Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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a poupar”
formulado por Keynes um século mais tarde). Se a demanda não é
necessariamente igual à produção, então o progresso econômico depende
não apenas do acréscimo da capacidade produtiva mas também dos
determinantes do aumento da demanda efetiva, imprescindível para
pôr em operação aquela acrescida capacidade. Entre esses determi-
nantes, Malthus menciona a redistribuição da renda, a expansão das
exportações e dos gastos improdutivos (entre os quais se incluem os
gastos públicos).

Também Karl Marx se opôs frontalmente à “lei de Say”. De acordo
com ele, o processo de reprodução pode ser dividido em diferentes mo-
mentos. De posse de um dado montante de dinheiro (D), os capitalistas
adquirem um determinado volume de mercadorias (M), de dois tipos:
meios de produção (matérias-primas, equipamentos etc.) e força de tra-
balho. Operando com os meios de produção, a força de trabalho gera
novas mercadorias (M′), de maior valor (isto é, M′ > M). A transformação
de D em M e de M em M′ constitui o processo de criação de valor, ou
de produção stricto sensu. Mas o processo de produção lato sensu não
foi concluído, porque o valor criado ainda não foi realizado; para isso,
é preciso que as mercadorias produzidas (M′) sejam vendidas (conver-
tidas em D′). Assim, o processo completo pode ser expresso como
D → M → M′ → D′. Os momentos D → M e M → M′ dependem das con-
dições próprias da produção (existência de matérias-primas, equipa-
mentos, força de trabalho, o nível de produtividade etc.); a transfor-
mação de M′ em D′ depende das condições da realização, e nada garante
que o valor criado (M′) seja necessariamente realizado, tornado real
para os capitalistas.

Assim, para Marx, e contrariamente à “lei de Say”, a demanda

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não é necessariamente igual à produção. Mais do que isso, a produção
ou oferta de mercadorias tende naturalmente, no capitalismo, a ser
maior do que sua demanda. Vejamos a razão disso. O valor de todas
as mercadorias lançadas no mercado se decompõe em três partes: C,
ou capital constante, compreendendo os insumos incorporados nas mer-
cadorias e o desgaste (ou depreciação) dos equipamentos empregados
na produção; V, ou capital variável, correspondente aos salários pagos;
S, a mais-valia ou lucro que os capitalistas esperam auferir. Em suma,
o valor total da oferta é igual a W = C + V + S.

Para produzir esse valor, os capitalistas gastaram um montante
igual a C + V. Ou seja, para produzir mercadorias no valor de W = C
+ V + S, os capitalistas demandaram mercadorias no valor de C + V
e, portanto, sua oferta é maior do que sua demanda. Para produzir
W, os capitalistas tiveram de comprar meios de produção no valor de
C; como são os próprios capitalistas que vendem essas mercadorias
(uns vendem para os outros), isso significa que para produzir W os
capitalistas automaticamente realizam o valor de C. Tiveram também
de comprar força de trabalho no valor de V. Supondo-se que os traba-
lhadores não poupam, então todo o montante V de salários é gasto
por eles na compra de bens de consumo. Como são os capitalistas que
vendem esses bens, então, para produzir W, os capitalistas automati-
camente realizam também o valor de V. Em conclusão: para produzir
W = C + V + S, os capitalistas (diretamente, no caso de C, ou através
dos trabalhadores, no caso de V) demandam, e vendem, mercadorias
no valor de C + V. Falta, contudo, realizar o valor de S. Que significa
isso? Significa que se os capitalistas realizaram apenas o valor de C
+ V, eles não obtiveram lucros, mas tão-somente tiveram custos.

Como é que os capitalistas, considerados em conjunto, conseguem
realizar a mais-valia, auferir um lucro? A resposta é: comprando, uns
dos outros, mais mercadorias, além daquelas correspondentes ao valor
de C + V. Que mercadorias são estas? Os capitalistas, enquanto pessoas,
precisam consumir; logo, eles compram bens de consumo. Os capita-
listas, enquanto agentes do capital, preocupam-se em acumular; logo,
eles compram bens de investimento (novos equipamentos etc.). Em
conclusão: o montante do lucro auferido pelos capitalistas em conjunto
vai depender do quanto eles mesmos gastam na compra de bens de
consumo e de investimento. Assim, supondo-se que a capacidade pro-
dutiva total da economia é dada, o lucro é determinado pelo investi-
mento e consumo dos capitalistas. E esse lucro só por acaso será igual
ao S da equação da oferta.

