Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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ele consiste em uma parte A e uma parte pro-
porcional a Pt – λ, o lucro real depois da dedução dos impostos de algum
tempo atrás, isto é:

Ct = qPt – λ + A (5)
onde λ: indica a demora da reação do consumo dos capitalistas à mu-
dança de sua renda corrente, q é positivo e <1 porque os capitalistas
tendem a consumir apenas uma parte do incremento da renda. De
fato, esta parte tende a ser bastante pequena, de forma que é provável
que q seja consideravelmente menor que 1. Finalmente, A é constante
a curto prazo, apesar de sujeito a modificações a longo prazo. Supore-
mos, por enquanto, que tanto a balança comercial como o orçamento
do Governo são equilibrados e que os trabalhadores não poupam. Nesse
caso, os lucros depois da dedução dos impostos P são iguais à soma
do investimento I mais o consumo dos capitalistas C:

P = I + C . (6)
Substituindo o valor de C pela equação (5), obtemos:

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Pt = It + qPt – λ + A . (7)
Conclui-se que os lucros “reais” ao tempo t são determinados pelo

investimento corrente e pelos lucros no tempo t – λ. Os lucros ao tempo
t – λ por sua vez serão determinados pelo investimento àquele tempo
e pelos lucros ao tempo t – 2λ, e assim por diante. Fica claro assim
que os lucros ao tempo t são função linear do investimento ao tempo
t – λ, t – 2λ etc. e que os coeficientes de investimento,
It, It – λ, It – 2λ etc., nessa relação, serão 1, q, q2 etc. respectivamente.
Ora, q, conforme foi dito acima, é menor que 1, e é provável que seja
consideravelmente menor que 1. Dessa forma, a série de coeficientes
1, q, q2, ... será rapidamente decrescente e conseqüentemente, entre
It, It – λ, It – 2λ..., somente os coeficientes relativamente perto no tempo
contarão na determinação dos lucros Pt . Os lucros desse modo serão
função tanto do investimento corrente como do investimento do passado
recente; ou, falando em termos aproximados, os lucros seguem o in-
vestimento com um hiato temporal. Dessa forma, podemos escrever
como equação aproximada:

Pt = f (It – ω) (8)
onde w é o hiato temporal envolvido.

A forma da função f pode ser determinada da seguinte maneira:
voltemos um pouco à equação (7) e coloquemos em lugar de P seu
valor dado pela equação (8):

f (It – ω) = It + qf (It – ω – λ) + A .
 Essa equação deverá ser válida qualquer que seja o decurso no

tempo do investimento It . Assim, deverá dar cobertura inter alia ao
caso onde o investimento é mantido por algum tempo num nível estável,
de forma que tenhamos It = It – ω = It – ω – λ. Daí,

f (It) = It + qf (It) + A
ou

f (It) =
It + A
1 – q

 .

Como essa igualdade é válida para qualquer nível de It, ela nos
dá a forma da função f. Podemos então escrever a equação (8) como:

Pt =
It – ω + A

1 – q
(8′)

A significância da equação (8′) é que reduz o número de deter-

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minantes dos lucros de dois para um, devido a levar em consideração
a dependência do consumo dos capitalistas para com os lucros pas-
sados, conforme nos dá a equação (5). Os lucros, de acordo com a
equação (8′), são determinados completamente pelo investimento,
achando-se envolvido um certo hiato temporal. Ademais, o investi-
mento depende de decisões de investir ainda mais remotas no pas-
sado. Conclui-se que os lucros são determinados pelas decisões passa-
das de investir.

