Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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os custos de matérias-
primas e custos de mão-de-obra declina, devido à queda, típica da fase
de depressão, dos preços das matérias-primas com relação aos salários.
A influência desses dois fatores sobre a parcela relativa dos salários
no valor agregado, w′, se manifesta em direções opostas. Como w′
permaneceu estável de 1929 a 1933, parece que esses dois fatores
mantiveram-se em equilíbrio. De 1933 a 1937, a parcela relativa
“ajustada” dos salários no valor agregado, w′, aumentou, devido à
queda da razão “ajustada” entre os rendimentos e os custos diretos,
k′, que não foi contrabalançada pela elevação da razão “ajustada”
entre os custos de matérias-primas e os custos de mão-de-obra, j′.
Esta situação reflete a redução relativamente grande no grau de
monopólio na fase de recuperação, resultante do acréscimo de poderio

TABELA 8. Parcela Relativa dos Salários no valor Agregado do Setor
Manufatureiro dos Estados Unidos, 1929/37.

dos sindicatos. A tendência a longo prazo dos preços das matérias-pri-
mas no sentido de decrescer com relação aos custos dos salários, que
se reflete no fato de que j′ não recobrou em 1937 seu nível de 1929,
foi um dos fatores que contribuíram para isso.

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Quanto à diferença entre a parcela relativa real e “ajustada”
dos salários no valor agregado, w — w′, parece que caiu na depressão
(w caiu um pouco de 1929 a 1933, enquanto w′ permaneceu mais
ou menos estável; de 1933 a 1937 w aumentou pouco mais que w′).
Isso se deve principalmente a um maior declínio na produção de
bens de capital, do que na produção do setor manufatureiro como
um todo durante a depressão. De fato, a parcela relativa dos salários
no valor agregado é mais elevada para esses produtos que para os
bens manufaturados como um todo e assim a redução da importância
da produção dos bens de capital durante a depressão tende a reduzir
a parcela relativa dos salários no valor agregado do setor manufa-
tureiro como um todo.

Seria de algum interesse estabelecer o peso dos três fatores
considerados acima na determinação do movimento da parcela re-
lativa dos salários no valor agregado no decorrer do ciclo. Para esse
fim, podemos calcular a partir da fórmula (3′) qual seria o valor de
w′ em 1933, caso se alterasse apenas a razão entre os rendimentos
e os custos diretos, enquanto a razão entre custos de matérias-primas
e custos de mão-de-obra permanecesse no nível de 1929. O resultado
é 34,6%. Esse valor, juntamente com o de w de 1929 e de 1933 e
com o de w′ em 1933 (cf. tabela 8), nos permite construir a tabela
9. (ver p. 58).

A diferença entre a segunda coluna e a primeira nos dá o efeito
da modificação da razão entre os rendimentos e os custos diretos; a
diferença entre a terceira e a segunda coluna, o efeito da modificação
na razão entre custos de matérias-primas e custos de mão-de-obra; e
a diferença entre a quarta e a terceira, o efeito da modificação na
composição industrial.

Veremos que os efeitos dos três fatores considerados são relati-
vamente pequenos. Assim, o seu saldo também é pequeno e isso explica
a estabilidade aproximada da parcela relativa dos salários no valor
agregado durante a depressão.

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TABELA 9. Análise das Alterações da Parcela Relativa dos Salários
no Valor Agregado do Setor Manufatureiro dos Estados Unidos,
1929/33.

