Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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do investimento bruto, do saldo da balança comercial e do déficit
orçamentário, aqui se acham incluídas as comissões de corretores. Nas
estatísticas dos Estados Unidos essas despesas se encontram incluídas
no consumo. Contudo, como se trata de um dispêndio típico de capital
que não se acha ligado intimamente à renda, é procedente que aqui
o consideremos no mesmo pé que o investimento. O índice de preços
implícito na deflação do produto nacional bruto do setor privado é
empregado como deflator para ambas as séries.40

Antes de estabelecer a correlação entre P e I′, foi necessário
determinar o hiato temporal, w, o que foi complicado pelo fato de
que parecia achar-se presente alguma tendência na relação entre
P e I′. A fim de contornar essa dificuldade, a tendência foi eliminada
aproximadamente tomando-se em consideração as primeiras dife-
renças ∆P e ∆I′. A correlação entre essas diferenças parece indicar
que o melhor ajustamento será obtido para um hiato de tempo de
cerca de três meses.

Em vista disso, P foi correlacionado com I′t – 1
4
, isto é, com I′

deslocado para três meses atrás por meio de uma interpolação. Assim,
I′t – 1

4
 foi obtido tomando-se 3/4 de I′ num dado ano e 1/4 de I′ no ano

anterior. A fim de se levar a tendência em consideração, foi estabelecida
uma correlação dupla de P′ com I′t – 1

4
 e o tempo t (contado em anos

a partir do meio do período 1929/40, isto é, de princípios de 1935). A
equação de regressão é:

Pt = 1,34I′t –
1
4
 + 13,4 – 0,13t .

O valor dos lucros, calculado a partir dessa equação, é dado
na tabela 13 para efeito de comparação com os lucros reais. O grau
de correlação é bastante elevado. O coeficiente de correlação dupla
é 0,986.

Se não houvesse poupança a partir dos salários e ordenados, o

coeficiente de I′t – 1
4
 seria igual a

1
1 – q

 na equação (8′). Nesse caso
deveríamos ter para q, que é o coeficiente indicando qual parte de um
incremento dos lucros será dirigida ao consumo:

1
1 – q

 = 1,34; q = 0,25 .

KALECKI

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40 Para os detalhes de cálculo de P e de I’, ver o Apêndice Estatístico, Notas 7 e 8.

TABELA 13. Determinação dos Lucros nos Estados Unidos, 1929/40.

Isso significaria que somente 25% dos lucros adicionais seriam dirigidos
ao consumo e 75% para a poupança. Na verdade, o coeficiente q será
maior porque uma parte da poupança vem da renda do trabalho. Con-
tudo, é improvável que q exceda muito 30%.

O coeficiente da tendência é negativo, o que provavelmente se
explica em grande parte pelo fato de que, devido à Grande Depressão,
os lucros na década de 30 foram muito mais baixos que na década
anterior e porque essa queda dos lucros a longo prazo poderia ter
causado um declínio da constante, A, durante o período considerado.
Em outras palavras, o padrão de vida dos capitalistas estava declinando
devido à depressão dos lucros a longo prazo.

OS ECONOMISTAS

78

5
Determinação da Renda Nacional e do Consumo

Introdução

No capítulo 2 investigamos a parcela relativa dos salários e or-
denados na renda nacional e nos dois últimos capítulos vimos a relação
entre os lucros e I′, a soma do investimento, do saldo da balança co-
mercial e do déficit orçamentário. A combinação dos resultados dessas
duas investigações nos permitirá estabelecer uma relação entre a renda
nacional e I′. Assim, no caso especial onde a balança comercial e o
orçamento governamental são equilibrados, a renda nacional será re-
lacionada ao investimento I.