Essas conclusões, que mais tarde seriam claramente explicadas
por Kalecki, podem ser tiradas diretamente da teoria de Marx (ver,
por exemplo, O Capital, v. II, p. I, cap. 4). Todavia, os primeiros se-
guidores e estudiosos de Marx não entenderam devidamente sua ex-
plicação do problema da realização no processo de acumulação de ca-

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pital. Alguns simplesmente ignoraram ou minimizaram a importância
do problema, e os outros deram as mais diferentes interpretações. Mas
o debate que se travou, se não levou a uma conclusão geral, pelo menos
serviu para assentar certos pontos específicos.

Por exemplo, Tugan-Baranovski (em seu livro sobre As Crises
Industriais na Inglaterra, edição russa de 1894 e edição francesa, mo-
dificada, de 1913) deixou bem claro duas questões básicas: 1) o desen-
volvimento da economia capitalista depende não apenas da expansão
das forças produtivas, mas também da ampliação dos mercados para
absorver a produção; 2) contrariamente à tese dos teóricos subconsu-
mistas, o aumento do consumo (seja dos trabalhadores ou dos capita-
listas) não é imprescindível para realizar a crescente produção; esta
pode ser realizada apenas no setor produtor de equipamentos — por
exemplo, são produzidas máquinas para produzir mais máquinas para
fazer ainda mais máquinas. Também Rosa Luxemburg (em A Acumu-
lação de Capital, 1913) acentuou o primeiro ponto. Mas não entendeu
o segundo; para ela, era necessário haver um mercado externo (fora
do sistema capitalista) para absorver a crescente produção e, assim,
estimular a acumulação capitalista. Esta é uma falsa solução teórica:
apesar disso, ao propô-la, Rosa Luxemburg destacou uma questão re-
levante para as economias capitalistas: o papel das exportações e dos
gastos públicos (especialmente com armamentos) no processo de rea-
lização da produção.

Fora da corrente marxista, poucos foram os economistas, até a
década de 1930, que se interessaram pelo problema da demanda efetiva.
Entre esses poucos, destaca-se J. A. Hobson, cuja principal obra sobre
o assunto, A Economia do Desemprego, foi publicada em 1923. Hobson
era um teórico do subconsumismo: segundo ele, a capacidade produtiva
da economia crescia mais rapidamente do que a capacidade de consumo
da sociedade, e isso acontecia devido à má distribuição de renda: de
um lado, os trabalhadores, com baixas rendas, não podiam aumentar
seu consumo, e de outro lado, os capitalistas, com altas rendas, for-
mavam grandes poupanças, acumulavam capital, ampliando cada vez
mais a capacidade produtiva.

A grande crise econômica iniciada em 1929 acabaria por forçar
o reconhecimento da importância da demanda efetiva no processo ca-
pitalista de produção. É verdade que, apesar da dramaticidade com
que o problema se apresentava, a esmagadora maioria dos economistas
de formação ortodoxa continuou a sustentar opiniões apoiadas na “lei
de Say”.7 Mas uns poucos, menos apegados à ortodoxia, começaram a
ver o problema. Isso aconteceu simultaneamente com dois grupos de

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7 Alguns exemplos dessas opiniões foram relacionados por HARROD, Roy. The Life of John
Maynard Keynes. Londres, 1951; KLEIN, Lawrence. The Keynesian Revolution. 2ª ed., Lon-
dres, 1968; e LEKACHMAN, Robert. The Age of Keynes. Londres, 1968.

economistas europeus nos primeiros anos da década de 1930. De um
lado, R. Frisch, B. Ohlin e principalmente Gunnar Myrdal, mais in-
fluenciados pela obra de Knut Wicksell, puseram em discussão as re-
lações entre