Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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nossos determinantes básicos. As invenções, portanto, transformam o
sistema estático em outro, sujeito a uma tendência ascendente. Deve-se
acrescentar que se pode supor coeteris paribus que o efeito das inovações
sobre o nível do investimento será tanto mais forte quanto maior for
o nível dos equipamentos. De acordo com isso, supomos em nosso modelo
da tendência que esse efeito é proporcional ao estoque de capital (ver
p. 174). Ao enfraquecer-se a intensidade das inovações, manifestou-se
um declínio desse efeito com relação ao estoque de capital. Como vimos
acima, haverá então um retardamento do processo de desenvolvimento
a longo prazo.

Embora aqui tenhamos identificado as inovações com as criações
da tecnologia, a definição das inovações pode ser facilmente ampliada,
passando a englobar fenômenos correlatos como a introdução de novos
produtos que exigem novos equipamentos para sua fabricação, a aber-
tura de novas fontes de matérias-primas que exigem novos investi-
mentos em instalações produtivas e de transporte etc. A argumentação
acima desenvolvida se aplica completamente também a esses casos.

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O enfraquecimento do crescimento das economias capitalistas nos
últimos estágios de seu desenvolvimento se explica provavelmente, pelo
menos em parte, pelo declínio da intensidade das inovações. Podem-se
apresentar três razões gerais para essa tendência. A mais evidente é
a importância decrescente da abertura de novas fontes de matérias-
primas etc. Outra é a dificuldade de aplicação de novas invenções que
resulta do caráter cada vez mais monopolista do capitalismo. Final-
mente, as “indústrias de montagem”, como as fábricas de automóveis,
de aparelhos de rádio e outros bens duráveis de consumo de massa,
estão continuamente crescendo em importância e nessas indústrias o
progresso tecnológico se concentra em grande medida na “organização
científica” do processo de montagem, o que não implica em investimento
significativo.

A poupança externa às firmas

Suponhamos que, quando o total da poupança bruta é igual à
depreciação, surja alguma poupança externa que é realizada pelas
pessoas que vivem de rendas. Dessa forma, a poupança “interna”
das firmas (igual à depreciação menos a poupança externa) está
abaixo do nível de depreciação, o que tende a deprimir o investimento
para baixo daquele nível também. Isso introduz uma tendência ne-
gativa no sistema mais ou menos da mesma forma que as inovações
injetam uma tendência ascendente a longo prazo. Na mesma linha
de argumentação que desenvolvemos no capítulo 14, a poupança
externa tenderá a gerar uma tendência negativa uniforme se o seu
valor real constituir uma proporção constante do valor real do es-
toque de capital. Se a poupança externa aumentar com relação ao
capital, a tendência negativa se acelerará.

Fica evidente que se o efeito das inovações combinar-se com o
da poupança externa, será o seu efeito líquido que determinará o de-
senvolvimento a longo prazo. A tendência será positiva somente se as
inovações exercerem uma influência mais forte que a poupança externa.
É evidente também que uma diminuição da intensidade das inovações
ou uma elevação da poupança externa com relação ao estoque de capital
produzirá um retardamento dessa tendência.

O crescimento populacional

É freqüente supor-se que o crescimento populacional seja um
estímulo importante ao desenvolvimento econômico. É verdade que, se
o nível populacional se mantiver inalterado, a produção poderá au-
mentar somente por meio de uma elevação da produtividade do trabalho
ou do aproveitamento do exército industrial de reserva. Portanto, o
crescimento da população amplia as potencialidades da expansão da

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produção a longo prazo. Resta ver, contudo, se um aumento da popu-
lação também propicia um estímulo ao desenvolvimento a longo prazo,
contribuindo para o uso efetivo dessas potencialidades.

Para encontrar uma resposta a essa questão, vamos considerar
um sistema estático e supor nele um aumento populacional. Uma vez
que a produção inicialmente permanece estável, a longo prazo haverá
um aumento do desemprego. Isso pressiona os salários para baixo, de
modo que nos defrontamos então com a questão de saber se a queda
dos salários a longo prazo estimula o desenvolvimento de uma economia
capitalista.

Em primeiro lugar, convém salientar que uma queda dos salários
a longo prazo — o que está ligado ao enfraquecimento dos sindicatos
— irá, de acordo com nosso raciocínio contido no capítulo 1 (p. 40),
tender a elevar o grau de monopólio e portanto a provocar uma trans-
ferência dos salários para os lucros. Longe de estimular a elevação da
produção a longo prazo, isso, como já foi visto (pp. 80-81), tenderá a
afetá-la desfavoravelmente.

Existe, contudo, um canal através do qual a queda dos salários
poderia, pelo menos teoricamente, estimular a tendência ascendente
a longo prazo da economia capitalista. Uma queda dos salários a longo
prazo provoca uma queda dos preços e, dessa forma, com a produção
estável, uma queda do volume em dinheiro dos negócios. Se a oferta
monetária por parte dos bancos não for reduzida proporcionalmente,
isso levará por sua vez a uma queda a longo prazo da taxa de juros
a curto prazo e conseqüentemente a uma queda da taxa de juros a
longo prazo. Essa queda seria equivalente, em termos de impacto sobre
o investimento, a uma elevação dos lucros a longo prazo e portanto
provocaria um movimento de tendência ascendente. Mas a elevação
da produção nesse caso não pode ser suficientemente grande para evitar
o aumento a longo prazo do desemprego; nesse caso a própria causa
da tendência desapareceria.

É muito duvidoso, contudo, que o mecanismo descrito funcione
no sentido de aumentar a produção. A ligação entre a queda do volume
dos negócios e a queda da taxa de juros a curto prazo é na verdade
bastante incerta a longo prazo. Se a queda do volume dos negócios
continuar durante um período de tempo longo, a política bancária pode
facilmente adaptar-se a essa queda secular, de forma a reduzir a oferta
de saldos pari passu com o volume dos negócios, sustentando assim a
taxa de juros a curto prazo.

É preciso salientar que alguns autores levam em consideração
outros canais através dos quais o crescimento populacional pode esti-
mular o desenvolvimento econômico. Eles afirmam que um acréscimo
da população estimula o investimento porque os empresários podem
então esperar com alguma certeza uma ampliação do mercado para
seus produtos. O que importa, contudo, nesse contexto, não é um acrés-

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cimo da população e sim um acréscimo do poder aquisitivo. Uma ele-
vação do número de miseráveis não amplia o mercado. Por exemplo,
o aumento da população não implica necessariamente numa demanda
maior de habitações — sem um aumento do poder aquisitivo, o resultado
poderá ser que mais gente venha a se apinhar no espaço habitável
existente.

Conclusão

Como já apontamos, nossa análise demonstra que o desenvolvi-
mento a longo prazo não é inerente à economia capitalista. Dessa forma,
torna-se necessária a presença de “fatores de desenvolvimento” espe-
cíficos para sustentar um movimento ascendente a longo prazo. Entre
esses fatores apontamos as inovações em seu sentido mais amplo como
o fator mais importante para promover o desenvolvimento. Verificamos
que outra influência a longo prazo, a poupança externa às firmas, é
um obstáculo e não um estímulo ao desenvolvimento.

Um declínio da intensidade das inovações nas últimas etapas do
desenvolvimento capitalista resulta em um retardamento do aumento
do capital e da produção. Ademais, se o efeito da elevação do grau de
monopólio sobre a distribuição da renda nacional não for contrabalan-
çado por outros fatores, haverá uma transferência relativa dos salários
para os lucros e isso constituirá outro motivo para o retardamento da
elevação da produção