Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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47 I′ = “formação bruta do capital” menos investimento público mais déficit orçamentário.
Y = “renda bruta nacional” menos investimento público mais déficit menos renda dos em-
pregados do Governo.
As diferenças em questão são pequenas no período considerado e, portanto, pode-se supor
uma proporcionalidade nas modificações entre I′ e a “formação do capital” e entre Y e a
“renda bruta nacional”.

PARTE TERCEIRA

A Taxa de Juros

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A Taxa de Juros a Curto Prazo

Introdução

Afirmamos acima que a taxa de juros não pode ser determinada
pela demanda e pela oferta de capital, porque o investimento automa-
ticamente cria uma poupança de idêntico valor. Assim, o investimento
se “autofinancia” qualquer que seja o nível da taxa de juros (ver p.
70). A taxa de juros, portanto, resulta da interação de outros fatores.
Iremos tratar de demonstrar que a taxa de juros a curto prazo é de-
terminada pelo valor das transações e pela oferta monetária por parte
dos bancos; e que a taxa a longo prazo é determinada por previsões
da taxa a curto prazo baseadas na experiência passada e por estimativas
do risco envolvido na possível depreciação do ativo realizável, a longo
prazo (ver capítulo 7).

Velocidade de circulação e a taxa a curto prazo

Indiquemos por M a massa monetária, isto é, as notas de banco
em mãos do público e os depósitos bancários a vista, e por T o volume
total dos negócios, isto é, o montante do valor das transações em um
certo período; T/M então é a velocidade de circulação da moeda, V.
Freqüentemente se tem suposto que V é constante; e esse de fato é
o alicerce da teoria quantitativa da moeda. Mas parece bastante óbvio
que a velocidade de circulação de fato depende da taxa de juros a
curto prazo.

De fato, quanto mais alta a taxa a curto prazo, maior será o
incentivo a investir dinheiro por períodos curtos ao invés de mantê-lo
como reserva em caixa. Ou, de forma mais precisa: as transações
podem ser realizadas com uma quantidade de dinheiro maior ou
menor; contudo, o aumento dos meios de pagamento com relação
ao volume de negócios significa em média uma realização mais suave

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e mais conveniente das transações. Por outro lado, quanto mais
alta a taxa de juros a curto prazo, mais cara será essa opção em
comparação com a alternativa de se investir em ativos realizáveis
a curto prazo.48

Pode-se perguntar por que focalizamos aqui a taxa de juros a
curto prazo e não a taxa de juros em geral. Escolhemos a taxa a
curto prazo porque ela é a remuneração da renúncia à liquidez.49
Se compararmos a posse de um encaixe monetário com a de letras
a vista, a única diferença é que as letras não são diretamente uti-
lizáveis para realizar transações e que rendem juros.50 Quando, con-
tudo, comparamos a posse de dinheiro com a de títulos de renda
fixa, temos que levar em consideração também o risco de uma queda
no preço dos títulos.51

Chegamos à conclusão acima de que a velocidade de circulação
V é função crescente da taxa de juros a curto prazo ρ ou

T
M

 = V(ρ) . (11)

Dessa equação conclui-se diretamente que, dada a função V, a
taxa de juros a curto prazo, ρ, é determinada pelo valor das transações,
T, e pela oferta monetária, M, que, por sua vez, é determinada pela
política bancária.

OS ECONOMISTAS

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48 Aqui surge o problema de saber se, neste contexto, a taxa de juros a curto prazo deve ser
entendida bruta ou líquida com relação ao imposto sobre a renda. Se o empresário considerar
que o inconveniente da redução da quantia de dinheiro líquido que tem em seu poder irá
se refletir afinal numa redução correspondente dos lucros, então serão os juros antes dos
impostos que deverão ser considerados. Parece que, provavelmente, assim acontece. Contudo,
os resultados do estudo empírico subseqüente, com relação ao Reino Unido no período
1930/38, não são afetados por essa dificuldade, uma vez que a taxa de imposto sobre a
renda foi bastante estável durante o período.