A fórmula para a parcela relativa dos salários e ordenados na
renda bruta do setor privado estabelecida no capítulo 2 (p. 61) é:

V
Y

 = α +
B
Y

(4)

onde V é o valor “real” dos salários e ordenados e Y é a renda bruta
“real” do setor privado. O coeficiente α é positivo e < 1 e a constante
B, que está sujeita a modificações a longo prazo, também é positiva.
A diferença entre Y e V é π, os lucros líquidos antes da dedução dos
impostos. (No capítulo anterior, P representava os lucros líquidos depois
da dedução dos impostos.) Temos portanto:

Y – π
Y

 = α +
B
Y

ou:

Y =
π + B
1 – α

(9)
79

Para melhor compreensão do que se segue, devem ser ditas al-
gumas palavras a respeito da diferença entre o produto nacional bruto
e a renda bruta do setor privado, Y. A diferença entre o produto nacional
bruto e o produto privado bruto consiste no produto do Governo e é
medida pelos pagamentos aos empregados do setor público. A diferença
entre o valor do produto privado bruto e a renda bruta do setor privado,
Y, consiste nos impostos indiretos que se acham incluídos no valor do
produto privado.41 Assim, a diferença entre o produto nacional bruto
e a renda bruta do setor privado consiste nos pagamentos aos empre-
gados do Governo e dos impostos indiretos.

Produto nacional, lucros e investimento em
um modelo simplificado

Discutiremos o problema da determinação do produto ou da renda
nacional primeiramente com respeito ao modelo simplificado utilizado no
início do capítulo 3. Supúnhamos ali um sistema fechado de rendimentos
e gastos governamentais desprezíveis. Conseqüentemente, o produto na-
cional bruto é igual à soma do investimento privado e do consumo. Fizemos
também abstração da poupança dos trabalhadores. Para esse modelo, como
vimos, a fórmula (8′), que relaciona os lucros depois da dedução dos im-
postos, P, ao investimento, I (ver p. 75), é válida:

Pt =
It – ω + A

1 – q
(8′)

onde 1 > q > 0 e A > 0. Uma vez que o rendimento dos impostos é
desprezível, podemos tomar como idênticos os lucros antes e depois da
dedução dos impostos. O produto nacional bruto e a renda privada
bruta do setor privado, Y, também podem ser tomados como idênticos,
uma vez que tanto o pagamento dos empregados do Governo como os
impostos indiretos são desprezíveis. Temos portanto as seguintes e-
quações para a determinação do produto nacional bruto:

Yt =
Pt + B

1 – α
(9′)

Pt =
It – ω + A

1 – q
(8′)

É claro que a renda bruta ou produto bruto, Yt
′

, é completamente de-
terminada pelo investimento, It – ω.

OS ECONOMISTAS

80

41 Uma vez que a renda bruta do setor privado, Y, é tomada aqui antes dos impostos diretos,
Y inclui os impostos diretos.

Uma vez que a equação (9′) reflete os fatores que determinam
a distribuição da renda nacional, também podemos dizer: a renda bruta,
Yt , se desloca até um ponto em que os lucros sobre ela, determinados
pelos “fatores de distribuição”, correspondem ao nível de investimento
It – ω. O papel dos “fatores de distribuição” é assim o de determinar a
renda ou o produto com base nos lucros, que por sua vez são deter-
minados pelo investimento. O mecanismo dessa determinação da renda
já foi descrito no cap. 3 (ver p. 66).

Daí se conclui diretamente que as modificações na distribuição
da renda ocorrem não por meio de uma modificação dos lucros, P, mas
através de uma mudança na renda bruta ou produto, Y. Imaginemos,
por exemplo, que, devido à elevação do grau de monopólio, a parcela
relativa dos lucros na renda bruta aumente. Os lucros permanecerão
sem alteração, já que continuarão a ser determinados pelo investimento,
que depende das decisões de investir originadas no passado, mas os
salários e ordenados reais e a renda bruta ou produto irão cair. O
nível de renda ou produto irá declinar até o ponto em que a parcela
relativa dos lucros mais elevada permitir auferir o mesmo nível absoluto
de lucros. Nas nossas equações, a situação será refletida da seguinte
maneira: o aumento do grau de monopólio provocará uma queda do
coeficiente, α (de acordo com a equação (4), α é a parte da parcela
relativa dos salários e ordenados na renda Y que é independente do

nível de Y; a outra parte
B
Y

 representa a influência do elemento de

custo indireto presente nos ordenados). Em conseqüência, um nível
mais baixo da renda