Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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Há que salientar que o coeficiente e e o hiato temporal θ são de fato
médias. A relação entre as alterações dos estoques e as modificações
da produção varia muito de um produto para outro, as alterações dos
estoques não apresentam uma relação direta com as alterações da pro-
dução de serviços (que também se acha incluída em Ot). Se pudermos
esperar alguma estabilidade de e, será somente com base na correlação
entre as flutuações de diversos componentes da produção total do setor
privado, O.

Deve-se salientar que o fenômeno da acumulação de mercadorias
não vendidas se explica pelo menos parcialmente pelo hiato temporal
θ da equação (18). De fato, quando o nível das vendas cessa de subir
e começa a descer, os estoques, segundo a nossa fórmula, continuarão
a subir durante algum tempo. Não se nega contudo que, em tais cir-
cunstâncias, a acumulação de mercadorias não vendidas possa conti-
nuar numa escala mais ampla do que a sugerida por essa fórmula.
Esse desvio da fórmula provavelmente não tem um efeito muito sério
sobre a teoria geral do ciclo econômico, porque essa acumulação “anor-
mal” de estoques é freqüentemente liquidada em um espaço de tempo
relativamente curto.

A fórmula do investimento total

Obtivemos acima as seguintes fórmulas para o investimento em
capital fixo, F, e para o investimento em estoques, J:

 Ft + θ =
a

1 + c
 St + b′

∆Pt
∆t + d′ (17)

Jt + θ = e
∆Ot
∆t (18)

Somando essas duas equações, obtemos a fórmula do investimento
total, I:

 It + θ =
a

1 + c
 St + b′

∆Pt
∆t + e

∆Ot
∆t + d′ . (19)

OS ECONOMISTAS

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St, no segundo membro, depende do nível das atividades econômicas

ao tempo t, enquanto
∆Pt
∆t e

∆Ot
∆t dependem da taxa de modificação

desse nível. O investimento total assim depende, de acordo com nossa
teoria, tanto do nível das atividades econômicas como da taxa de mo-
dificação desse nível em alguma ocasião anterior.

KALECKI

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10

Ilustração Estatística

O problema do hiato temporal

Aplicaremos agora a equação do investimento aos dados dos Es-
tados Unidos referentes ao período de1929/40. Um problema importante
a esse respeito é a escolha do hiato temporal θ.

Não parece razoável supor que esse hiato temporal seja maior
que um ano ou menor que um semestre, quer para o investimento em
capital fixo, quer para o investimento em estoques. Alguns talvez su-
ponham um hiato temporal mais longo para o investimento em capital
fixo. Deve-se salientar, contudo, que as estatísticas dos Estados Unidos
referentes ao investimento em capital fixo se baseiam no que se refere
ao ramo da construção, nos embarques de equipamentos e no “valor
posto no local”. Neste último caso, onde houver diferença no andamento
da obra de várias estruturas, o hiato temporal será mais ou menos
metade do que ocorre entre os inícios e os términos. Isso, é claro, reduz
consideravelmente a possibilidade de o hiato temporal aplicável à aná-
lise dos dados dos Estados Unidos ser de mais de um ano. (O setor
da construção é onde se fazem cerca de 50% do investimento em capital
fixo.) Por outro lado, é difícil imaginar que esse hiato seja inferior a
um semestre, principalmente se lembrarmos que θ também inclui a
reação retardada dos empresários perante os fatores que determinam
as decisões de investir. Parece que o mesmo se pode dizer com relação
aos estoques. À luz do que se sabe sobre seu movimento, é difícil supor
um hiato temporal inferior a um semestre. Por outro lado, um hiato
temporal de mais de um ano parece completamente fora de propósito
no caso.