49 Há que matizar a colocação, já que a taxa a curto prazo cobre, além disso, alguns custos
e inconvenientes trazidos pelas operações de investimento enquanto tais, ou “custos de
investimento”.

50 As “letras” aqui tipificam os ativos realizáveis a curto prazo em geral, entre os quais se
incluem também os depósitos a prazo fixo.

51 Não se deve concluir disso, contudo, que qualquer acréscimo ao dinheiro líquido à disposição
de uma firma irá tender a ser investido em letras. Imaginemos que uma firma tenha em
seu poder numerário, letras e títulos. Imaginemos ainda que enquanto seu volume de
negócios permanece inalterado e suas taxas de juros a curto e a longo prazos permanecem
também sem alteração a firma recebe mais dinheiro. Ora, se a firma investisse todo o
dinheiro adicional em letras, isso seria consistente com a relação entre a preferência pela
liquidez e a taxa de juros a curto prazo dada, mas seria desnecessário reduzir a proporção
dos ativos (títulos) relativamente mais “arriscados” mas mais compensadores do ponto de
vista da remuneração. Assim, a firma tenderá a investir parte do numerário adicional em
títulos.

Gráfico 3. Relação entre a velocidade de circulação, V, e a taxa de
juros a curto prazo, ρ.

A relação entre a taxa de juros a curto prazo, ρ, e a velocidade
de circulação, V, pode ser representada por uma curva com a forma
traçada no gráfico 3. Quando V for alto, isto é, a retenção de dinheiro
líquido for bem pequena com relação ao volume dos negócios, será
preciso um aumento bastante grande da taxa de juros a curto prazo
para motivar uma redução adicional do encaixe monetário. Dessa forma,
nesse ponto será necessário um aumento bastante grande da taxa de
juros a curto prazo para motivar um dado incremento da velocidade
de circulação, ∆V. Por outro lado, quando a moeda manual é abundante
com relação ao volume dos negócios, é fácil conseguir economias em
dinheiro líquido, e a elevação da taxa de juros necessária para possi-
bilitar um aumento da velocidade de circulação ∆V é pequena.

Ilustração estatística

Aplicaremos o raciocínio acima a uma análise das modificações
na taxa de juros a curto prazo no Reino Unido no período 1930/38,
para o qual se dispõe de dados sobre o volume dos negócios (lançamentos
nos débitos das contas correntes) da carteira de compensação de Lon-
dres. Apesar de a razão entre esses dados e o nível das contas correntes
poder parecer à primeira vista suficiente para nos dar a velocidade de
circulação, infelizmente a coisa não é tão simples assim.

O volume de negócios consiste em duas partes de caráter bastante
distinto: operações financeiras e não financeiras. Calcula-se que no
ano de 1930 as operações financeiras tenham representado cerca de
85%52 do volume total dos negócios. Por outro lado, as contas correntes
financeiras dificilmente representarão mais que um terço desse total.53
Essa desproporção obviamente reflete a velocidade de circulação muito

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52 BROWN, E. H. Phelps e SHACKLE, G. L. S. Statistics of Monetary Circulation in England
and Wales. 1919-1937. Royal Economic Society, Memorando nº 74. p. 28.

53 Ibid., p. 3.

maior das contas financeiras em comparação com as não financeiras.
Conseqüentemente, uma modificação na proporção das contas finan-
ceiras em comparação com as não financeiras provocará uma modifi-
cação considerável na razão entre o volume dos negócios e as contas
correntes, apesar de ambas as velocidades de circulação permanecerem
inalteradas. Esse defeito pode ser remediado da seguinte maneira: re-
duzimos o peso das operações financeiras multiplicando-as pelo fator
que leva a razão entre as operações financeiras e as não financeiras
no ano-base de 1930 ao nível da razão entre as contas correntes
financeiras e as não financeiras naquele ano. Em seguida, somamos
as “operações financeiras reduzidas” às operações não financeiras e
dividimos a soma pelo total das contas correntes. Essa razão