Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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OS ECONOMISTAS

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1
1 +
g

rmax

 = 0,550 e
g – ε

1 +
g

rmax

 = 1,17 .

Com relação à taxa máxima esperada a longo prazo, podemos supor
que seja aproximadamente de 3,4, porque essa era a taxa máxima no
período em questão e o nível de r no início do período não era muito
inferior. Então, será possível determinar, a partir das últimas equações,
os coeficientes g e ε. Obtemos: g = 2,78, ε = 0,65.

A equação para o período 1919/38 é

r = 0,425 ρe + 2,90

e conseqüentemente

1

1 +
g

rmax

 = 0,425 e
g – ε

1 +
g

rmax

 = 2,90 .

Podemos supor aqui que rmax seja igual a 5,1, sendo este o nível al-
cançado no início do período e que nunca foi superado posteriormente.
Assim, obtemos: g = 6,9, ε = 0,07.

Podemos agora juntar os resultados de nossos cálculos:

Período g rmax ε

1849/1909 2,78 3,40 0,65
1919/1938 6,90 5,10 0,07

Do ponto de vista da confirmação de nossa teoria, o resultado
mais importante é que ε (a vantagem, abstraindo o risco de depreciação,
dos títulos em comparação com as letras) é pequeno, conforme espe-
rávamos a partir de razões a priori. Se o coeficiente de ρe no período
do pós-guerra tivesse sido não 0,425, mas, digamos, 0,25, deveríamos
coeteris paribus ter obtido o valor 3,7 para ε, o que obviamente seria
absurdo e portanto negaria nossa teoria.62

O coeficiente g é pequeno em comparação com 100, tanto no pe-
ríodo que antecedeu a guerra como no que lhe sucedeu — novamente
de acordo com nossa argumentação a priori. A elevação considerável
de g (cerca de duas vezes e meia) entre esses dois períodos é explicada

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62 A teoria não seria negada, contudo, se ε fosse pequeno e negativo, apesar de que de acordo
com nossa teoria deveria ser positivo. A pesquisa empírica aqui esboçada é necessariamente
de caráter aproximativo, de forma que pode facilmente apresentar um valor pequeno e
negativo de ε ao invés de um valor pequeno e positivo.

pelas flutuações muito maiores de r depois de 1914 e pela elevação do
imposto de renda e de sobretaxas. A pronunciada elevação de g, em
conjunto com o aumento de rmax, explica o deslocamento da reta AB
para a posição A1B1.

Estabilidade da taxa de juros a longo prazo durante
o ciclo econômico

Uma olhada no gráfico 5 revelará que as modificações mais im-
portantes da taxa a longo prazo não seguem um padrão cíclico de seis
a dez anos. Fora flutuações menores, há como que uma onda de 1849
a 1914. Esse período é seguido pelo da guerra e pela inflação do pós-
guerra. Depois da queda a partir do ponto máximo alcançado no início
da década de 1920, a taxa a longo prazo se estabiliza até a Grande
Depressão, quando surge uma tendência decrescente que continua até
dentro da segunda metade da década de 1930. A reversão dessa ten-
dência nos dois últimos anos antes da Segunda Guerra Mundial se
deve à situação política.

A tabela 19 dá o rendimento das Obrigações do Governo britânico
para o período 1929/38 e os rendimentos das Obrigações do Tesouro
dos Estados Unidos para 1929/40.

Em ambos os países, a característica principal é a tendência
decrescente que resulta da queda — a longo prazo — da taxa a
curto prazo. Contudo, a série americana difere em dois pontos: (a)
há um aumento significativo na taxa a longo prazo dos Estados
Unidos em 1932, refletindo a intensidade do pânico financeiro; (b)
não há elevação em 1937 e 1938, em contraste com o Reino Unido,
onde a taxa a longo prazo foi afetada pela situação política mundial.
Nenhuma das duas séries apresenta um padrão cíclico definido. Par-
ticularmente não há uma queda significativa como a da taxa a curto
prazo até 1934.