Tendo fixado os limites do hiato temporal, θ, ainda ficamos com
o problema da escolha do θ “certo” dentro desses limites. Isso, contudo,
parece ser uma tarefa impossível. No caso do investimento em capital

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fixo, obtemos com um hiato temporal de um ano uma correlação dupla
razoável do investimento com a poupança e com a taxa de modificação
dos lucros. Com um hiato temporal de um semestre obtemos um elevado
grau de correlação do investimento com a poupança, mas a taxa de
modificação dos lucros parece não ter influência. O coeficiente de cor-
relação simples é muito mais elevado nesse caso que o coeficiente de
correlação dupla no caso do hiato temporal de um ano. Contudo, apesar
do bom ajustamento, essa relação não parece muito razoável. Afora o
fato de que de acordo com a teoria acima a taxa de modificação dos
lucros deveria exercer pelo menos alguma influência, não parece plau-
sível que um fenômeno tão complexo como o investimento em capital
fixo possa ser determinado apenas por uma variável. (O perigo da
aplicação do critério de “qualidade do ajustamento” à determinação do
hiato temporal entre as decisões de investir e o investimento real pode
ser exemplificado por um caso extremo. Imaginemos que o comércio
exterior e o orçamento estejam equilibrados e que o volume dos estoques
seja estável durante vários anos. Então, a poupança é igual ao inves-
timento em capital fixo para todo esse período. Assim, o “melhor ajus-
tamento” para a equação (17) seria obtido para θ = 0. A “equação de

regressão” seria então Ft = St, com
a

1 + 4
 = 1, b′ = 0, e d′ = 0. O

“coeficiente de correlação”, é claro, seria igual a 1.)
A correlação entre investimento em estoques e a taxa de alteração

do montante da produção parece ser muito mais elevada para um hiato
temporal de um ano que para um hiato temporal de um semestre.
Veremos, contudo, que o baixo coeficiente de correlação no caso do
hiato temporal de um semestre se deve principalmente ao fato de que
o investimento em estoques de 1930 se encontra bastante acima da linha
de regressão. Como esse foi o primeiro ano de depressão, isso pode ser
interpretado como uma demora inusitadamente longa no ajuste dos es-
toques imediatamente após o ponto de inflexão da produção (ver p. 127).
Assim é novamente difícil dizer se um hiato temporal de um semestre
é menos apropriado do que um hiato temporal de um ano, apesar de
o coeficiente de correlação no primeiro caso ser muito mais baixo.

A discussão acima exposta indica que a “qualidade do ajusta-
mento” não é nesse caso um critério adequado para a escolha do hiato
temporal. Dentro das circunstâncias presentes, a única solução parece
ser apresentar duas variantes da equação do investimento, baseando
uma delas no hiato temporal de um ano e outra no de um semestre.

Investimento em capital fixo

Examinaremos primeiramente as duas variantes para o investi-
mento em capital fixo. Aplicamos, então, a equação

OS ECONOMISTAS

132

 Ft =
a

1 + c
 St – θ + b′

∆Pt – θ
∆t + d′ (17)

primeiramente na suposição de que θ = 1, em segundo lugar, na su-

posição de que θ = 1
2

.

A tabela 20 apresenta os dados relevantes para a variante θ = 1. O
período em foco é 1930/40, porque a poupança, S, e os lucros, P, são contados
com relação ao ano anterior, de forma que o ano de 1929 “se perde”.

Tanto o valor do investimento em capital fixo, Ft, como o valor
do total da poupança bruta para o ano anterior, St – 1, foram calculados
usando como deflator o índice dos preços dos bens de investimento.71

A maior dificuldade surgiu na determinação da série
∆P
∆t . Isso foi feito

do seguinte modo: estimamos o valor dos lucros brutos depois dos im-
postos, aplicado o deflator constituído pelo índice dos preços dos bens

TABELA 20. Determinação do Investimento em Capital Fixo nos Es-
tados Unidos, 1930/40.

Fonte: Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Suplemento Sobre a Renda Nacional de
Survey of Current Business, 1951. Para mais detalhes, ver o Apêndice Estatístico, Notas 10, 11,
12 e 13.

1O índice dos preços dos bens de capital foi empregado como deflator.

KALECKI

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71 Não incluímos a comissão dos corretores na poupança bruta como havíamos feito na página
77,