Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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Assim, a parcela relativa dos salários, quer no valor agregado
de um grupo industrial, quer na renda bruta do setor privado como
um todo, parece não apresentar flutuações cíclicas significativas.

O que foi dito acima pode ser demonstrado: (a) por uma análise
das mudanças a longo prazo da parcela relativa dos salários no valor
agregado do setor manufatureiro dos Estados Unidos e na renda na-
cional do Reino Unido; (b) por uma análise das mudanças na parcela
relativa dos salários no valor adicional do setor manufatureiro dos
Estados Unidos durante a Grande Depressão; e (c) por uma análise
das mudanças durante o mesmo período na parcela relativa dos salários
na renda nacional dos Estados Unidos e do Reino Unido.

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27 Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. (N. do T.)

Mudanças a longo prazo na parcela relativa dos salários no
valor agregado do setor manufatureiro dos Estados Unidos e

na renda nacional do Reino Unido

As modificações a longo prazo na parcela relativa dos salários
no valor agregado do setor manufatureiro dos Estados Unidos são ana-
lisadas na tabela 6:

TABELA 6. Parcela Relativa dos Salários no Valor Agregado no Setor
Manufatureiro dos Estados Unidos, 1879-1937.

Fonte: United States Censu of Manufactures.

Nas duas primeiras colunas aparecem k′ e j′, isto é, a razão
“ajustada” entre rendimentos e custos diretos e a razão “ajustada” entre
os custos de matérias-primas e custos de mão-de-obra.28 A partir dessas
duas séries, temos, mediante o emprego da fórmula (3′), w′, a parcela
relativa real dos salários no valor agregado. Finalmente, a parcela
relativa real dos salários no valor agregado aparece na última coluna.
As modificações da diferença w – w′ indicam a influência de modifica-
ções na composição industrial do valor agregado.

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28 A razão “ajustada” entre rendimentos e custos diretos, k’, é a mesma série da tabela 3,
acima. Quanto aos valores originais da razão entre custos de matéria-prima e custos de
mão-de-obra quanto à descrição do cálculo da série j’ “ajustada” dada na tabela 6, ver o
Apêndice Estatístico, Notas 2 e 3. Os ajustes realizados em função de modificações no
escopo e nos métodos do Censo são descritos ali.

Parece que w, a parcela relativa real dos salários no valor agre-
gado, sofreu uma queda considerável — embora não contínua — no
decorrer do período enfocado. Essa queda resultou principalmente do
aumento da razão “ajustada” entre rendimentos e custos diretos, w′,
que na nossa interpretação reflete um aumento do grau de monopoli-
zação. A razão “ajustada” entre os custos de matérias-primas e custos
de mão-de-obra, j, tendeu a cair e não a subir, de modo que em geral
as modificações sofridas por ela amenizaram o declínio de w. Final-
mente os efeitos das modificações da composição industrial se deram
no sentido de reduzir a parcela relativa real dos salários no valor
agregado w: de fato, caiu mais que o valor ajustado w′.

Não existem dados com respeito à parcela relativa dos salários
na renda nacional dos Estados Unidos durante um período de tempo
longo. Já para o Reino Unido, contudo, tais dados se acham disponíveis.

TABELA 7. Parcela Relativa dos Salários na Renda Produzida Inter-
namente no Reino Unido, 1881-1924.

Fontes: PREST. A. R. “National Income of the United Kingdom”. In: Economic Journal. Março
de 1948; Estimativas não publicadas da renda de ultramar do Reino Unido, compiladas por F.
Hilgendt; Statist; BOWLEY, A. L. Wages and Income in the United Kingdom Since 1860. Tabela
1, p. 6, índice da taxa salarial de Woods.

