Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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se deslocou para a
teoria de crescimento (nessa época, a elaboração de “modelos de cres-
cimento econômico” virou moda, e alguns autores chegaram a falar do
fim dos ciclos); na década de 1970, quando as economias capitalistas
voltaram a apresentar acentuadas flutuações, as teorias dos ciclos foram
ressuscitadas.

A segunda razão está na dificuldade de integrar consistentemente
numa única formulação teórica o problema dos ciclos e o do crescimento.
Essa dificuldade se torna maior quando, como no caso de Kalecki, a
explicação teórica é apresentada sob a forma de um modelo matemático.

O objetivo da Teoria da Dinâmica Econômica é o de explicar
como, nas economias capitalistas, sendo dadas suas condições próprias
de produção, a renda nacional e cada um de seus componentes (lucros
e salários, pelo ângulo da renda, e consumo e investimento, pelo prisma
da despesa) são determinados.

Determinação de Lucros, Salários e Renda Nacional. De acordo
com Kalecki, o volume total de lucros num dado ano é determinado
pelo investimento, consumo dos capitalistas, déficit orçamentário do
Governo e saldo de exportações (ver capítulo 3). Se, para simplificar,
excluímos estas duas últimas grandezas, temos: lucros = investimentos
+ consumo dos capitalistas. Ou seja, como já havia sido indicado por
Marx, os lucros realizados pelos capitalistas como um todo são tanto
maiores quanto mais eles investem e consomem.

De que depende, por sua vez, o volume total de salários? Se a
taxa de salário (isto é, o salário por trabalhador) não se altera, então,
quanto maior a produção, maior o emprego de força de trabalho e,
portanto, maior o montante de salários; logo, este último depende da
produção. Esta pode ser dividida em três setores: o setor I produz bens
de investimento, o II produz bens de consumo para os capitalistas, e
o III produz bens de consumo para os trabalhadores. A produção deste
último setor vai depender do montante de salários; supondo-se que os
trabalhadores não poupam, então, quanto maior esse montante, maior
a compra e, assim, a produção de bens do setor III. Se o volume de
salários depende da produção, mas, por outro lado, a produção do setor
III depende daquele, isso significa que ele é determinado pela produção
dos setores I e II: o aumento da produção nesses dois setores implica
o crescimento de seu volume de emprego e de salários; esse acréscimo
de salários, por seu turno, vai provocar o aumento da produção, do
emprego e do montante de salários no setor III. Assim, o volume total
de salários é determinado também pelo investimento e consumo dos
capitalistas.

OS ECONOMISTAS

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Se essas duas grandezas determinam tanto os lucros como os
salários, e sendo a renda nacional igual à soma de lucros e salários,
então elas também determinam a renda nacional. Mas, é preciso ob-
servar, essa conclusão só é válida se supomos que a distribuição da
renda entre salários e lucros não se altera. Para sermos mais exatos:
o montante de salários e a renda nacional dependem não apenas do
investimento e consumo dos capitalistas, mas também da repartição
da renda entre salários e lucros na economia como um todo.

Consideremos um aumento no investimento e no consumo dos
capitalistas, isto é, na produção dos setores I e II. Os lucros terão um
igual acréscimo. Mas o aumento no montante de salários vai depender
da distribuição da renda nos três setores. Se, ao crescer a produção
dos setores I e II, a repartição da renda não se alterar, então o montante
de salários crescerá na mesma proporção dos lucros; se a repartição
se modificar em benefício destes últimos, então o volume de salários
crescerá menos. Enfim, o montante de salários depende não só do in-
vestimento e do consumo dos capitalistas, mas também da repartição
da renda. O mesmo acontece com a renda nacional.

