e custo direto unitário pode perma-
necer constante mesmo se o capital aumentar com relação à produção.
Isso se acha demonstrado pelo que aconteceu no ramo manufatureiro
da economia norte-americana no período compreendido entre 1899 e
1914. (Ver tabela 1.)

Como se poderá ver pela tabela, o capital fixo subiu continua-
mente com relação à produção durante o período focalizado, enquanto
a razão entre rendimentos e custos diretos permaneceu mais ou menos
estável. Isso é explicado por uma queda nos lucros mais custos indiretos
com relação ao valor do capital fixo (tanto com relação a seu valor
nominal como com relação a seu valor aos preços correntes).

Sempre existe, é claro, a possibilidade, indicada acima, de que
o aumento dos custos indiretos com relação aos custos diretos, devido
ao aumento da intensidade do capital, provoque uma elevação do grau
de monopolização, graças à tendência de se “protegerem” os lucros:

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21 Essa afirmação, contudo, é matizada pela suposição subjacente a nossas equações custo-preço,
a saber, que o custo direto unitário não depende do grau de utilização do equipamento e
que o limite de capacidade prática não é atingido. Ver pp. 35-6

essa tendência, contudo, não é de forma alguma automática, podendo
não prevalecer, conforme se demonstra no exemplo dado.

TABELA 1. Intensidade de Capital e Razão Entre Rendimentos e Custos
Diretos no Ramo Manufatureiro nos Estados Unidos, 1899-1914.

Abordamos acima certas questões que surgem ligadas à aplicação
de nossa teoria aos fenômenos a longo prazo. Quando sua teoria é
aplicada à análise da formação de preços no decurso de um ciclo eco-
nômico, levanta-se o problema de saber se a nossa fórmula funciona
na fase de prosperidade. De fato, em tais períodos a utilização de equi-
pamento pode atingir o ponto de eliminar a capacidade ociosa e assim,
sob pressão da demanda, os preços podem exercer o nível indicado por
essas fórmulas. Parece, contudo, que, devido à disponibilidade de ca-
pacidade ociosa e à possibilidade de aumentar o volume do equipamento
sempre que ocorrem estrangulamentos, esse fenômeno não é encontrado
freqüentemente mesmo em fases de prosperidade. Parece que em geral
ele se restringe a situações de guerra ou de pós-guerra, quando a ca-
rência de matéria-prima ou de equipamento limita fortemente a oferta
com relação à procura. Esse tipo de aumento de preços é que constitui
o motivo básico do processo inflacionário que predomina nesses períodos.

Aplicação às mudanças a longo prazo no ramo
manufatureiro dos EUA

Como a razão entre preço e custo direto unitário é igual à razão
entre o montante dos rendimentos e o montante dos custos diretos, as
modificações nessa relação podem ser analisadas empiricamente com
referência a vários ramos tomando-se por base o Censo dos Fabricantes
Norte-Americanos (United States Census of Manufactures), onde en-
contramos o valor dos produtos, o custo das matérias-primas e os custos
de mão-de-obra de cada ramo. Contudo, as modificações da razão entre

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rendimentos e custos diretos de um único ramo da indústria que, de
acordo com o que foi dito acima, são determinadas por modificações
no grau de monopolização, refletem mudanças das condições particu-
lares daquele ramo da indústria. Por exemplo, uma modificação na
política de preços de uma firma grande pode ocasionar uma mudança
fundamental no grau de monopolização do ramo da indústria ao qual
essa firma pertence. Por esse motivo, limitamos as considerações aqui
contidas ao ramo manufatureiro como um todo, podendo dessa forma
interpretar as modificações de relação entre rendimentos e custo direto
em termos de mudanças importantes das condições industriais.

Tomamos assim a razão entre o montante dos rendimentos do
ramo manufatureiro dos Estados Unidos e o montante de seus custos
diretos. Surge contudo uma dificuldade: essa relação não reflete sim-
plesmente as modificações na relação entre os rendimentos e os custos
diretos em ramos da indústria em separado, mas também alterações
de sua importância dentro do setor manufatureiro como um todo. Por
esse motivo, na tabela 2 se acha indicada não só a razão entre os
rendimentos e os custos diretos do setor manufatureiro dos Estados
Unidos, como também essa razão calculada com base na suposição de
que a parcela relativa representada no valor total dos rendimentos
pelos grupos principais seja estável.22 A diferença real entre essas duas
séries parece, em geral, não ser significativa.

TABELA 2. Razão Entre Rendimentos e Custos Diretos no Setor Ma-
nufatureiro dos Estados Unidos, 1879-1937.

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22 Os detalhes do cálculo, bem como os ajustes que foram feitos a fim de permitir a comparação
em termos aproximados dos vários anos do Censo, o que havia sido prejudicado por modi-
ficações de escopo e de métodos do Censo, encontram-se descritos no Apêndice Estatístico.
Notas 2 e 3.

Nota-se que houve um aumento substancial na razão entre rendi-
mentos e custos diretos de 1879 a 1889. Sabe-se que esse foi um período
de mudança no capitalismo americano e que se caracterizou pela formação
de gigantescas corporações industriais. Não é pois surpresa alguma que
o grau de monopolização tenha aumentado nesse período.

De 1889 a 1923 houve pouca modificação na razão entre rendi-
mentos e custos diretos. Contudo, aparece um aumento marcante no
período de 1923 a 1929. A elevação no grau de monopolização nesse
período pode ser explicada em parte por aquilo que poderia ser chamado
de “revolução comercial” — a súbita entrada em cena de promoção de
vendas através da publicidade, vendedores etc. Outro fator a considerar
foi um aumento geral dos custos indiretos com relação aos custos diretos
ocorrido nesse período.

Pode-se perguntar se o alto nível da razão entre rendimentos e
custos diretos em 1929 não se deveu, pelo menos em parte, a terem as
firmas atingido sua capacidade total na fase de prosperidade. Há que
salientar, porém, que o grau de utilização de equipamento em 1929 não
era maior que o de 1923. Um exame dos dados do Censo para 1925 e
1927 também parece indicar que a elevação da razão entre rendimentos
e custos diretos durante o período 1923/29 foi de caráter gradual.

De 1929 a 1937 a razão entre rendimentos e custos diretos apre-
senta uma modesta redução. Provavelmente isso pode ser atribuído
principalmente ao aumento do poderio dos sindicatos.

As explicações aqui contidas são de caráter provisório e esque-
mático. De fato a interpretação do movimento da razão entre rendi-
mentos e custos diretos em termos de modificações do grau de monopólio
compete aos especialistas em história econômica, que podem contribuir
para esse estudo com conhecimento mais aprofundado das condições
industriais em mudança.

Aplicação ao ramo manufatureiro e ao do comércio varejista
dos EUA durante a Grande Depressão

Na tabela 3 aparece a razão entre rendimentos e custos diretos
do setor manufatureiro dos Estados Unidos nos anos de 1929, 1931,
1933, 1935 e 1937. Mais uma vez, além da razão original entre ren-
dimentos e custos diretos, dá-se também a razão ajustada em função
das modificações na composição do valor dos produtos.23 Como na tabela
anterior, não há