A interpretação da equação (8′) pode suscitar certas dificuldades.
Dentro das suposições dadas de que a balança comercial e o orçamento
do Governo são equilibrados e de que os trabalhadores não poupam,
o investimento é igual à poupança dos capitalistas (ver p. 69). Conclui-se
então diretamente da equação (8′) que a poupança dos capitalistas
“antecede” os lucros. Esse resultado pode parecer um paradoxo. O “senso
comum” sugeriria a seqüência contrária — isto é, que a poupança é
determinada pelos lucros. Contudo, não é esse o caso. O consumo dos
capitalistas em um certo período resulta de suas decisões baseadas
nos lucros do passado. Uma vez que entrementes os lucros mudam, a
poupança real não corresponde à disposição de renda pretendida. Na
verdade, a poupança real que é igual ao investimento irá “preceder”
os lucros, conforme demonstra a equação (8′). Pode-se apresentar o
seguinte exemplo para ilustrar como isso acontece. Imaginemos que
tanto o investimento como portanto a poupança e também os lucros
se apresentem constantes por algum tempo. Imaginemos que haja então
uma súbita mudança no investimento. A poupança aumentará imedia-
tamente junto com o investimento e os lucros também subirão na mes-
ma proporção. Contudo, o consumo dos capitalistas subirá somente
depois de algum tempo, como resultado desse aumento primário dos
lucros. Dessa forma, os lucros ainda estarão aumentando depois de já
se ter detido o aumento do investimento e da poupança.

O caso genérico

De que forma a equação (8’) irá se modificar se não aceitarmos
o equilíbrio da balança comercial e do orçamento do Governo nem que
a poupança dos trabalhadores é igual a zero? Se indicarmos a soma
do investimento privado, do saldo da balança comercial e do déficit
orçamentário por I’, a poupança dos trabalhadores por s e o consumo
dos capitalistas conforme acima por C, temos, quanto aos lucros, a
equação (ver p. 69-70):

P = I′ – s + C .

Veremos que para esse caso genérico a equação (8′) será modi-
ficada para:

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Pt =
I′t – ω – st – ω + A

1 – q
 . (8′′)

De fato, a fórmula (8′) foi obtida a partir da relação entre o consumo
dos capitalistas e os lucros (equação 5) e da suposição de que o inves-
timento I é igual à diferença entre os lucros e o consumo dos capitalistas.
Assim, quando essa diferença for igual a I′ – s, esse item é que deverá
então substituir I na fórmula (8′).

A equação (8′′) pode ser substituída por uma fórmula mais
simples, embora aproximativa. Devemos lembrar que o total da pou-
pança é igual à soma do investimento, saldo da balança comercial
e do déficit orçamentário, I′ (ver p. 69). Além disso, apesar de em
geral a poupança dos trabalhadores, s, não ser igual a zero, seu
nível e suas modificações absolutas são pequenos em comparação
com o total da poupança. Ademais, no decurso do ciclo econômico,
s deve apresentar um elevado grau de correlação com o total da
poupança. (Isso é o que se conclui das considerações que apresen-
tamos no capítulo seguinte, onde estabelecemos uma relação entre
os lucros e a renda nacional.) Dessa forma, tem que apresentar
elevado grau de correlação com I′. Conseqüentemente, temos como
uma boa aproximação:

Pt =
I′t – ω + A′

1 – q′
(8′′′)

onde a mudança de parâmetros de q para q′ e de A para A′ reflete a
substituição de I′t – ω – st – ω pela função linear de I′t – ω. Devemos lem-
brar que q é um coeficiente indicando que parte de um incremento
nos lucros será alocada para o consumo, enquanto a constante A é a
parte do consumo dos capitalistas que permanece estável a curto prazo
apesar de se achar sujeita a modificações a longo prazo. q′ e A′ refletem,
além disso, a relação da poupança dos trabalhadores com o total da
poupança, que é igual a I′.

A fórmula (8′′′) é superior à fórmula (8′′) no sentido de que pode
ser ilustrada por meios estatísticos. Isso é virtualmente impossível no
que diz respeito a (8′′), já que não há dados estatísticos disponíveis
quanto à poupança dos trabalhadores, s.

Ilustração estatística

Aplicaremos a equação (8′′′) aos dados dos Estados Unidos para
o período de 1929/40. Os valores “reais” dos lucros brutos depois da
dedução dos impostos, P,39 e de I′ aparecem na tabela 13. O significado

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39 P é obtido deduzindo-se todos os impostos diretos dos lucros brutos. Os impostos diretos
sobre salários e ordenados foram muito pequenos no período considerado.

de I′ é ligeiramente modificado em comparação com seu conceito básico.
Além