Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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poupança e investimento. Na Inglaterra, John Maynard
Keynes (um declarado admirador de Malthus) e alguns discípulos —
entre os quais Joan Robinson — preparavam uma revolução contra o
domínio da “lei de Say”, o que aconteceu com a publicação, em 1936,
da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda de Keynes. Depois
do aparecimento dessa obra, e graças também ao grande prestígio de
seu autor nos meios políticos acadêmicos ocidentais, o princípio da
demanda efetiva foi ganhando aceitação geral.

Antes, contudo, de surgir a Teoria Geral de Keynes, Kalecki já
havia publicado, em polonês, três estudos8 que constituíram, em con-
junto, a primeira formulação precisa e sistemática do papel da demanda
efetiva no processo de reprodução capitalista. Nesses estudos pode-se
constatar claramente a influência de Marx, Tugan-Baranovski e Rosa
Luxemburg, como o próprio Kalecki o reconhece.9 E a partir deles Ka-
lecki foi ampliando e aprimorando suas concepções, que culminaram
com a publicação de sua Teoria da Dinâmica Econômica em 1954 —
da qual falaremos adiante.

Apesar de sua formação marxista e da originalidade de suas con-
cepções, que precederam o aparecimento da Teoria Geral de Keynes,
durante muito tempo Kalecki foi identificado como um “keynesiano”.
Na verdade, aconteceu o contrário: foi ele quem introduziu diversas
idéias que depois foram adotadas pela chamada “Economia Keynesia-
na”; como escreveu Joan Robinson: “Poucos da atual geração de ‘key-
nesianos’ param para indagar quanto eles devem a Kalecki e quanto
realmente a Keynes”.10

A partir da segunda metade da década de 1950 — e graças à
divulgação feita, entre outros, por Joan Robinson, Paul Baran, Paul
Sweezy e Lawrence Klein — a originalidade das idéias de Kalecki e
sua formação marxista começaram a ser mais conhecidas. Muitos eco-
nomistas marxistas passaram a perceber que a obra de Kalecki sobre
as economias capitalistas, embora desprovida do vocabulário marxista
tradicional e com todo o estilo formal e as expressões matemáticas,
constituía um desenvolvimento do velho “problema da realização”.11

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8 Esses três estudos são: “Esboço de uma Teoria do Ciclo Econômico” e “Comércio Internacional
e ‘Exportações Internas’”, de 1933. e “O Mecanismo da Recuperação Econômica”, de 1935.
O primeiro foi também publicado, com versões diferentes, em francês e inglês em 1935.
Esses estudos estão incluídos em Crescimento e Ciclo das Economias Capitalistas. Op. cit.

9 A esse respeito, ver KALECKI. “As Equações Marxistas de Reprodução e a Economia Mo-
derna” e “O Problema da Demanda Efetiva em Tugan-Baranovski e Rosa Luxemburg”. In:
Crescimento e Ciclo das Economias Capitalistas.

10 ROBINSON, Joan. “Kalecki and Keynes”. In: Problems of Economic Dynamics and Planning.
Op. cit.

11 Como mais tarde escreveu Maurice Dobb (Theories of Value and Distribution since Adam

4) A Teoria da Dinâmica Econômica

A respeito das economias capitalistas, Michal Kalecki elaborou
apenas três livros: Ensaios em Teoria das Flutuações Econômicas
(1939), Estudos de Dinâmica Econômica (1943) e Teoria da Dinâmica
Econômica (1954);12 todos seus outros livros acerca dessas economias
constituem coleções de artigos originalmente publicados em revistas
e/ou de capítulos específicos daqueles três livros.

Como o autor esclarece no prefácio da Teoria da Dinâmica
Econômica, este livro substitui os dois anteriores. Ou seja, embora
trate dos mesmos temas dos outros dois, constitui um novo livro.
E isso em três sentidos: primeiro, porque representa um aprimora-
mento; segundo, porque aborda algumas novas questões; terceiro,
porque se utiliza de novos dados estatísticos para verificação dos
argumentos teóricos. Em suma, o último livro constitui a versão
mais completa das idéias de Kalecki sobre o problema da dinâmica
das economias capitalistas.