Na tabela 7, aparece a parcela relativa dos salários na renda
nacional produzida internamente29 no Reino Unido. Além disso, a tabela

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29 Renda nacional produzida internamente é a renda nacional exclusive a renda proveniente
de investimentos estrangeiros, que é irrelevante para o problema da distribuição aqui
considerado. Deve-se salientar que mesmo depois desse ajuste os dados não correspondem
completamente a nossos conceitos porque se relacionam com a renda nacional líquida
e não com a bruta, e porque a renda nacional inclui a renda dos empregados do Governo,
enquanto nós tratamos acima com a parcela relativa dos salários na renda do setor
privado. Contudo, parece provável que esses fatores não possam afetar seriamente a ten-
dência da parcela relativa dos salários na renda nacional.

dá a razão entre o índice de Sauerbeck dos preços no atacado e o
índice da taxa salarial, o que pode ser tomado como um indicador
aproximado das modificações na razão entre preços de matérias-primas
e custos de salários por unidade. Apesar de o índice de Sauerbeck ser
um índice geral de preços de atacado, baseia-se principalmente nos
preços de matérias-primas e semimanufaturados. É verdade que o ín-
dice da taxa de salários se eleva mais rapidamente (ou cai mais len-
tamente) que o índice de custos de salários, devido à elevação secular
da produtividade, de modo que uma tendência decrescente se acha
presente em nosso indicador da razão entre os preços das matérias-
primas e os custos de salários por unidade. Essa tendência, contudo,
tem uma propensão a ser lenta, mormente porque o índice da taxa de
salários se baseia parcialmente em taxas de salários por produção.
Portanto, é muito provável que a razão entre os preços de matérias-
primas e custos de salários tenha caído de 1881/85 a 1891/95, como
aconteceu com o indicador. Certamente aumentou de 1896-1913; e caiu
de novo de 1911/13 a 1924.

O movimento da parcela relativa da remuneração do fator tra-
balho na renda nacional pode ser interpretado de forma plausível do
seguinte modo: embora tenha havido uma elevação a longo prazo do
grau de monopolização, sua influência foi em grande parte contraba-
lançada pela queda da razão entre os preços das matérias-primas e
os custos de salários por unidade de 1881/85 a 1891/95. A influência
do grau de monopólio foi reforçada pela elevação da razão entre os
preços das matérias-primas e os custos de salários por unidade no
período de 1896-1900 a 1911/13, e finalmente mais que contrabalançada
por uma queda nessa razão de 1911/13 a 1924. Assim, o fato de que
a parcela relativa dos salários na renda nacional em 1924 foi a mesma
que tinha sido no período 1881/85, resultaria, segundo essa interpre-
tação, do equilíbrio acidental da influência de mudanças no grau de
monopólio e mudanças na razão entre os preços das matérias-primas
e os custos de salários por unidade. Infelizmente, essa interpretação
não pode ser tomada como definitiva, devido à possibilidade da in-
fluência de modificações da composição industrial da renda nacional.

Mudanças na parcela relativa dos salários no valor agregado
do setor manufatureiro dos Estados Unidos durante a

Grande Depressão

A tabela 8 apresenta uma análise das mudanças da parcela re-
lativa dos salários no valor agregado do setor manufatureiro dos Es-
tados Unidos durante a Grande Depressão, fundada no mesmo método
empregado para a análise das modificações a longo prazo. (Cf. tabela
6.) A tabela apresenta a razão “ajustada” entre rendimentos e custos
diretos k′, bem como a razão “ajustada” entre os custos de matérias-
primas e os custos de mão-de-obra j′.

A partir de k′ e j′ calculamos w′ — a parcela relativa “ajustada”

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dos salários no valor agregado — empregando a fórmula (3′). Final-
mente aparece a parcela relativa real dos salários no valor agregado,
w. As modificações da diferença w − w′ refletem o efeito das mudanças
da composição industrial.

Se abstrairmos provisoriamente a influência das modificações da
composição industrial, levando em conta assim só k′, j′ e w′, temos o
seguinte: de 1929 a 1933 a razão entre os rendimentos e os custos
diretos, k′, aumenta, refletindo a elevação do grau de monopólio durante
a depressão (cf. p. 45).

Contudo, ao mesmo tempo, a razão entre