Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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do Governo mais as
despesas de transferência. É óbvio que o consumo não pode ser com-
pletamente determinado em termos de I′ pelas equações acima, que
permitem a determinação somente de Y – I′.

Ilustração estatística

Tratemos agora de estimar os coeficientes da relação entre Y e I′
para os Estados Unidos no período 1929/41. Na página 62 estabelecemos
para aquele período a seguinte equação para a parcela relativa dos salários
e ordenados, V, na renda bruta do setor privado, Y:

V
Y

 ⋅ 100 = 42,5 +
707
Y

 + 0,11t

onde o tempo, t, é contado a partir de 1935.
Levando em consideração que os lucros antes dos impostos

π = Y – V, obtemos

Y – π
Y

 = 0,425 +
7,07

Y
 + 0,0011t .

A partir dessa equação, Y pode ser calculado com base em π. A
tabela 14 dá os valores “reais” verdadeiros de Y e π5 44 e o valor
calculado de Y. O grau de correlação entre o valor verdadeiro e o
calculado de Y é extremamente elevado. O coeficiente de correlação
é 0,995.

Se abandonarmos a tendência na equação acima, obtemos:

Y = 1,74 π + 12,2

que vem a ser a equivalente da equação (9). Necessitamos ainda
considerar os impostos sobre os lucros se quisermos obter a re-
lação de Y com os lucros depois dos impostos, P. Para isso, cor-
relacionamos os lucros “reais” antes e depois dos impostos (P foi

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44 Como deflator foi empregado novamente o índice implícito na deflação do produto bruto do
setor privado pelo Departamento do Comércio dos Estados Unidos.

TABELA 14. Renda Bruta do Setor Privado e Lucros nos Estados Uni-
dos, 1929/41.

dado acima na tabela 13) e obtemos uma equação de regressão que,
podemos supor, caracteriza o sistema tributário vigente naquele pe-
ríodo.45 Essa relação entre π e P nos permite exprimir Y em termos
de lucros depois dos impostos, P. Temos portanto como equivalente da
equação (9′′):

Yt = 2,03 Pt + 10,4 .

A relação entre P e I ’ para o mesmo período foi estabelecida
acima (p. 76). Desprezando a tendência, temos como equiva-
lente da equação (8’ ’’):

Pt = 1,34I′ t –
1
4
 + 13,4

Dessas duas equações obtemos:

OS ECONOMISTAS

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45 Tomamos em consideração aqui o período 1929/40, em vez de 1929/41. A equação de regressão
é: P = 0,86π + 0,9. O grau de correlação é bastante elevado, o que resulta do fato de que
o sistema de impostos diretos permaneceu razoavelmente estável durante o período consi-
derado. Os impostos, contudo, sofreram elevação substancial em 1941. (Para os detalhes,
ver o Apêndice Estatístico, Nota 9.)

Yt = 2,72I′ t – 1
4
 + 37,7 .

O incremento de Yt que corresponde, com um hiato temporal, a um
incremento de I′t – 1

4
 é:

∆Yt = 2,72∆I′ t – 1
4
 .

Assim, as modificações absolutas de Y são consideravel-
mente maiores que as de I′. Simultaneamente, de acordo com
a equação anterior, as modificações proporcionais de Y são me-
nores que as de I′.

Produto bruto do setor privado

Como dissemos acima (p. 80), a renda bruta do setor privado, Y,
não é igual ao produto bruto daquele setor. A fim de passar de uma
para outra, é preciso adicionar os impostos indiretos de todas as es-
pécies, tais como o imposto de consumo, taxas aduaneiras ou a con-
tribuição dos empregadores à previdência social. Se designarmos o pro-
duto ou produção bruta “real” do setor privado por O e o valor “real”
do total dos impostos indiretos por E, teremos:46

O = Y + E .

