Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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diferença significativa entre as duas séries. A tabela
indica também a razão entre o total das vendas a varejo de bens de
consumo nos Estados Unidos e o seu custo para os varejistas durante
o mesmo período. Isso corresponde, grosso modo, à razão entre rendi-

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23 Como na tabela anterior, os dados foram ajustados em função de modificações no escopo
e nos métodos do Censo (ver Apêndice Estatístico, Notas 2 e 3).

mentos e custos diretos do ramo varejista. (Não foi feito o cálculo de
uma série ajustada para a composição das vendas.)

TABELA 3. Razão Entre Rendimentos e Custos Diretos no Setor
Manufatureiro e no Comércio Varejista nos Estados Unidos, 1929/37.

Vê-se que a razão entre rendimentos e custos diretos tendeu
a aumentar durante a depressão; levando em conta o alcance da
depressão na década de 30, contudo, a mudança foi de caráter bas-
tante moderado. O aumento da razão pode ser atribuído a uma ele-
vação dos custos indiretos com relação aos custos diretos, o que
estimulou o estabelecimento de acordos tácitos para “proteger” os
lucros e portanto para aumentar o grau de monopolização. Vê-se
que durante o período de recuperação de 1933 a 1937 houve um
movimento no sentido inverso. Para o setor manufatureiro, contudo,
a razão entre rendimentos e custo direto caiu a um nível significa-
tivamente inferior ao de 1929. Conforme foi sugerido anteriormente,
isso provavelmente resultou de um considerável fortalecimento dos
sindicatos no período de 1933/37.

Flutuações dos preços de matérias-primas

Conforme dissemos no início deste capítulo, as modificações a
curto prazo nos preços dos produtos primários refletem principalmente
as alterações da demanda. Dessa forma, esses preços caem bastante
com a contração da atividade econômica e sobem bastante com sua
expansão.

É sabido que os preços das matérias-primas sofrem flutuações
cíclicas maiores do que os níveis salariais. As causas desse fenômeno
podem ser explicadas da seguinte forma: mesmo com os salários
mantidos constantes, os preços das matérias-primas cairiam durante

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uma depressão, devido à queda da demanda “real”. Ora, os cortes
de salários durante uma depressão nunca podem “alcançar” o preço
das matérias-primas em sua queda, porque os cortes salariais por
sua vez provocam uma queda na demanda e portanto uma nova
queda nos preços dos produtos primários. Imaginemos que os preços
das matérias-primas caiam em 20% devido à diminuição da demanda
real. Imaginemos ainda que em seguida a taxa de salários seja cor-
tada também em 20%. A teoria da formação de preços desenvolvida
acima indica que o nível geral de preços irá conseqüentemente cair
também em cerca de 20%. (O grau de monopólio tende a aumentar
um pouco, mas não muito.) Mas isso ocasionará uma queda corres-
pondente das rendas, de demanda, e, portanto, dos preços das ma-
térias-primas.

Na tabela 4, abaixo, é feita uma comparação dos índices de preços
de matérias-primas e salários/hora nos Estados Unidos, no período de
1929/41. (Ver p. 47)

A razão entre preços de matérias-primas e salários/hora mostra
uma tendência a decrescer a longo prazo que em parte reflete a elevação
da produtividade do trabalho. Isso, contudo, não esconde o padrão cíclico
que se acha manifesto em particular na queda marcante verificada
tanto na depressão de 1929/33, como na de 1937/38.

Formação de preços de produtos acabados

De acordo com a teoria acima, a formação de preços de produtos
acabados resulta da formação de preços em cada etapa da produção,
com base na fórmula

p
__

 =
m
__

1 – n
__ u

__

 .

Dado um grau de monopólio, os preços a cada etapa são propor-
cionais aos custos diretos unitários. Na primeira etapa da produção,
os custos diretos consistem de salários e do custo de produtos primários.
Na etapa seguinte, os preços são formados com base nos preços da
etapa anterior e nos salários da etapa atual, e assim por diante. É
fácil de ver, portanto, que, dado um grau de monopólio, os preços de
produtos acabados são funções lineares homogêneas dos preços das
matérias-primas de um lado e, de outro, dos custos de mão-de-obra
em todas as etapas da produção.

