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Rei, Guerreiro, Mago e Amante   a redescoberta dos arquétipos do masculino   Robert Moore e David Gillette

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Rei Rei Guerreiro uerreiro Mago ago Amantemante
A redescoberta dos arquétipos do masculinoA redescoberta dos arquétipos do masculino
Robert Moore e David Gillette
Editora Campus (Copyright 1993)
INTRODUÇÃO
Na recente entrevista de Bill Moyers com o poeta Robert Ely, "A Gathering of Men" (Reunião de 
homens), um jovem perguntou: "Onde estão, atualmente, os homens iniciados com poder?" Escrevemos 
este livro para responder a essa pergunta que preocupa homens e mulheres. No final do século XX, 
enfrentamos uma crise na identidade masculina de vastas proporções. Cada vez mais, os observadores do 
cenário contemporâneo — sociólogos, antropólogos e psicólogos — descobrem as arrasadoras dimensões 
desse fenômeno que afeta cada um de nós individualmente, da mesma forma como atinge a sociedade em 
geral. Por que há tanta confusão entre os sexos hoje em dia, pelo menos nos Estados Unidos e na Europa 
Ocidental? Parece cada vez mais difícil definir o que é masculino e o que é feminino.
Olhamos os sistemas familiares e vemos a ruptura da família tradicional. Um número crescente de 
famílias revela a triste realidade do pai que desaparece cuja ausência, seja através do abandono físico, 
emocional, ou ambos, provoca um desastre psicológico nas crianças dos dois sexos. O pai fraco ou 
ausente mutila a capacidade dos filhos ou das filhas para conquistar a própria identidade sexual e para se 
relacionar de forma intima e positiva com pessoas do seu sexo e do sexo oposto.
Mas acreditamos e sabemos por experiência própria que não podemos simplesmente mostrar a 
desintegração dos sistemas familiares modernos, por mais importante que seja na tentativa de explicar a 
crise da masculinidade. É preciso examinar outros dois fatores subjacentes.
Primeiro, temos que levar bastante a serio o desaparecimento dos rituais de iniciação dos meninos 
na condição adulta. Nas sociedades tradicionais, existem definições padronizadas para o que constitui o 
que chamamos de psicologia do Menino e psicologia do Homem. Pode-se ver isso de forma bem nítida nas 
sociedades tribais que passaram pelo exame atento de antropólogos famosos como Arnold van Gennep e 
Victor Turner. São rituais cuidadosamente elaborados para ajudar os meninos da tribo a fazer a transição 
para a condição adulta. Durante séculos de civilização ocidental, quase todos esses processos ritualísticos 
foram abandonados ou se desviaram por canais mais estreitos e menos energizados — para os fenômenos 
que hoje chamamos de pseudo-iniciações.
Podemos assinalar os antecedentes históricos do declínio dos rituais de iniciação. A Reforma 
Protestante e o Iluminismo foram movimentos fortes que compartilhavam o tema do descrédito ao processo 
ritualístico. E uma vez desacreditado o ritual como processo sagrado e transformador, o que nos resta é o 
que Victor Turner chamou de "mero cerimonial", que não possui o poder necessário para realizar a 
autêntica transformação de consciência. Desligados do ritual, abolimos os processos através dos quais 
tanto os homens como as mulheres conquistavam a sua identidade sexual de uma forma profunda, madura 
e vivificante.
O que acontece com uma sociedade quando os rituais por meio dos quais se formam essas 
identidades se tornam desacreditados? No caso dos homens, existem muitos que não foram iniciados ou 
que tiveram pseudo-iniciações que não proporcionaram a transição necessária para a condição adulta. 
Predomina a psicologia do Menino. Ela nos cerca por todos os lados, e suas marcas são evidentes. Entre 
elas, os comportamentos de atuação (acting-out) agressivos e violentos em relação aos outros, tanto 
homens como mulheres; passividade e fraqueza, a incapacidade de agir de forma eficiente e criativa no que 
se refere a sua própria existência e para gerar entusiasmo e criatividade nos outros (homens e mulheres); 
e, com freqüência, uma oscilação entre os dois — agressividade/fraqueza.
