Roberto Paulino - Prescritibilidade ações declaratórias
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Roberto Paulino - Prescritibilidade ações declaratórias

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a) Identificar a prescrição como operante no plano da “ação” processual,

retirando-a do campo do direito material;21

b) Atribuí-la eficácia extintiva de direito, confundindo-a com a decadência

ou preclusão;22

c) Atribuí-la eficácia extintiva de pretensão;23

d) Suprimir a ação de direito material24 ou mesmo confundí-la com a

pretensão.25

20

 MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado de direito privado, tomo VI, p. 104.
21

 Por todos, confira-se: LEAL, Antônio da Câmara. Da prescrição e da decadência: teoria
geral do direito civil. São Paulo: Saraiva, 1939, p. 20; CAHALI, Yussef Said. Prescrição e
decadência. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 32.
22

 Essa era a posição de PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 18 ed.
Rio de Janeiro: Forense, 1997, p. 435, posteriormente retificada, como se pode verificar da 23ª
edição, de 2010, à página 584. Na doutrina estrangeira, a mesma idéia é sustentada por
MESSINEO, Francesco. Manual de derecho civil y comercial. Buenos Aires: EJEA, tomo II,
trad. Sentís-Melendo, 1979, p. 60; ANDRADE, Manuel A. Domingues. Teoria geral da relação
jurídica. Coimbra: Coimbra Editora, vol. II, 2003, p. 445.
23

 Exemplificativamente, THEODORO JÚNIOR, Humberto. Comentários ao novo Código
Civil. Rio de Janeiro: Forense, vol. III, tomo II, 2003, p. 152.
24

 Por exemplo, GONÇALVES, Carlos Roberto. Curso de direito civil brasileiro. 4 ed. São
Paulo: Saraiva, vol. I, 2007, pp. 469-470. A supressão da ação material na descrição do
conteúdo da relação jurídica e portanto na explanação acerca da prescrição é muito comum. A
partir desta opção, remetem os autores, de forma consciente ou não, toda a impositividade ao
plano processual, o que causa contradição insuperável quando se tiver de examinar hipóteses
em que a satisfação se exige e se impõe fora do processo, como na legítima defesa da posse.
25

 “A violação do direito subjetivo cria para o seu titular a pretensão, ou seja, o poder de fazer
valer em juízo, por meio de uma ação (em sentido material), a prestação devida, o
cumprimento da norma legal ou contratual infringida, ou a reparação do mal causado, dentro de
um prazo legal (arts. 205 e 206 do CC). O titular da pretensão jurídica terá prazo para propor
ação, que se inicia (dies a quo) no momento em que sofrer violação de seu direito subjetivo. Se
o titular deixar escoar tal lapso temporal, sua inércia dará origem a uma sanção adveniente,
que é a prescrição. Esta é uma pena ao negligente. É perda da ação, em sentido material,
porque a violação de direito é condição de tal pretensão à tutela jurisdicional.” (DINIZ, Maria
Helena. Curso de direito civil brasileiro, cit., p. 430).

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O texto do Código Civil contribui consideravelmente para a confusão

doutrinária. Embora adote o conceito de pretensão, o que tem contribuído para

reduzir o número de adeptos da prescrição como causa de extinção da “ação”

processual, a redação do art. 189 se mostra imprecisa ao referir-se à extinção

da pretensão e ao surgimento da pretensão como efeito da violação do

direito,26 o que só é verdade quando se tem em mente direito absoluto, em que

a pretensão nasce quando alguém se nega a se abster de violá-lo.27

Em matéria de decadência, por sua parte, continua a doutrina a afirmar

que seu prazo não está sujeito a interrupção ou suspensão.28

Não há fundamento para tal conclusão, em que pese sua recorrência.

Pontes de Miranda já observava, sob o Código Civil de 1916, que o

legislador pode instituir hipóteses de suspensão e interrupção do prazo

decadencial. Na falta de disposição expressa, o prazo flui de forma ininterrupta,

não se aplicando a ele por analogia as causas que incidem sobre o prazo

prescricional,29 mas não há impedimento a que tal disposição venha a ser

editada, solução posteriormente adotada pelo art. 207 do Código Civil.

Ressalte-se que a busca pela precisão conceitual e terminológica

poderia representar um anacrônico retorno à jurisprudência dos conceitos e

seu formalismo logicista,30 ou, o que é pior, mero capricho destinado apenas a

deleite estético.

26

 “Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela
prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206.”
27

 “O Legislador Civil de 2002 quando, imiscuindo-se indevidamente em matéria científica,
adotou a norma do art. 189, declarando, in verbis, que “violado o direito, nasce para o titular a
pretensão, a qual se extingue pela prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206”,
cometeu duas graves incorreções, a saber: (i) A primeira, consiste na afirmativa de que a
pretensão nasce como consequência de violação do direito. Nada mais equivocado. A
pretensão é, tão somente, fase de exigibilidade do direito, de modo que surge sempre que o
direito subjetivo pode ser exigido. A ação é que nasce como decorrência de violação, mas não
do direito, e sim da pretensão (...) (ii) A segunda diz respeito à afirmação de que a prescrição
tem caráter extintivo. Como mostramos acima, a prescrição não extingue coisa alguma, apenas
encobre a eficácia da pretensão (=exigibilidade do direito) e da ação (=impositividade do
direito), o que resulta claro da circunstância de que, se não for alegada oportunamente, não
mais o poderá ser, perdendo toda a sua eficácia.” (MELO, Marcos Bernardes de. Teoria do fato
jurídico: plano da existência, cit., p. 141). Rodrigo Xavier mostra que, levado às últimas
consequências, o dispositivo inviabilizaria, por exemplo, a existência de pretensões inibitórias
(LEONARDO, Rodrigo Xavier. A prescrição no Código Civil Brasileiro, cit., p. 15).
28

 Por exemplo, PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil brasileiro, 2010, cit.
p. 590.
29

 MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado de direito privado, tomo VI, cit., p. 136.
30

 Entre tantos outros, consulte-se a exposição de CANARIS, Claus-Wilhelm. Pensamento
sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. 3 ed. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, trad. Menezes Cordeiro, 2002, pp. 28-38.

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Assim seria se a livre permuta dos conceitos não produzisse efeito

prático, o que aqui não é o caso. Sempre que uma abstração conceitual traz

consequências práticas efetivas, a preservação do apuro técnico na sua

utilização é pragmaticamente justificada.

O jurista que não compreende os instrumentos teóricos aqui descritos31

para a explanação da prescrição e da decadência utiliza-se de técnica

imprecisa e comete erros propriamente ditos quando da argumentação e da

decisão jurídica.

 Por exemplo, aquele que supuser ser a prescrição causa de extinção da

ação em sentido processual terá de concluir que a sentença que acolhe a

prescrição será prolatada sem resolução de mérito.

Quem adota a tese de que a prescrição extingue direitos não consegue

explicar a eficácia do pagamento de dívida com a pretensão encoberta.

Aquele que desconhece a natureza de ato-fato atribuída ao fato jurídico

prescrição e defende seu enquadramento como sanção pode afastar sua

aplicação com base em análise subjetivista, como exames de intenção ou

culpa no não-exercício da pretensão.

Além disso, quem não compreende o funcionamento das exceções se

verá em dificuldades quando tiver de analisar a Lei 11.280/06 e a declaração

de ofício da prescrição.

Por fim, o jurista que insistir em afirmar que os prazos de decadência

não se interrompem ou se suspendem se verá em contradição ao aplicar o art.

208 do Código Civil, que impõe causa de impediência ou suspensão do prazo

de decadência contra incapazes ou o art. 26, § 2º,