Modificações na parcela relativa dos salários na renda
nacional nos Estados Unidos e no Reino Unido durante

 a Grande Depressão

Infelizmente, não existem dados exatos sobre o assunto, quanto
aos Estados Unidos, já que as estatísticas da renda nacional não fazem
separação entre salários e ordenados. É possível, contudo, formar uma
idéia aproximada das modificações na parcela relativa dos salários na
renda do setor privado para o período 1929/37. Os dados sobre os sa-
lários do setor manufatureiro da indústria existem.30 Conforme foi men-
cionado acima, os salários pagos são insignificantes em alguns grupos
industriais, a saber, no comércio (os balconistas são classificados como
funcionários que recebem ordenados), no setor financeiro e no imobi-
liário, no de comunicações e no de empresas de prestação de serviços
ao público. Quanto às indústrias restantes, isto é, a da agricultura,
da mineração, da construção civil, do transporte e a de serviços, só se
dispõe de dados englobando salários e ordenados. Se calcularmos um
índice ponderado dos salários do setor manufatureiro de um lado e
dos salários e ordenados da agricultura, da mineração, da construção,
do transporte e de serviços do outro, obteremos uma aproximação do
índice do total dos salários. (De fato, os salários no setor manufatureiro
constituem cerca da metade do total dos salários, enquanto os ordenados
dos demais ramos da indústria que estamos considerando se mantêm
em certa medida paralelos aos salários.) Prosseguimos dividindo esse

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30 Existem as séries referentes às folhas de pagamento de todos os anos e estão de acordo
com o Censo dos Fabricantes no que diz respeito aos anos que foram objeto do Censo.

índice pelo da renda bruta do setor privado e desse modo obtemos um
índice aproximado da parcela relativa dos salários nessa renda.

Essa série demonstra uma lenta tendência ascendente, a longo
prazo, que pode ser atribuída principalmente a uma queda no grau
de monopólio resultante do fortalecimento dos sindicatos depois de
1933 e em alguma medida a um declínio dos preços de matérias-primas
com relação aos custos dos salários. As flutuações cíclicas são obvia-
mente pequenas. (Se os ordenados na agricultura, na mineração, na
construção civil, nos transportes e nos serviços fossem eliminados, o
índice seria ligeiramente mais baixo durante a depressão, porque os
ordenados em geral caem ligeiramente menos que os salários; mas
também não há dúvida de que as flutuações cíclicas permaneceriam
pequenas.) Esse resultado é extremamente provável devido à interação
dos mesmos fatores que emergiram da análise da parcela relativa dos
salários no valor agregado das indústrias do ramo manufatureiro.

TABELA 10. Índice Aproximado da Parcela Relativa dos Salários na
Renda Bruta do Setor Privado dos Estados Unidos, 1929/37.

Fontes: United States Census of Manufactures; Departamento de Comério dos Estados Unidos.
Suplemento Sobre a Renda Nacional de Survey of Current Business, 1951. Para mais detalhes,
ver o Apêndice Estátistico, Nota 4.

Durante a depressão houve provavelmente uma elevação do grau de
monopolização nas indústrias “que pagam salários”, mas uma queda nos
preços das matérias-primas com relação aos salários. As modificações na
composição industrial do setor privado durante a depressão tenderam a
reduzir a parcela relativa dos salários. De fato, houve um deslocamento
relativo na distribuição da renda nacional, das indústrias “que pagam

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salários” para os outros ramos: e também no interior do grupo “que paga
salários”, dos ramos com uma parcela relativa mais elevada para os com
uma parcela relativa de salários mais baixa na renda bruta. Esses des-
locamentos deveram-se mormente à redução — relativamente maior du-
rante a depressão — do investimento. Assim, da mesma forma que nos
setores manufatureiros da indústria, o efeito adverso da elevação do grau
de monopólio e da mudança da composição industrial durante a depressão
parece ter sido aproximadamente contrabalançado pela influência da que-
da dos preços das matérias-primas com relação aos salários.

Podemos agora considerar a relação entre salários e renda na-
cional produzida internamente no Reino Unido no período de 1929/38.31
Existem duas séries de renda nacional para o período em questão:
uma estimada pelo Professor A. L. Bowley e outra por J. R. S. Stone.
Contudo, existe apenas a estimativa de Bowley para os salários. Fe-
lizmente, contudo, os índices de ambas as versões da renda nacional
são em geral bastante semelhantes para o