Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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período em questão, apesar
de seus valores absolutos divergirem.

A tabela 11 dá índices das razões entre os salários (estimativa
de Bowley) e as duas variantes da renda nacional. Pode-se ver que as
duas séries não apresentam flutuações cíclicas marcantes.

TABELA 11. Índices da Parcela Relativa dos Salários na Renda Na-
cional no Reino Unido. 1929/38.

Fontes: BOWLEY, A.L. Studies in the National Income; PREST, A. R. “National Income of the
United Kingdom”. In: Economic Journal. Março de 1948; Board of Trade Journal.

OS ECONOMISTAS

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31 Conforme foi dito acima (ver nota 29), a série de renda nacional produzida internamente
no Reino Unido não corresponde exatamente ao conceito de renda bruta do setor privado
usado por nós, uma vez que a renda nacional se entende depois da depreciação e nela se
incluem os ordenados de funcionários do Governo. Parece, contudo, que no período consi-
derado as modificações na parcela relativa dos salários na renda nacional assim definida
são indicativas de mudanças correspondentes ao nosso conceito.

Mudanças cíclicas na parcela relativa dos salários e
ordenados na renda bruta do setor privado

Tratamos até agora somente de mudanças na parcela relativa
dos salários no total da renda. Trataremos agora rapidamente do pro-
blema da parcela relativa da remuneração do fator trabalho como um
todo na renda bruta do setor privado, levando em consideração não só
os salários, mas também os ordenados. A aplicação da teoria da dis-
tribuição de renda à análise das modificações a longo prazo da parcela
relativa dos salários e ordenados na renda seria difícil devido à cres-
cente importância dos ordenados na soma de custos indiretos e lucros,
motivada pela crescente concentração econômica. Contudo, podem-se
examinar as flutuações cíclicas na parcela relativa dos salários e or-
denados na renda bruta do setor privado, que são de bastante interesse.

Vimos acima que a parcela relativa dos salários na renda bruta
do setor privado tende a ser razoavelmente estável no decurso do ciclo.
O mesmo não é de se esperar, contudo, quanto à parcela relativa dos
salários e ordenados em conjunto. Os ordenados, por constituírem cus-
tos indiretos, tendem a cair menos durante a depressão e a elevar-se
mais durante a fase de prosperidade do que os salários. Assim, pode-se
esperar que salários e ordenados “reais” V flutuem menos no decurso
do ciclo do que a renda bruta “real” do setor privado, Y.32 Conseqüen-
temente, podemos escrever:

V = αY + B

onde B é um valor positivo constante a curto prazo, embora sujeito a
modificações a longo prazo. O coeficiente α é menor do que 1 porque
V < Y e B > 0. Se agora dividirmos os dois termos dessa equação pela
renda “real” Y, obteremos

V
Y

 = α +
B
Y

(4)

onde V
Y

 é a parcela relativa dos salários e ordenados na renda bruta

do setor privado. V
Y

 aumenta, é claro, quando a renda “real” Y declina.

Podemos notar que a equação (4) apresenta um elo na teoria do ciclo
econômico desenvolvida adiante.

Aplicaremos agora a equação (4) aos dados dos Estados Unidos
para o período 1929/41. A parcela relativa dos salários e ordenados33
na renda bruta do setor privado e o valor dessa renda aos preços de

KALECKI

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32 Imaginamos que tanto salários e ordenados como renda bruta do setor privado sejam de-
flacionados pelo mesmo índice de preço.

33 Deve-se salientar que nos ordenados se encontram incluídos ordenados dos executivos que
ocupam cargos mais elevados nas empresas e que se acham mais perto, portanto, dos lucros.

1939 aparecem na tabela 12.34 De acordo com a equação (4), correla-
cionamos a parcela relativa dos salários e ordenados na renda V

Y
 com

a recíproca da renda “real” 1
Y

 e também com o tempo t, a fim de in-

corporar à análise uma possível tendência secular. (t é contado em
anos a partir de 1935, que é o ponto médio do período considerado.)
Obtemos a seguinte equação de regressão:

V
Y
⋅ 100 = 42,5 +

707
Y

 + 0,11 t .

