Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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o volume de investimento em um dado período, devido a
uma inesperada acumulação ou esgotamento de estoques. A importân-
cia desse fator, contudo, parece ter sido muitas vezes exagerada.

Há ainda que considerar o fato de que as decisões quanto a con-
sumo e investimento em geral são tomadas em termos reais e entre-
mentes os preços podem mudar. Por exemplo, uma peça de equipamento
encomendada pode custar mais caro agora que quando foi emitido o
pedido. Para superar essa dificuldade, suponhamos que os dois mem-
bros da equação sejam calculados a preços constantes.

Podemos agora concluir que os lucros brutos reais em um dado
período curto de tempo são determinados por decisões dos capitalistas,
com respeito a seu consumo e investimento, tomadas no passado e
sujeitas a correções diante de modificações inesperadas no volume dos
estoques.

Seria útil, para a compreensão dos problemas colocados, apre-
sentar as coisas de um ângulo um pouco diferente. Imaginemos que,
seguindo os “esquemas de reprodução” marxistas, subdividimos toda
a economia em três departamentos: o Departamento I, que produz
bens de capital; o Departamento II, que produz bens de consumo para
os capitalistas; e o Departamento III, que produz bens de consumo

OS ECONOMISTAS

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para os trabalhadores. Os capitalistas do Departamento III, depois de
terem vendido aos trabalhadores a quantia de bens de consumo cor-
respondente a seus salários, ainda terão um excedente de bens de
consumo equivalente a seus lucros. Esses bens serão vendidos aos tra-
balhadores do Departamento I e do Departamento II, e, como os tra-
balhadores não poupam, isso absorverá toda a sua renda. Assim, o
total dos lucros será igual à soma dos lucros do Departamento I, mais
os lucros do Departamento II e os salários desses dois Departamentos:
ou então, o total dos lucros será igual ao valor da produção desses
dois Departamentos — em outras palavras, ao valor da produção de
bens de capital e de consumo para os capitalistas.

A produção do Departamento I e do Departamento II também
irá determinar a produção do Departamento III, se a distribuição entre
lucros e salários em todos os Departamentos for fixa. A produção do
Departamento III se deslocará para cima até o ponto em que os lucros
auferidos a partir dessa produção forem iguais aos salários dos De-
partamentos I e II. Em outras palavras, o emprego e a produção do
Departamento III se deslocarão para cima até o ponto onde o excedente
dessa produção sobre o que os trabalhadores desse Departamento compram
com seus salários for igual aos salários dos Departamentos I e II.

O que foi dito acima esclarece o papel dos “fatores de distribuição”,
isto é, os fatores que determinam a distribuição da renda (como o grau
de monopólio) na teoria dos lucros. Dado que os lucros são determinados
pelo consumo e investimento dos capitalistas, é a renda dos trabalha-
dores (igual aqui ao consumo dos trabalhadores) que é determinada
pelos “fatores de distribuição”. Dessa forma, o consumo e o investimento
dos capitalistas, em conjunto com os “fatores de distribuição”, deter-
minam o consumo dos trabalhadores e, conseqüentemente, a produção
e o emprego em escala nacional. A produção nacional se deslocará para
cima até o ponto em que os lucros dela auferidos de acordo com os
“fatores de distribuição” forem iguais à soma do consumo e do inves-
timento dos capitalistas.36

O caso genérico

Agora podemos passar de nosso modelo simplificado para a si-
tuação real onde a economia não é um sistema fechado e onde os
gastos públicos e a distribuição não são desprezíveis. O produto nacional

KALECKI

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36 A argumentação acima se baseia na suposição de oferta elástica que foi feita na Primeira
Parte. Contudo, se a produção de bens de consumo para os trabalhadores se processa sem
capacidade ociosa, qualquer aumento no consumo ou no investimento dos capitalistas irá
simplesmente provocar uma elevação dos preços desses bens. Nesse caso, é a elevação dos
preços dos bens de consumo dos trabalhadores que aumentará os lucros no Departamento
III até o ponto em que eles forem iguais ao valor elevado dos salários dos departamentos
I e II. Os salários reais irão cair, refletindo o fato de que os salários aumentados se defrontam
com uma oferta de bens de consumo sem alterações.

