Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica
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Michal Kalecki - Teoria da dinamica economica

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e o saldo de exportações, que temos omitido para simplificar
a exposição) constituem as variáveis fundamentais na determinação
do nível da atividade econômica.

Todavia, como mostra Kalecki no capítulo 4, também o consumo

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13 SRAFFA, Piero. “The Laws of Returns under Competitive Conditions”. In: Economic Journal.
Dezembro de 1926; CHAMBERLIN, E. H. The Theory of Monopolistic Competition. 1932;
ROBINSON, Joan. Economics of Imperfect Competition. 1933.

dos capitalistas num ano qualquer depende dos investimentos efetuados
em anos anteriores. Logo, considerando a questão de modo dinâmico,
isto é, ao longo do tempo, a variável realmente estratégica é o inves-
timento. É essa variável que determina o nível da renda nacional num
dado ano e suas variações (ciclos e crescimento) no decorrer do tempo.
As relações entre a renda nacional (tanto seu nível como sua variação)
e o investimento são examinadas no capítulo 5.

Taxas de Juros. Estabelecido o papel estratégico do investimento,
cabe encontrar seus determinantes. Antes, porém, de entrar nesse as-
sunto, Kalecki faz uma parada para analisar as taxas de juros de curto
prazo (capítulo 6) e de longo prazo (capítulo 7). Do modo como se
encontram, sem maiores explicações acerca de suas ligações com o
tema central (a não ser na última página do capítulo 7), esses dois
capítulos parecem estar meio perdidos no livro. Mas não estão. De
acordo com muitos autores (tanto clássicos como neoclássicos, e também
Schumpeter e Keynes, embora baseados em supostos diferentes), a
taxa de juros assume grande importância na determinação do inves-
timento: este variaria em sentido contrário ao da taxa de juros. O que
Kalecki se propõe nesses dois capítulos é refutar essa concepção. Para
isso, antes de tudo, ele separa as taxas de juros de curto prazo e as
de longo prazo (o que raramente é feito pelos outros autores); e isso
deve ser feito porque os empréstimos para investimentos são efetuados
a taxas de longo prazo. A conclusão de Kalecki é a seguinte: as taxas
de curto prazo apresentam grandes oscilações, mas as de longo prazo
(as que efetivamente importam no problema em pauta) permanecem
relativamente estáveis durante períodos de tempo razoavelmente
longos (por exemplo, no decorrer de todo um ciclo econômico de oito
a dez anos) e, portanto, têm muito pouca influência no processo de
investimento.

Capital Empresarial como Limite do Investimento. Muitas teorias
tratam o investimento como se este fosse acessível a qualquer indivíduo
disposto a arriscar-se num empreendimento produtivo, o que caracte-
rizaria, nas palavras de Kalecki, “um estado de democracia econômica
onde qualquer pessoa dotada de habilidade empresarial pode obter
capital para iniciar um negócio”. A realidade, contudo, não é esta. A
quase totalidade dos investimentos é efetuada por pessoas (físicas ou
jurídicas) que já são proprietárias de capital. Logo, ao tratar dos de-
terminantes do investimento, é preciso levar em conta esse fato, como
o faz Kalecki (ver capítulo 8).

A propriedade de capital por parte de uma empresa — o capital
empresarial — é que limita o montante de investimento que a empresa
pode efetuar. E isso por dois motivos: 1) quanto maior for seu capital
próprio, a empresa terá maior acesso ao mercado de crédito, isto é,

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poderá obter maiores empréstimos para investimento; 2) dado o grau
de risco assumido pela empresa, o montante de empréstimos que ela
pode tomar para investimento vai depender de seu capital próprio.
Trata-se, nesse segundo caso, da aplicação daquilo que Kalecki deno-
minou (em estudo anterior) de “princípio do risco crescente”: ao tomar
empréstimos para investimento, o risco assumido pela empresa, em
caso de fracasso, será tanto maior quanto maior for o valor dos em-
préstimos em relação ao valor de seu capital próprio. Assim, com um
mesmo grau de risco, as empresas maiores podem recorrer a mais
empréstimos do que as empresas menores.