Como foi demonstrado acima, Y é determinado — com um hiato tem-
poral — pela soma do investimento, do saldo da balança comercial e
do déficit orçamentário I′ ou pelo investimento I se a balança comercial
e o orçamento forem equilibrados. A fim de determinar o produto
bruto do setor privado, é necessário fazer algumas suposições com
relação a E. As flutuações relativas de E no decurso do ciclo econômico
são geralmente muito menores que as da renda bruta, Y, pelas se-
guintes razões: (a) os impostos indiretos são freqüentemente aplicados
a gêneros de primeira necessidade ou quase de primeira necessidade,
cujo consumo flutua muito menos que Y; (b) as taxas são muitas vezes
fixadas em dinheiro e não ad valorem, de forma que o valor real
dessas taxas aumenta quando os preços caem. Tentando simplificar,
vamos supor na teoria dos ciclos econômicos exposta a seguir que E
seja uma constante.

Para a determinação da produção do setor privado, O, em termos
da soma do investimento, saldo da balança comercial e déficit orça-
mentário, I′, temos agora:

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46 Imaginamos Y e E submetidos ao mesmo deflator, que é o índice de preços, de O, isto é,
pelo índice dos preços do mercado.

Ot = Yt + E (10)

Yt =
Pt + B′
1 – α′

(9′′)

Pt =
I′t – ω + A′

1 – q′
 . (8′′′)

Conclui-se diretamente que um incremento de I′t – ω determina
um incremento de Ot:

∆Ot =
∆I′t – ω

(1 – α′) (1 – q′) .

Supondo-se que E seja uma constante, O demonstrará modi-
ficações proporcionais menores que Y. Como as modificações relati-
vas de Y no decurso do ciclo são menores que as de I′, segue-se que
isso é ainda mais verdadeiro com relação a O. Assim, se a balança
comercial e o orçamento estão equilibrados, de forma que I′ = I,
pode-se dizer que o produto bruto do setor privado O flutua menos
que o investimento I.

Modificações a longo prazo no investimento e na renda

Demonstrou-se acima que as modificações relativas do investi-
mento I (melhor dizendo, da soma do investimento, do saldo da balança
comercial e do déficit orçamentário, I′, que é igual à poupança) no
decurso do ciclo econômico são maiores que as da renda bruta ou pro-
dução do setor privado. Contudo, não é isso necessariamente o que
sucede a longo prazo.

A discrepância nas flutuações de I′ e Y ou O no decurso do ciclo
econômico depende principalmente de dois fatores: (a) que o consumo
dos capitalistas flutue menos que os lucros; e (b) que os salários mais
ordenados flutuem menos que a renda bruta, Y. Contudo, o consumo
dos capitalistas não tem que aumentar mais lentamente que os lucros
no decurso do crescimento a longo prazo de uma economia. Na verdade,
a parte estável do consumo dos capitalistas, A (ver p. 73), pode, a
longo prazo, subir proporcionalmente aos lucros, P. Da mesma maneira,
a parte estável dos salários e ordenados, B, que reflete o elemento de
custos indiretos presente na composição dos salários (ver p. 61), pode
também elevar-se a longo prazo proporcionalmente à renda, Y. Assim,
a longo prazo, o investimento e a renda podem não demonstrar modi-

OS ECONOMISTAS

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TABELA 15. Razão Entre “Formação Bruta de Capital” e “Renda Bruta
Nacional” nos Estados Unidos, 1869-1913.

ficações desproporcionais como as que apresentam no decorrer do ciclo
econômico.

Parece que nos Estados Unidos, no período de 1870-1914, as mo-
dificações a longo prazo no investimento e na renda foram de fato mais
ou menos proporcionais. A tabela 15 apresenta a razão entre “formação
bruta de capital” e “renda bruta nacional” para esse período, por décadas,
segundo Kuznets. Essa razão permaneceu bastante estável.

Apesar de tanto o numerador como o denominador diferirem em
termos de conceito de I′ e de Y,47 é praticamente certo que no período
considerado I′ e Y moveram-se mais ou menos proporcionalmente à
“formação bruta de capital” e à “renda bruta nacional” respectivamente.
A estabilidade da razão entre I′ e Y não quer dizer necessariamente
que tanto a distribuição da renda como a proporção do consumo sobre
os lucros tenham permanecido constantes, porquanto poderia ter havido
modificações que funcionassem como compensação sobre esses fatores.
De qualquer forma, não se pretende que a argumentação acima tenha
sido exposta para sugerir que a estabilidade a longo prazo da razão
entre poupança e renda seja uma lei econômica, mas simplesmente
para mostrar que existe a possibilidade da ocorrência dessa relação.

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