Uma vez que as flutuações dos salários no decurso do ciclo
econômico são muito menores que as dos preços das matérias-primas
(ver tópico anterior), conclui-se que os preços dos produtos acabados
também tendem a flutuar bem menos que os preços das matérias-
primas.

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TABELA 4. Índices de Preços de Matérias-Primas e de Salários/Hora
nos Ramos Manufatureiro, de Mineração, de Construção e Ferroviário
nos Estados Unidos, 1929/41.

Quanto às diferentes categorias de preços de produtos acabados,
supõe-se freqüentemente que os preços dos bens de capital durante
um período de depressão caem mais que os preços dos bens de consumo.
Dentro da teoria aqui exposta, contudo, não há fundamento para essa
suposição. Pode-se até mesmo pressupor uma certa queda dos preços
de bens de consumo com relação aos preços dos bens de capital. O
peso dos produtos primários, inclusive produtos alimentícios, prova-
velmente será maior no montante dos bens de consumo que no caso
dos bens de capital e os preços dos produtos primários caem mais que
os salários durante a depressão.

Na tabela 5 aparecem os índices de preços de matérias-primas,
preços ao consumidor (no nível de varejo) e preços de bens acabados
de capital nos Estados Unidos no período de 1929 a 1941. Vê-se que
os preços das matérias-primas apresentaram uma flutuação muito
maior que os preços de bens de consumo acabados ou bens de capital
acabados.

A razão entre os preços de bens de capital e os preços de bens
de consumo demonstra uma clara tendência ascendente. Contudo,
transparece da curva temporal dessa relação no gráfico 2 que houve
uma elevação mais pronunciada durante as contrações de 1929/33 e

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TABELA 5. Índice de Preços de Matérias-Primas, Bens de Consumo e
Bens de Capital nos Estados Unidos, 1929/41.

1Os índices de preços implícitos na deflação do consumo e o investimento de capital fixo foram
claculados a partir do Suplemento Sobre a Renda Nacional de Survey of Currente Business,
1951. Fica claro que esses índices são do tipo de Paasche.

1937/3824 que no período tomando como um todo. Parece, por outro
lado, que essas flutuações cíclicas da razão entre os preços dos bens
de capital e os preços dos bens de consumo, embora sejam nitidamente
marcadas, são bastante pequenas em termos de amplitude.

Gráfico 2. Relação entre os preços dos bens de capital e os preços dos
bens de consumo para os Estados Unidos, 1929/41.

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24 No último caso, contudo, o fenômeno parece ter sido exagerado por fatores específicos.

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Distribuição da Renda Nacional

Os determinantes da parcela relativa dos salários na renda

Iremos agora ligar a razão entre rendimentos e custos diretos
num ramo da indústria, que estudamos no capítulo anterior, e a parcela
relativa dos salários no valor agregado daquele ramo da indústria. O
valor agregado, isto é, o valor dos produtos menos o custo das maté-
rias-primas, é igual à soma de salários, custos indiretos e lucros. Se
indicarmos o total dos salários por W, o total do custo das matérias-
primas por M e a razão entre o total dos rendimentos e o total dos
custos diretos por k, temos:

custos indiretos + lucros = (k – 1) (W + M)

onde a razão entre rendimentos e custos diretos k é determinada, con-
forme acima, pelo grau de monopólio. A parcela relativa dos salários
no valor agregado de um ramo da indústria pode ser representada
como

w =
W

W + (k – 1) (W + M) .

Se indicarmos a razão entre o montante dos custos de matérias-primas
e o custo de mão-de-obra por j, teremos:

w =
1

1 + (k – 1) (j + 1) .

Conclui-se que a parcela relativa dos salários no valor agregado é de-
terminada pelo grau