Distribuição de Renda. Constatada a importância da distribuição
da renda na determinação do produto nacional, cabe explicar a própria
distribuição. É com a análise desse problema que Kalecki inicia seu
livro. Na economia como um todo, a repartição da renda constitui a
média ponderada da repartição nos diferentes ramos produtivos. E,
em cada ramo, a distribuição é função de dois fatores: 1) o grau de
monopólio e 2) a relação entre o custo dos insumos materiais e os
salários. Quanto maior o grau de monopólio, maior é o preço (e, dentro
dele, o lucro) que uma indústria pode cobrar por sua mercadoria em
relação ao custo de sua produção (onde se incluem o custo dos insumos
e os salários); logo, maiores são os lucros em relação aos salários, isto
é, maior é a participação dos lucros na renda gerada. Em segundo
lugar, quanto maior o custo dos insumos em relação aos salários, e
como os lucros são auferidos sobre a soma de insumos e salários, então
maiores são os lucros em relação aos salários (ver capítulo 2).

Formação de Preços. O ponto fundamental dessa explicação da
distribuição da renda é o problema do grau de monopólio, o qual implica
toda uma teoria da formação dos preços. Por isso mesmo é que Kalecki,
antes de formular aquela explicação, trata de estabelecer sua teoria
da formação de preços (ver capítulo 1).

Em seus primeiros trabalhos de Economia, de 1928 a 1932, Ka-
lecki estudou muitos casos reais de produção e comercialização de mer-
cadorias e pôde observar a ação monopolista das empresas sobre os
mercados. Por isso, ele jamais aceitou a teoria neoclássica dos preços,
apoiada no princípio da concorrência perfeita, e viu-se obrigado a for-

KALECKI

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mular sua própria teoria, no que foi influenciado pelas obras pioneiras
de Sraffa, Chamberlin e Joan Robinson sobre o tema.13 Sua teoria é
a seguinte: excetuando a agricultura (onde os produtos são pouco di-
ferenciados e, a curto prazo, a oferta é rígida, e onde, portanto, os
preços são determinados pela demanda), nos demais setores existe re-
serva de capacidade produtiva, e as empresas — seja pela concentração
industrial ou seja pela propaganda, diferenciação real ou fictícia de
suas mercadorias etc. — detêm poder sobre seus mercados para fixarem
os preços de seus produtos. Para isso, cada empresa toma por base
seu custo médio de produção (insumos e salários) e acrescenta sua
margem de lucro, levando em conta o preço médio das outras firmas.
Quanto maior o domínio sobre o mercado — isto é, o “grau de monopólio”
— por parte de uma empresa, maior será o preço por ela fixado para seu
produto em relação a seu custo médio e, portanto, maior será seu lucro.

A concepção de Kalecki sobre o processo de formação dos preços
foi publicada pela primeira vez em 1938 e a partir daí, em sucessivos
trabalhos, foi sendo aprimorada. Mas até hoje continua sendo um dos
pontos mais discutidos de toda sua obra sobre as economias capitalistas
— e nem poderia deixar de ser assim, visto contrariar frontalmente a
teoria neoclássica dos preços, que é o mito mais sagrado dessa corrente
do pensamento econômico, dominante no mundo ocidental. De qualquer
modo, aceitando-a ou não, no todo ou em parte, um fato tem de ser
reconhecido: ao relacionar estreitamente a determinação do produto
nacional com a distribuição de renda e com o processo de formação
dos preços, Kalecki conseguiu integrar numa só teoria três problemas
que na Ciência Econômica ortodoxa são usualmente tratados em
separado (haja vista a tradicional separação da Macroeconomia e
da Microeconomia).

Importância Fundamental do Investimento. Podemos voltar agora
ao problema da determinação do nível da atividade econômica. Já dis-
semos que os lucros dos capitalistas como um todo num ano qualquer
são formados pelos gastos dos próprios capitalistas em investimento e
consumo nesse mesmo ano. Além disso, sendo dada a distribuição da
renda entre lucros e salários, aquelas duas grandezas determinam tam-
bém o montante de salários e o produto nacional. Assim, o investimento
e o consumo dos capitalistas (juntamente com o déficit orçamentário
do Governo