Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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ou produto, Yt , corresponderá a um dado nível
de investimento, It – ω .

Modificações no investimento e no consumo em
um modelo simplificado

Dadas as relações entre os lucros e o investimento e a renda
bruta e os lucros, conforme expressas nas equações (8′) e (9′), qualquer
modificação do investimento provoca uma nítida modificação da renda.
Uma elevação do investimento em ∆It – ω provoca, com um hiato tem-
poral, uma elevação dos lucros em

∆Pt =
∆It – ω
1 – q

 .

Ademais, uma elevação dos lucros em ∆P provoca uma elevação da
renda bruta ou produto em

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∆Yt =
∆Pt

1 – α

ou

∆Yt =
∆lt – ω

(1 – α) (1 – q)
Deve-se lembrar que q é o coeficiente que indica a parte de ∆P, o
incremento dos lucros, que será dedicada ao consumo; e que α é o
coeficiente que indica a parte de ∆Y, o incremento da renda bruta,
que vai para salários e ordenados. Tanto 1 – q como 1 – α são < 1, de
modo que ∆Yt > ∆It – ω. Em outras palavras, a renda bruta ou produto
aumenta mais que o investimento, devido ao efeito da elevação do
investimento sobre o consumo dos capitalistas (fator 1

1 – q
) e sobre a

renda dos trabalhadores (fator 1
1 – α

 ). Uma vez que aqui se supõe que

o consumo dos trabalhadores seja igual à sua renda, isso quer dizer
que a renda aumenta mais que o investimento, devido à influência do
aumento do investimento sobre o consumo dos capitalistas e dos tra-
balhadores.42 Durante a depressão, a queda do investimento também
motiva uma redução do consumo, de modo que a queda do nível de
emprego é maior do que a que se origina diretamente da contração
da atividade investidora.

Para situar bem a natureza desse processo na economia capita-
lista, seria interessante considerarmos qual seria o efeito de uma re-
dução no investimento num sistema socialista. Os trabalhadores libe-
rados pela produção de bens de capital seriam empregados nas indús-
trias de bens de consumo. O acréscimo da oferta desses bens seria
absorvido por meio de uma redução de seus preços. Uma vez que os
lucros das indústrias socialistas seriam iguais ao investimento, os pre-
ços teriam que ser reduzidos ao ponto em que o declínio dos lucros
fosse igual à queda do valor do investimento. Em outras palavras, o
pleno emprego seria mantido através da redução dos preços com relação
aos custos. No sistema capitalista, contudo, é mantida a relação cus-
to-preço, conforme se acha refletida na equação (9′), e os lucros caem
no mesmo valor que os investimentos mais o consumo dos capitalistas
através da redução da produção e do nível de emprego. É paradoxal,

OS ECONOMISTAS

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42 Deve-se salientar que a equação (9′), que reflete a relação preço-custo, se baseia na condição
de elasticidade da oferta postulada na Primeira Parte. Se a oferta de bens de consumo é
inelástica, um aumento do investimento não resultará em um aumento do volume de con-
sumo, mas simplesmente em um aumento dos preços de bens de consumo (ver nota 36 do
cap. 3). Na argumentação seguinte, continuamos a supor, na mesma linha da Parte Primeira,
a condição de elasticidade da oferta.

realmente, que enquanto os apologistas do capitalismo geralmente con-
sideram o “mecanismo dos preços” a grande vantagem do sistema ca-
pitalista, a flexibilidade dos preços demonstra ser uma característica
própria da economia socialista.43

Até aqui vínhamos considerando a relação entre as modificações
absolutas do investimento, I, dos lucros, P, e da renda bruta ou produto,
Y. Será também interessante comparar suas modificações proporcio-
nais. Para isso, voltemos às equações (8′) e (9′). Devemos lembrar que
a constante A, a parte estável do consumo dos capitalistas, e a constante
B, a parte estável dos salários, são positivas. Segue-se que os lucros,
P, mudam proporcionalmente menos no decurso do ciclo econômico que
o investimento, I, e que o mesmo se aplica à renda bruta, Y, com
relação aos lucros, P. Conseqüentemente, as modificações relativas da
renda bruta, Y, são menores que as do investimento, I.

