Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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de monopólio e pela razão entre os custos de
matérias-primas e os custos de mão-de-obra.

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Pode-se empregar para o ramo manufatureiro da indústria como
um todo uma fórmula semelhante à que foi estabelecida para um de-
terminado ramo de indústria. Contudo, aqui a razão entre rendimentos
e custos diretos e a razão entre custo de matérias-primas e salários
dependem também da importância dos vários ramos da indústria no
setor manufatureiro tomado como um todo. A fim de separar esse ele-
mento, podemos proceder do seguinte modo: na fórmula (3), em lugar
de k, que é a razão entre rendimentos e custos diretos, e em lugar de
j, que é a razão entre custos de matérias-primas e custos de mão-de-
obra, colocamos as razões k′ e j′, ajustadas de forma tal que fica eli-
minado o efeito de alterações da importância dos diversos ramos da
indústria. Assim, obtemos:

w′ =
1

1 + (k′ − 1) (j′ + 1) (3′)

A parcela relativa dos salários no valor agregado, w′, obtida dessa
forma, apresentará um desvio em comparação com a parcela relativa
real dos salários, w, na medida de uma quantia que será devida a
modificações na composição industrial do valor agregado.

Dos parâmetros da fórmula (3′), k′ é determinado pelo grau de
monopólio nos ramos da indústria manufatureira. O problema dos de-
terminantes de j′ é um pouco mais complicado. Os preços das maté-
rias-primas são determinados pelos preços dos produtos primários, pelo
custo dos salários nas primeiras etapas da produção e pelo grau de
monopólio presente nessas etapas. Assim, grosso modo, j′, que equivale
à razão entre os custos de matérias-primas por unidade e os custos
de salários por unidade, é determinado pela razão entre os preços dos
produtos primários e os custos dos salários por unidade e também pelo
grau de monopólio do ramo.25 Em resumo: a parcela relativa dos salários
no valor agregado da indústria manufatureira é determinada, não só
pela composição industrial do valor agregado, como pelo grau de mo-
nopólio e pela razão entre os preços das matérias-primas e os custos
de salários por unidade. Uma elevação do grau de monopólio ou dos
preços das matérias-primas com relação aos custos de salários por
unidade provoca uma queda da parcela relativa dos salários no valor
agregado.

Cumpre lembrar a esse respeito que, ao contrário do que sucede
com os preços de produtos acabados, os preços de matérias-primas são
“determinados pela demanda”. A razão entre os preços de matérias-

OS ECONOMISTAS

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25 Essa generalização esquemática se baseia em duas suposições simplificadoras: (a) que os
custos unitários de materiais se modificam proporcionalmente aos preços dos materiais,
isto é, as modificações ocorridas na eficiência da utilização dos materiais não são levadas
em conta; e (b) que os custos de salários por unidade nas primeiras etapas da produção
variam proporcionalmente aos custos de salários por unidade nas etapas mais avançadas.

primas e os custos de salários por unidade depende da demanda de
matérias-primas (determinada pelo nível de atividade econômica) em
relação à sua oferta — que é inelástica a curto prazo.

Podemos agora, usando o mesmo enfoque, voltar-nos para um
grupo de ramos da indústria de âmbito maior que a manufatureira e
onde o padrão de formação de preços possa ser tido como semelhante,
a saber, o grupo formado pela indústria manufatureira, pela da cons-
trução civil, pela dos transportes e pela dos serviços. Para esse grupo
como um todo a parcela relativa dos salários no total do valor agregado
diminuirá em conseqüência de um aumento do grau de monopólio ou
de um aumento da razão entre os preços dos produtos primários e os
custos de salários por unidade. O resultado também será afetado, é
claro, por modificações da composição industrial do valor agregado do
grupo.

Pode-se agora demonstrar que esse teorema pode ser generalizado
de forma a cobrir a parcela relativa dos salários na renda bruta nacional
do setor privado (isto é, a renda nacional antes da depreciação e sem
incluir a renda dos funcionários do governo). Além dos setores da eco-
nomia mencionados acima, temos ainda que levar em consideração a
agricultura e a mineração, as comunicações e empresas de prestação
de serviços ao público (eletricidade, gás, telefone, esgotos etc.), o co-
mércio, as empresas imobiliárias e do setor financeiro. Na agricultura
e na mineração os produtos são matérias-primas e a parcela relativa
dos salários no valor agregado depende principalmente da razão entre
os preços das matérias-primas produzidas e seu custo de salários por
unidade. Nos demais setores, a parcela relativa dos salários no valor
agregado é insignificante. Veremos assim que, em termos gerais, o
grau de monopolização, a razão entre os preços de matérias-primas
e custos de salários por unidade e a composição industrial26 são os
determinantes da parcela relativa dos salários na renda bruta do
setor privado.

Mudanças a longo e a curto prazo na distribuição da renda

As mudanças a longo prazo na parcela relativa dos salários, quer
no valor agregado de um grupo industrial como o setor manufatureiro
ou na renda bruta de todo o setor privado, são, de acordo com o que
foi visto acima, determinadas pelas tendências a longo prazo do grau
de monopolização e dos preços das matérias-primas com relação aos
custos de salários por unidade, bem como da composição industrial. O
grau de monopólio apresenta uma tendência geral a aumentar a longo

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26 Deve-se salientar que, por composição industrial, queremos dizer a composição do valor da
renda bruta do setor privado. Assim, as modificações da composição dependem não só de
modificações do volume dos componentes industriais como também do movimento relativo
dos preços respectivos.

prazo e assim a deprimir a parcela relativa dos salários na renda,
apesar de, como vimos acima, essa tendência ser muito mais forte em
alguns períodos que em outros. É difícil, contudo, generalizar a respeito
da relação entre os preços de matérias-primas e os custos de salários
por unidade (relação essa que depende das mudanças a longo prazo
da posição das matérias-primas no que diz respeito à oferta e à procura)
ou a respeito da composição industrial. Nenhuma afirmação a priori
seria portanto possível quanto às tendências a longo prazo da parcela
relativa dos salários na renda. Como iremos ver na parte seguinte, a
parcela relativa dos salários no valor agregado do setor manufatureiro
dos Estados Unidos declinou consideravelmente após 1880, enquanto
no Reino Unido27 os salários mantiveram sua parcela na renda nacional
desde a década de 1880 até 1924, apresentando altos e baixos a longo
prazo no decorrer do período.

É possível dizer algo mais específico quanto a mudanças na par-
cela relativa dos salários na renda no decurso do ciclo econômico. Ve-
rificamos que o grau de monopólio tende a aumentar um pouco durante
as depressões (cf. p. 39). Nessa fase, os preços das matérias-primas
caem com relação aos salários (cf. p. 45). A primeira influência apontada
tende a reduzir a parcela relativa dos salários na renda, enquanto a
segunda tende a aumentá-la. Finalmente, as modificações da compo-
sição industrial durante uma depressão afetam de maneira adversa a
parcela relativa dos salários. De fato, essas mudanças são dominadas
por uma redução do investimento com relação às outras atividades e
a parcela relativa dos salários na renda das indústrias de bens de
capital é em geral mais elevada que nas outras indústrias. (Em co-
municações, empresas de prestação de serviços ao público, no comércio,
empresas imobiliárias e do setor financeiro, particularmente, o paga-
mento de salários é relativamente desprovido de importância.)

Os efeitos líquidos das modificações desses três fatores sobre a
parcela relativa dos salários na renda — o primeiro e o terceiro dos
quais são negativos, enquanto o segundo é positivo — parecem ser
pequenos.