Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
194 pág.

Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

Disciplina:Macroeconomia3.382 materiais80.951 seguidores
Pré-visualização46 páginas
pode
ser considerada um índice aproximado das modificações da veloci-
dade de circulação. Esse cálculo é detalhado em meu artigo sobre
“A taxa de juros a curto prazo e a velocidade de circulação”.54 Os
resultados ali obtidos aparecem na tabela 16 e, em forma de gráfico,
no gráfico 4.55

TABELA 16. Índice da Velocidade de Circulação e Taxa de Juros a
Curto Prazo no Reino Unido, 1930/38.

Como se pode observar, exceto no que se refere a 1931, os pontos
de relação entre ρ e V situam-se em torno de uma curva cuja forma havíamos

OS ECONOMISTAS

96

54 Review of Economic Statistics. Maio de 1941.
55 Os resultados passaram por ligeira revisão, tendo sido incorporadas (1) uma modificação

no procedimento de trabalho da Carteira de Compensação em novembro de 1932, que
aumentou o volume total de suas operações em cerca de 2%, (2) uma modificação no escopo
das contas correntes em janeiro de 1938, que provocou um aumento de cerca de 2%.

Gráfico 4. Velocidade de circulação e taxa sobre letras do Tesouro,
Reino Unido, 1930/38.

deduzido a priori na parte anterior. O ano de 1931 está bem acima da
curva, o que pode ser explicado pela crise financeira ocorrida no segundo
semestre daquele ano, que provocou um deslocamento da curva para cima,
isto é, aumentou a quantidade de dinheiro líquido necessária para um
dado volume de negócios a uma dada taxa de juros a curto prazo.56

I. N. Behrman realizou, na mesma linha, uma análise da relação
entre a taxa de juros a curto prazo e a velocidade de circulação dos
saldos de caixa de grandes empresas manufatureiras dos Estados Uni-
dos para o período de 1919/40,57 obtendo resultados semelhantes.

Modificações na oferta monetária por parte dos bancos

Conclui-se da equação (11) que

MV(ρ) = T
Sob essa forma, essa equação é na realidade a equação da quan-

tidade de moeda.58 Seu significado aqui, contudo, é muito diferente do
da teoria quantitativa da moeda. Ela demonstra que, com um dado
valor de transações, T, um aumento na oferta de moeda, M, por parte
do sistema bancário, provoca uma queda na taxa de juros a curto
prazo.

O processo por meio do qual os bancos elevam a oferta monetária
merece ser tratado em detalhe. Para simplificar, vamos supor que os
depósitos bancários consistam apenas em contas correntes. Imaginemos

KALECKI

97

56 O ponto referente ao ano de 1938 também foi levemente deslocado para cima pelo aumento
da taxa a curto prazo no outono, em vista de certos acontecimentos políticos.

57 "The Short-Term Interest Rate and the Velocity of Circulation". In: Econometrica. Abril de
1948.

58 T é o montante do valor das transações e, portanto, equivale a PT na equação Fisher.

que os bancos decidam reduzir sua razão de caixa (isto é, a razão entre
a quantia de notas e contas no Banco Central e os depósitos) e comprar
letras. O preço das letras irá aumentar e assim a taxa de juros a curto
prazo irá cair ao nível em que o “público” estará pronto a somar às
suas contas correntes a quantia que os bancos gastam em letras.

É interessante notar que a compra de títulos de crédito pelos
bancos terá repercussões semelhantes. É verdade que inicialmente o
preço dos títulos se elevará e o rendimento dos títulos irá cair a um
nível que levará o “público” a abandonar os ativos realizáveis a longo
prazo e preferir ativos realizáveis a curto prazo e dinheiro líquido.
Mas haverá também uma tendência por parte do “público” a investir
em letras o dinheiro adicional recebido pela venda dos títulos aos ban-
cos; desse modo, o preço dos títulos irá subir e a taxa a curto prazo
irá cair até o nível em que o “público” estiver disposto a reter o dinheiro
adicional ao invés de investi-lo na compra de letras.