Assim, os dois livros anteriores representam versões precursoras.
Mas não apenas eles: na verdade, quase todos os temas tratados na
Teoria da Dinâmica Econômica foram sendo aprimorados em sucessivos
trabalhos, muitos dos quais publicados como artigos de revistas. Por
outro lado, alguns desses mesmos temas continuaram a ser estudados
por Kalecki depois da publicação da Teoria da Dinâmica Econômica.
Portanto, para o leitor interessado na evolução das idéias do autor a
respeito desses temas, relacionamos, mais adiante, os trabalhos que
precederam e sucederam o referido livro.

De que trata a Teoria da Dinâmica Econômica? Embora seu sub-
título seja Ensaio Sobre as Mudanças Cíclicas e a Longo Prazo da
Economia Capitalista, o livro abrange também o problema da deter-
minação do nível da renda (ou da produção) a curto prazo.

As economias capitalistas em geral se desenvolvem dentro de
um padrão cíclico: ou seja, elas se expandem, mas com flutuações pe-
riódicas. Assim, a produção ao longo do tempo pode ser representada
como um movimento ondulatório, como a curva C na Figura 1. Mas,
apesar das flutuações, a produção continua a crescer; isto é, o movi-
mento ondulatório se dá em torno de uma tendência crescente, expressa
pela reta T na Figura 1. Nesse comportamento das economias capita-
listas, é possível separar três tipos de questões:

1) por que, num determinado ano, a renda atingiu um certo nível,

OS ECONOMISTAS

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Smith. Londres, 1973. p. 221): “Quanto a Kalecki (...) sua obra podia, realmente, ser con-
siderada uma formalização do ‘problema da realização’; e, exceto por sua apresentação
rigidamente formal e matemática, os marxistas podiam sentir-se num mundo familiar”.

12 Essays in the Theory of Economic Fluctuations. Londres, Allen & Unwin, 1939; Studies in
Economic Dynamics. Londres, Allen & Unwin, 1943; Theory of Economic Dynamics. Londres,
Allen & Unwin, 1954.

e não outro nível qualquer? Ou, por exemplo, para usar a Figura 1,
por que, no ano ti , a renda alcançou o nível Ri?;

2) por que a renda oscila ao longo do tempo? Ou, por que a renda
apresenta o movimento descrito pela curva C?;

3) por que a renda cresce? Ou, como explicar a tendência
crescente T?

É claro que essas três questões estão estreitamente relacionadas.
Mais do que isso; a longo prazo trata-se de um único problema: como
explicar o comportamento da produção no decorrer do tempo? A expli-
cação geral para essa pergunta responderia simultaneamente as três
referidas questões: a tendência crescente da produção, seu movimento
cíclico e o nível atingido em cada ano, tendo em vista que, ao longo
do tempo, o comportamento da produção nada mais é do que uma
sucessão de produções anuais. Metodologicamente, contudo, é possível
separar o problema geral nas três questões específicas, e isso é o que
tem sido feito na Ciência Econômica. A primeira questão é usualmente
conhecida como “determinação do nível da renda” (ou, em termos mais
gerais, “da atividade econômica”) e constitui um problema de “estática
econômica”, pois não envolve mudanças ao longo do tempo: trata-se
de explicar o nível da renda num único momento (isto é, num ano).
As duas outras questões são de “dinâmica econômica”: em ambas o
objeto de estudo são exatamente as variações do nível de renda ao
longo do tempo. Mas essas duas questões se diferenciam pelo fato de
que o objeto de estudo, em uma delas, são as mudanças cíclicas e, na
outra, é o crescimento da renda.

Essas duas questões de dinâmica econômica têm sido estudadas
separadamente. A análise dos ciclos e a do crescimento econômico ra-
ramente são integradas numa única teoria. Elas chegam mesmo a cons-
tituir dois capítulos em separado da Ciência Econômica. Sua não-in-
tegração se deve a duas razões básicas. A primeira decorre de injunções
históricas e mesmo do modismo. Assim, por exemplo, durante e até

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muitos anos depois da grande crise econômica de 1929/33, surgiu uma
vasta literatura sobre os ciclos; depois, quando as economias capitalistas
entraram num ritmo de firme expansão, a tônica