Uma vez que no nosso modelo a renda bruta ou produto, Y, é
igual à soma do investimento e do consumo, as modificações relativas
do consumo são menores que as da renda bruta. Ora, se um componente
(investimento) varia proporcionalmente mais do que a soma (renda
bruta ou produto), o outro componente (consumo) tem que variar pro-
porcionalmente menos do que a soma. Daí se conclui diretamente que
o investimento varia proporcionalmente mais do que o consumo, ou,
em outras palavras, que ele cai com relação ao consumo durante a
fase de depressão e que se eleva durante a fase de prosperidade.

O caso genérico

Abandonemos agora a suposição de que os gastos e os rendimentos
do setor público são desprezíveis. Por ora podemos continuar supondo
que a balança comercial e o orçamento do Governo são equilibrados e
que os trabalhadores não poupam. Assim, a equação (8′)

Pt =
It – ω + A

1 – q
(8′)

ainda se aplica, mas os lucros antes da dedução dos impostos, π, não
são mais idênticos aos lucros depois da dedução dos impostos, P. Su-
ponhamos, outrossim, que o sistema tributário seja dado e que a relação
entre os lucros “reais” antes dos impostos, π, e os lucros “reais” depois
dos impostos, P, possa ser expressa aproximadamente por uma função
linear. Poderemos então substituir a fórmula (9′) pela equação

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43 Deve-se salientar que numa economia socialista em expansão uma redução na razão pre-
ço-custo refletirá um deslocamento relativo — e não absoluto — do investimento para o
consumo.

Yt =
Pt + B′
1 – α′

(9′)

onde as constantes α e B não dependem simplesmente dos fatores
subjacentes à distribuição da renda nacional, mas são influenciadas
também pelo efeito do sistema tributário sobre os lucros. A partir dessas
duas equações fica aparente que a renda bruta do setor privado Y é
novamente determinada — com um hiato temporal — pelo investimento
I. A um incremento no investimento ∆It – ω corresponde um incremento
na renda bruta:

∆Yt =
∆It – ω

(1 – α′) (1 – q)
∆Y aqui é mais uma vez maior que ∆I. Isso, contudo, é explicado não
só pelo aumento do consumo dos capitalistas e dos trabalhadores sub-
seqüente ao acréscimo do investimento, mas também pelo maior volume
de impostos diretos que pagam sobre a renda acrescida.

Passando agora ao caso genérico onde a balança comercial e
o orçamento do Governo não são necessariamente equilibrados e
onde a poupança dos trabalhadores não é necessariamente zero,
temos (ver p. 75)

Pt =
I′t – ω + A′

1 – q′
(8′′′)

onde I′ é a soma do investimento, do saldo da balança comercial e do
déficit orçamentário, e onde q′ e A′ diferem de q e A na equação (8′)
na medida em que refletem a poupança dos trabalhadores. A forma
da equação (9′′) permanece inalterada:

Yt =
Pt + B′
1 – α′

(9′′)

Essas duas equações determinam Y, em termos de I′t – ω . O incremento
em Yt correspondente ao incremento de I′t – ω é

∆Yt =
∆I′t – ω

(1 – α′) (1 – q′)
A determinação do consumo é muito mais complicada do que no

nosso modelo simplificado onde o consumo era a diferença entre Y e
I. No caso genérico, o consumo é a diferença entre o total da renda
depois dos impostos e a poupança. Agora a poupança é igual a I′, a
soma do investimento, do saldo da balança comercial e do déficit or-
çamentário. O montante da renda depois dos impostos aqui não é igual

OS ECONOMISTAS

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a Y. De fato, este último valor é a renda bruta do setor privado, que
não engloba a renda dos empregados do Governo ou as despesas de
transferência do Governo e é antes dos impostos diretos. O montante
da renda depois dos impostos é igual a Y, mais a renda dos empregados
do Governo e as despesas de transferências do Governo e menos todos
os impostos diretos. Segue-se que o consumo é igual a Y – I′ menos os
impostos diretos, mais a renda dos empregados