bruto então é igual à soma do investimento bruto, consumo, gastos do
Governo com bens e serviços, e o saldo da balança comercial (exportação
menos importação). ("Investimento" aqui quer dizer investimento pri-
vado, sendo que os investimentos públicos se enquadram no item “gas-
tos do Governo com bens e serviços”.) Uma vez que o valor total da
produção é dividido entre capitalistas e trabalhadores ou pago em im-
postos, o valor do produto nacional bruto do lado da renda será igual
aos lucros brutos depois de deduzidos os impostos, salários e ordenados
depois de deduzidos os impostos, mais todos os impostos, tanto diretos
como indiretos. Dessa forma, temos o seguinte balanço do produto na-
cional bruto:

Lucros brutos Investimento bruto
 deduzidos os impostos (diretos) Saldo da balança comercial

Salários e ordenados Gastos do Governo em
 deduzidos os impostos (diretos) bens e serviços

Impostos (diretos e indiretos)
Consumo dos capitalistas
Consumo dos trabalhadores

Produto Nacional Bruto Produto Nacional Bruto

Uma parte dos impostos é empregada em transferências tais como
gastos sociais, enquanto a parte restante serve para financiar os gastos
do setor público em bens e serviços. Subtraiamos de ambos os lados
do balanço os impostos menos as despesas de transferência. Do lado
da renda, o item “impostos” irá desaparecer e somaremos as transfe-
rências aos salários e ordenados. Do outro lado, a diferença entre os
gastos do Governo em bens e serviços e os impostos menos as trans-
ferências será igual ao déficit orçamentário. Dessa forma o balanço
será assim:

Lucros brutos Investimento bruto
 deduzidos os impostos Saldo da balança comercial

Salários, ordenados e despesas Déficit orçamentário
 de transferência deduzidos os Consumo dos capitalistas

 impostos Consumo dos trabalhadores

Produto Nacional Bruto menos Produto Nacional Bruto
 impostos, mais despesas de menos impostos, mais

 transferência despesas de transferência

Agora, subtraindo de ambos os lados os salários, ordenados e
transferências, deduzidos os impostos, teremos a seguinte equação:

OS ECONOMISTAS

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Investimento bruto
Lucro bruto + Saldo da balança comercial
deduzidos os = + Déficit orçamentário

impostos – Poupança dos trabalhadores
+ Consumo dos capitalistas

Dessa forma, essa equação difere da equação do modelo simpli-
ficado, na medida em que, em vez do investimento, temos agora o
investimento mais o saldo da balança comercial, mais o déficit orça-
mentário, menos a poupança dos trabalhadores. É claro, contudo, que
nossa relação anterior ainda prevalece se supusermos que tanto o or-
çamento como o comércio externo são equilibrados e que os trabalha-
dores não poupam, isto é:

Lucros brutos depois da = Investimento bruto + consumo
 dedução dos impostos dos capitalistas

Mesmo fazendo essas suposições, o sistema é muito mais realista
do que era com o primeiro modelo simplificado e de qualquer forma
toda a argumentação da parte anterior ainda se aplica. Temos que
nos lembrar, contudo, de que agora estamos tratando com os lucros
depois da dedução dos impostos, enquanto, no primeiro modelo sim-
plificado, o problema não era considerado, uma vez que se supunha
que os impostos eram desprezíveis.

Poupança e investimento

Subtraiamos o consumo dos capitalistas de ambos os membros
da equação geral dos lucros (ver acima) e somemos a poupança dos
trabalhadores. Obteremos:

Poupança bruta dos capitalistas Investimento bruto
Poupança dos trabalhadores Saldo de balança

 comercial
Déficit orçamentário

Total da poupança