O coeficiente de correlação dupla é 0,926. O valor de V
Y

 calculado a

partir da equação de regressão também aparece na tabela 12. A ten-
dência positiva provavelmente reflete a influência da queda do grau
de monopolização e dos preços de matérias-primas com relação aos
custos de salários por unidade.

TABELA 12. Parcela Relativa dos Salários e Ordenados na Renda
Bruta do Setor Privado dos Estados Unidos, 1929/41.

OS ECONOMISTAS

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34 Como deflator foi empregado o índice implícito na deflação do produto bruto real do setor
privado pelo Departamento do Comércio dos Estados Unidos. Para maiores detalhes, ver
o Apêndice Estatístico, Notas 5 e 6.

PARTE SEGUNDA

A Determinação dos Lucros e da
Renda Nacional

3
Os Determinantes dos Lucros

A teoria dos lucros em um modelo simplificado35

Podemos considerar em primeiro lugar os determinantes dos lu-
cros em um modelo fechado, no qual tanto os gastos do setor público
como a tributação sejam desprezíveis. O produto nacional bruto, por-
tanto, será igual à soma do investimento bruto (em capital fixo e es-
toques) e o consumo. O valor do produto nacional bruto será dividido
entre trabalhadores e capitalistas e nada, praticamente, será pago como
impostos. A renda dos trabalhadores consiste em salários e em orde-
nados. A renda dos capitalistas (ou lucros brutos) engloba a depreciação
e lucros não distribuídos, dividendos e saques não operacionais, alu-
guéis e juros. Temos assim o seguinte balanço do produto nacional
bruto, no qual fazemos a distinção entre o consumo dos capitalistas e
o consumo dos trabalhadores:

Lucros brutos Investimento bruto
Salários e Ordenados Consumo dos Capitalistas

Consumo dos Trabalhadores
Produto Nacional Bruto Produto Nacional Bruto

Se supusermos ainda que os trabalhadores não fazem poupança,
o consumo dos trabalhadores será então igual à sua renda. Daí se
conclui diretamente então que

Lucros brutos = Investimento bruto + consumo dos capitalistas

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35 A teoria dos lucros aqui exposta foi desenvolvida já em 1935 em meu “Essai d’une Théorie
de Mouvement Cyclique des Affaires”. In: Revue d’Economie Politique. Março-abril de 1935;
e em meu “A Macrodynamic Theory of Business Cycles”. In: Econometrica. Julho de 1935.

O que significa essa equação? Quer dizer que os lucros em um
dado período determinam o consumo e o investimento dos capitalistas?
Ou o contrário? A resposta depende de qual dos itens estiver direta-
mente sujeito às decisões dos capitalistas. Ora, é claro que os capita-
listas podem decidir consumir e investir mais num dado período que
no procedente, mas não podem decidir ganhar mais. Portanto, são suas
decisões quanto a investimento e consumo que determinam os lucros
e não vice-versa.

Se tomarmos um período curto, podemos dizer que o investimento
e o consumo dos capitalistas são determinados por decisões que tomaram
forma no passado. É que leva um certo tempo para se pôr em prática
um investimento e é somente com uma certa demora que o consumo dos
capitalistas responde a mudanças nos fatores que o influenciam.

Se os capitalistas sempre decidissem consumir ou investir num
dado período o que ganharam no período anterior, os lucros desse pe-
ríodo dado seriam iguais aos do anterior. Num caso desses, os lucros
permaneceriam estacionários e o problema da interpretação da equação
acima perderia sua importância. Mas não é isso que acontece. Apesar
de os lucros do período anterior serem um dos determinantes impor-
tantes do consumo e do investimento dos capitalistas, os capitalistas
em geral não decidem consumir e investir num dado período precisa-
mente o que ganharam no anterior. Isso explica por que os lucros não
permanecem estacionários, mas flutuam com o tempo.

A argumentação acima necessita ser matizada um pouco. As de-
cisões com base no investimento passado podem não determinar com-
pletamente