Modificações cíclicas na taxa de juros a curto prazo

De acordo com o que se disse acima, as flutuações cíclicas na
taxa de juros a curto prazo podem ser explicadas em termos da oferta
de dinheiro por parte dos bancos referida às flutuações do valor das
transações, T. Parece que em geral essa oferta de dinheiro flutua menos
que o valor das transações, de forma que a velocidade de circulação e
a taxa de juros a curto prazo aumentam na fase de prosperidade e
caem na depressão.

TABELA 17. Taxa de Juros a Curto Prazo no Reino Unido e nos Estados
Unidos, 1929/40.

*Anos de Guerra.

OS ECONOMISTAS

98

É preciso acrescentar que os movimentos da taxa de juros a curto
prazo na década de 1930 tanto no Reino Unido como nos Estados
Unidos não representam propriamente um padrão típico.

Tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos há uma queda
abrupta nos anos de depressão (com uma reversão temporária em 1931
no Reino Unido e em 1932 nos Estados Unidos, como reflexo do pânico
financeiro). Contudo, nos anos de recuperação, a taxa a curto prazo
continua a cair, refletindo assim uma tendência básica da política ban-
cária, voltada para o “dinheiro fácil”.

KALECKI

99

7
A Taxa de Juros a Longo Prazo

A taxa a curto prazo e a taxa a longo prazo

O capítulo precedente demonstrou que a taxa de juros a curto
prazo é determinada pelo volume de negócios e pela oferta de moeda
por parte do sistema bancário. Agora examinaremos o problema da
determinação da taxa de juros a longo prazo.

A fim de estabelecer uma ligação entre a taxa de juros a curto
e a longo prazos, examinaremos o problema da substituição entre um
ativo realizável a curto prazo que seja representativo, digamos uma
letra de câmbio, e um ativo realizável a longo prazo que seja também
representativo, digamos uma Obrigação do Tesouro.59 Imaginemos uma
pessoa ou uma empresa pensando em como investir suas reservas. O
investidor tenderá a comparar os resultados obtidos a partir do inves-
timento nos diversos tipos de títulos no decorrer de alguns anos. Assim,
ao fazer a comparação dos rendimentos obtidos, ele leva em conside-
ração a média da taxa de desconto esperada para esse período, que
indicaremos por ρe , e a taxa atual de juros a longo prazo (rendimento
das Obrigações), r. Podemos agora examinar as vantagens e desvan-
tagens de ambos os tipos de títulos, cujo resultado líquido explica a
diferença r – ρe .

Podemos em primeiro lugar considerar a possibilidade de uma
perda de capital. A posse de letras garante a integridade do principal.
Por outro lado, títulos de renda fixa podem sofrer uma depreciação de
seu valor durante o período considerado. O investidor pode desprezar

101

59 O autor aqui se refere a CONSOLS, nome abreviado de GOVERNMENT CONSOLIDATED
STOCK. Trata-se de títulos não resgatáveis que o Governo britânico tem emitido em diversas
ocasiões, desde meados do século XVIII, a preço variável em função da taxa de juros em
vigor na época. (N. do T.)

flutuações a curto prazo do valor dos títulos que possui, mas se a
perda de capital apresenta um caráter mais permanente, tem que
ser considerada como tal.60 Portanto, deverá ser feita uma previsão
para o risco de depreciação no valor, γ, quando se compararem os
rendimentos r e ρ.

Por outro lado, há certas vantagens que a posse de títulos de
renda fixa traz sobre a de letras. A taxa de desconto esperada, ρe ,
está sujeita a incertezas, enquanto a taxa de juros dos títulos, r, não
está. Ademais, a posse de letras que têm que ser recompradas cada
trimestre acarreta vários inconvenientes e custos. Contudo, essas con-
siderações não são de grande importância e as vantagens, ε, da posse
de títulos desse ponto de vista provavelmente não serão avaliadas acima
de, digamos, 1%.

Se considerarmos o efeito líquido das desvantagens, γ, e das van-
tagens, ε, em se possuir um título, temos:

r – ρe = γ – ε . (12)

Podemos considerar em mais detalhe o valor de γ. Se o preço
atual das obrigações é p e o proprietário tem uma certa idéia, mais
ou menos definida, baseada em sua experiência anterior a respeito do
mínimo que o preço pode atingir em sua queda Pmin , será plausível

supor que γ