Junto com o colapso do ritual significativo para a iniciação masculina, um segundo fator parece estar 
contribuindo para a dissolução da identidade do homem maduro. Esse fator, que nos foi mostrado por um 
esforço da crítica feminista, é o patriarcado: a organização social e cultural que vem governando o nosso 
mundo ocidental, e grande parte do resto do mundo, desde pelo menos o segundo milênio antes de Cristo 
até hoje. As feministas verificaram o quanto a dominação masculina no patriarcado oprimiu e maltratou o 
feminino — as chamadas características e virtudes femininas e as próprias mulheres. Na crítica radical que 
fazem a esse sistema, algumas feministas concluem que, em suas raízes, a masculinidade; é 
essencialmente agressiva e que a ligação com o "eros" — com o amor, o relacionamento e a suavidade — 
se faz apenas pelo lado feminino da equação humana. 
Embora algumas dessas percepções tenham sido úteis na defesa da liberação, tanto feminina como 
masculina, dos modelos patriarcais, acreditamos existir nelas sérios problemas. A nosso ver, o patriarcado 
não é a expressão de uma profunda e enraizada masculinidade, pois esta não é agressiva. O patriarcado é 
a expressão da masculinidade imatura. É a expressão da psicologia do Menino e, em parte, o lado da 
sombra — ou louco — da masculinidade. Expressa o homem atrofiado, fixado em níveis imaturos.
O patriarcado, em nossa opinião, é uma agressão a masculinidade na sua plenitude, assim como à 
feminilidade no seu todo. Os que se prendem às estruturas e à dinâmica desse sistema buscam dominar 
igualmente homens e mulheres. O patriarcado fundamenta-se no medo masculino — o medo do menino, o 
medo do homem imaturo — em relação às mulheres, certamente, mas também em relação aos homens. 
Os meninos temem as mulheres. E temem também os homens de verdade.
O patriarca não aceita o pleno desenvolvimento masculino de seus filhos ou de seus subordinados, 
da mesma forma que não acolhe com prazer o desenvolvimento pleno de suas filhas ou de suas 
funcionárias. É a história do chefe no escritório que não suporta ver o quanto somos bons. Quantas vezes 
nos invejam, odeiam e atacam de forma direta e passiva quando buscamos revelar o que realmente somos 
em toda a nossa beleza, maturidade, criatividade e produtividade! Quanto mais nos tornamos belos, 
competentes e criativos, parece que mais hostilidade despertamos em nossos superiores, e até em nossos 
colegas. O que realmente nos agride é a imaturidade nos seres humanos, aterrorizados com os nossos 
avanços no caminho rumo à plenitude do ser masculino ou feminino. 
O patriarcado expressa aquilo que chamamos de psicologia do Menino. Não é a expressão da 
potencialidade masculina amadurecida em sua essência, na plenitude do ser. Chegamos a essa conclusão 
a partir do estudo que fizemos sobre os mitos antigos e os sonhos modernos, do exame do ponto de vista 
interno da rápida feminização da principal comunidade religiosa, da nossa reflexão sobre as rápidas 
mudanças dos papéis sexuais na sociedade como um todo e dos nossos anos de prática clínica, durante os 
quais nos tornamos cada vez mais conscientes de que falta alguma coisa essencial na vida interior de 
muitos homens que procuram psicoterapia.
O que está faltando não é, em geral, o que muitos psicólogos supõem; isto é, a ligação adequada 
com o lado feminino interior. Em muitos casos, esses homens que vêm buscar ajuda foram, e continuam 
sendo, esmagados pelo feminino. O que lhes faltou foi a ligação adequada com as energias masculinas 
profundas e instintivas, com o potencial da masculinidade amadurecida. Tiveram essa ligação bloqueada 
pelo próprio patriarcado, e pela crítica feminista a pouca masculinidade que ainda