Determinantes do Investimento. Deixemos de lado a acumula-
ção de estoques que, para Kalecki, pode ser considerada uma função
da variação do volume de produção. Assim, o investimento se refere
apenas à acumulação de capital fixo. Seu montante, num dado mo-
mento, depende de três “fatores”: a disponibilidade de recursos fi-
nanceiros próprios, a variação nos lucros e a variação no estoque
de capital fixo. Além dessas três variáveis, na equação dos deter-
minantes do investimento é incluído um outro fator, considerado
relativamente constante ao longo do tempo; assim, independente-
mente das três variáveis, haveria sempre um certo montante de
investimento decorrente desse fator, o qual refletiria a soma de ou-
tras diversas influências — principalmente das inovações tecnoló-
gicas — sobre o processo de investimento.

Os referidos recursos financeiros são constituídos pela poupança
bruta das empresas (isto é, os lucros brutos não distribuídos) e pela
poupança pessoal dos proprietários que controlam as empresas. Esses
são os recursos de que elas dispõem para investimento sem precisarem
recorrer ao mercado de capitais. Quanto maior o volume desses recur-
sos, maior deve ser o montante do investimento; primeiro, porque as
empresas não podem deixá-los simplesmente ociosos e, portanto, ten-
dem a convertê-los em investimento; segundo, porque eles aumentam
o capital próprio das empresas (de que falamos antes), e, assim, am-
pliam o acesso ao mercado de capitais.

O investimento efetuado pelas empresas num dado momento pode
ser menor, igual ou maior do que o volume de seus recursos financeiros
próprios, dependendo da atuação dos outros dois “fatores” no momento
anterior: a elevação dos lucros influencia positivamente, mas o aumento
do estoque de capital fixo tem uma influência negativa. A simples
expansão dos lucros não basta para justificar o investimento; se, no
momento anterior, as empresas tinham capacidade ociosa mas, apesar
disso, o estoque de capital cresceu, então no momento presente elas
não precisam investir apenas porque a produção e, com esta, o volume
de lucros aumentaram: no momento presente elas podem continuar a
produzir mais, sem ampliar seu capital fixo (isto é, sem investir), sim-

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plesmente aproveitando-se da capacidade ociosa existente. Em suma,
é preciso levar em conta a variação tanto do lucro como do estoque de
capital fixo.

Essa teoria apresenta diversos pontos fracos, entre os quais dois
merecem destaque: 1) a influência do progresso técnico não é ressaltada,
permanecendo embutida numa constante adicionada à equação dos de-
terminantes do investimento; 2) não se explica por que os capitalistas
continuam a investir (a ampliar seu capital fixo) apesar da existência
de considerável margem de capacidade produtiva ociosa. Kalecki está
ciente das deficiências de sua teoria, e por isso mesmo continuou a
estudar o problema. Poucos anos antes de sua morte, publicou um
trabalho onde apresentou uma nova explicação dos determinantes do
investimento, eliminando aqueles dois pontos fracos. De acordo com
essa explicação, o estímulo ao investimento decorre da concorrência
entre os capitalistas: um capitalista é levado a introduzir inovações
tecnológicas e, portanto, a investir (visto que as inovações estão em-
butidas nos novos equipamentos de capital), apesar da existência de
capacidade ociosa, para captar lucros auferidos por seus concorrentes
(ver o ensaio “Tendência e Ciclo Econômico” em Crescimento e Ciclo
das Economias Capitalistas).

Ciclos e Crescimento. As duas últimas partes da Teoria da Di-
nâmica Econômica tratam separadamente dos ciclos (capítulo 11 a 13)
e do crescimento (capítulos 14 e 15). O problema dos ciclos, relacionado
ao dos determinantes do investimento, foi o que mais exigiu o esforço
intelectual de Kalecki em toda sua vida. Ele publicou um grande nú-
mero de trabalhos sobre o tema (relacionados mais adiante), tendo