O fato de que a taxa a longo prazo não apresenta flutuações
cíclicas marcantes só serve para confirmar a teoria acima exposta. A
taxa a curto prazo normalmente cai num período de depressão e sobe
num de prosperidade, porque a oferta monetária sofre flutuações me-
nores que as do valor das transações. Mas a taxa a longo prazo reflete
essas flutuações apenas em certa medida. De fato, a taxa a longo prazo
se baseia na taxa média a curto prazo esperada para os próximos anos,
e não na taxa a curto prazo corrente; ademais, a taxa a longo prazo
se modifica bem menos que a taxa a curto prazo esperada, porquanto
sua elevação, isto é, a queda nos preços dos títulos, torna menos pro-
vável o risco de uma sua depreciação adicional (ver p. 103).

OS ECONOMISTAS

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TABELA 19. A Taxa de Juros a Longo Prazo no Reino Unido e nos
Estados Unidos Durante a Grande Depressão.

Fontes: Banco da Inglaterra. Sumário Estatístico; Conselho de Governadores do Sistema de Reserva
Federal. Estatísticas Bancárias e Monetárias.

*Anos de guerra

Alguns autores têm atribuído um papel importante à taxa de juros
entre as forças subjacentes às flutuações econômicas. Como é a taxa a
longo prazo que é relevante no que diz respeito à determinação do inves-
timento e portanto ao mecanismo do processo cíclico, os resultados acima
obtidos são bastante significativos. Efetivamente, em vista do fato de que
a taxa de juros a longo prazo, pelas razões acima expostas, não apresenta
flutuações cíclicas pronunciadas, dificilmente poderia ser considerada um
elemento importante no mecanismo do ciclo econômico.63

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63 Cf. p. 120 et seq.

PARTE QUARTA

A Determinação do Investimento

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O Capital da Empresa e o Investimento

O tamanho da firma e o capital da empresa

Quando se fala da limitação do tamanho de uma firma,
dois fatores em geral são apontados: (1) as deseconomias de gran-
de escala; (2) as limitações do mercado, cuja expansão exigiria a
redução dos preços a níveis que não seriam lucrativos ou então
a elevação dos custos de vendas. O primeiro desses fatores não
parece muito real, sendo desprovido de fundamentação tecnoló-
gica, porque, apesar de toda fábrica ter um tamanho ótimo, ainda
é possível ter-se duas, três ou mais fábricas. O argumento relativo
às dificuldades administrativas trazidas por uma empresa de
grande escala também parece duvidoso, já que sempre se pode
tratar de resolver esse problema recorrendo à descentralização.
A limitação do tamanho da firma pelo mercado para seus produtos
é bem real, mas ainda assim não explica a existência de firmas
grandes e pequenas dentro do mesmo ramo.

Há, contudo, um outro fator de importância decisiva na limi-
tação do tamanho de uma firma: o capital da empresa, isto é, a
quantidade de capital que a firma possui. O acesso de uma firma
ao mercado de capitais, ou, em outras palavras, o volume de capital
que pode esperar obter de investidores, é determinado em grande
parte pelo volume do capital dessa empresa. Seria impossível uma
firma tomar emprestado capital acima de um certo limite determi-
nado pelo volume de seu capital de empresa. Se, por exemplo, uma
firma tentasse recorrer à emissão de títulos, sendo essa emissão
desproporcional ao capital da empresa, não conseguiria subscrição
total. Mesmo que a firma procurasse emitir os títulos a uma taxa
de juros acima do normal, a venda dos títulos poderia se beneficiar

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com isso, uma vez que a própria taxa mais elevada poderia levantar
dúvidas quanto à solvência da firma no futuro.

Além disso, muitas firmas não se dispõem a recorrer ao uso
de todas as potencialidades do mercado de capitais, devido ao “risco
crescente” que a expansão envolve. Na verdade, algumas firmas po-
derão mesmo manter seu investimento a um nível abaixo do que
seria permitido pelo capital da empresa, parte do qual poderá estar
sob a forma de títulos. Uma firma que pense em expandir-se deve
encarar o fato de que, dado o volume do capital da empresa, o risco
aumenta com a quantia investida. Quanto maior o investimento com
relação ao capital da empresa, maior será a redução da renda do
empréstimo em caso de fracasso nos negócios. Suponhamos, por
exemplo, que um empresário deixe de ter qualquer